Vodafone Paredes de Coura: preparados para dançar, fazer mosh e saudar a contra-cultura

19 ago, 06:34
Vodafone Paredes de Coura (Hugo Lima)

Terceiro dia de concertos e a importância de ter uma banda da Bielorrússia a tocar em Paredes de Coura. Já para os fãs de hardcore, a noite foi de Turnstile.

O aplauso final detém-se, de forma prolongada, as luzes brancas de palco estão já acesas. Mais do que a felicitá-la pelo concerto que tinha acabado de dar, o público está a celebrar a banda pela sua existência. Está a tirar-lhe o chapéu, com todo o respeito. Estamos a falar de um trio de synth pop bielorrusso. Sim, da Bielorrússia. Os Molchat Doma.

O projecto de jazz com pós de electrónica e funk The Comet Is Coming está ainda a tocar no palco principal deste que é o terceiro dia de concertos do festival de Paredes de Coura e já a casa do palco Vodafone FM se encontra composta, as pessoas a aguardarem pela actuação de Molchat Doma. Às 20h35 em ponto, hora marcada para o início do concerto, Egor Shkutko (voz), Roman Komogortsev (guitarra e sintetizadores) e Pavel Kozlov (baixo e sintetizadores) entram, acompanhados pela projecção do logotipo da banda atrás de si. Amarelo banana, o símbolo parece um néon saído do filme de ficção científica Tron, de 1982, um dos primeiros a utilizar imagens geradas por computador.

Com Molchat Doma somos imediatamente introduzidos a uma ambiência new wave, através de um acorde de baixo demasiado parecido com o de Simon Gillup de The Cure para não ser notado. Os Molchat Doma mantém-se fiéis à melhor tradição synth pop dos anos 80, não apenas na sonoridade como na postura em palco – cada um no seu posto. O que cantam não sabemos, Egor Shkutko fala em russo (segundo o censo de 2009, 72% dos bielorrussos falam russo em casa).

Não sabemos sobre o que está a cantar Egor Shkutko, mas sabemos que há letras de músicas como a Sudno que diz algo como “viver é difícil e desconfortável,/ mas é confortável morrer”, acerca de um poeta que pondera suicidar-se. Egor Shkutko relaciona-se com o microfone sustido pelo tripé da mesma forma que o fazia Ian Curtis dos Joy Division: o corpo a contorcer-se sobre aquele objecto que o medeia perante o público, com os joelhos ligeiramente dobrados e inclinados na direcção um do outro. Atrás, passam imagens de Minsk, conhecida por ser um estandarte da arquitectura monumental estalinista.

O jornal The New York Times fez uma reportagem com os Molchat Doma em Dezembro de 2020 aquando das últimas eleições presidenciais, em que o oligarca Aleksandr Lukashenko garantiu o mandato pela sexta vez. O jornal norte-americano acompanhava o fenómeno da banda na sua terra natal, mas referia igualmente que o trio se tinha tornado viral na rede social Tik Tok, o que se traduzia já em mais de dois milhões de reproduções mensais de músicas suas no Spotify, a maioria oriunda dos Estados Unidos.

E é isso que a comparência dos Molchat Doma em Paredes de Coura tem de extraordinário: cidadãos sujeitos a um regime ditatorial como é o de Lukashenko, a sua presença ao vivo diz-nos que governos opressores não podem tudo. Há uma nova ordem, permitida pela globalização, que rasga fronteiras e – coisa muito importante – mantém as pessoas próximas.

De Minsk passamos para Baltimore e para sapatos a voar junto à frente de palco. No palco Vodafone, a banda de hardcore Turnstile é a mais aguardada da noite. E, porque os géneros se tocam – a partir de uma certa idade, a um ouvinte tudo soa sempre a qualquer coisa –, começamos por ouvir uma junção de punk fofinho (remniscências Offspring e Green Day) com o hardcore puro e duro, na melhor tradição de Black Flag ou Minor Threat.

Fofinho é uma palavra escolhida não por acaso. Com “thank you” (“obrigado”) escrito na t-shirt branca, o vocalista Brendan Yates não se cansa de enaltecer a presença do público, de agradecer o facto de as pessoas tomarem conta umas das outras: “let’s take this place up with love!” (“embora encher este lugar com amor!).

Como pano de fundo, está a ser projectada a capa do terceiro e mais recente disco que a banda gravou em estúdio, Glow On: um céu cor-de-rosa suave, pontuado por nuvens brancas. São essencialmente as músicas deste álbum de 2021 que os Turnstile tocam, como Mystery (logo a abrir o concerto), Blackout, Underwater boi, Endless ou Don’t Play. O mosh pit, área reservada junto à frente de palco para o pessoal dançar à molhada, está ao rubro desde o primeiro ao último momento.

Mas a cereja – doce e delicada – no topo do bolo que está a ser esta quarta-feira de concertos não é nem Molchat Doma nem Turnstile. São os suíços L´Éclair, que tocam – mas no palco secundário – depois dos nova-iorquinos Parquet Courts e antes de Turnstile. Parquet Courts, a quem chamam a nova encarnação dos Pavement, cumpriram, limpinho, a actuação ao vivo. É como se encaixassem as peças todas arrumadinhas no tabuleiro todo certinho de um jogo.

L’Éclair, dizíamos, são os que apresentam o som mais revigorante da noite. Munidos de uma guitarra, um baixo, percussão, bateria e sintetizadores, fazem a festa e gritam: “are you ready to boogie?” (“estão preparados para dançar?). E muita gente dança. Podiam ser a banda sonora de um filme blaxploitation como Shaft, guitarra e percussão a lembrarem sonoridades africanas. Imaginem os portugueses Gala Drop levados a um novo patamar.

Depois de Turnstile, o palco Vodafone encerra por fim em festa: com corações verdes, vermelhos, brancos. Com corações de plástico ao peito, que emitem cores, os franceses L’Impératrice e a sua leveza nu-disco enviam milhares de air hearts para o firmamento, pondo o público a dançar, feliz simplesmente por existir.

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