11 de fevereiro de 2022: o melhor dia normal de sempre da Universidade de Lisboa

11 fev, 00:33

Iria acontecer esta sexta-feira um atentado nunca visto em Portugal. Já não vai acontecer. Será um dia normal. Mas são tantas as perguntas - e as inquietações

Um jovem português de 18 anos planeava um ataque à Faculdade de Ciência da Universidade de Lisboa (FCUL). Tinha como objetivo cometer o maior número possível de homicídios sobre colegas universitários, de forma indiscriminada, num dia em que decorriam exames de segunda fase, juntando centenas de alunos. O plano seria aplicado esta sexta-feira.

O suspeito foi entretanto detido pela Polícia Judiciária, que, através da Unidade Nacional de Contraterrorismo, seguiu as pistas do FBI e conseguiu uma identificação e morada. Esta quinta-feira, após realizar uma busca à casa do jovem, confirmou que este detinha um plano pormenorizado do ataque, "com os detalhes da ação criminal a desencadear". No quarto tinha também várias armas brancas (facas, catanas e uma besta com dardos de aço), botijas de gás, garrafas com gasolina e isqueiros. 

Reservado, bom aluno, falava de assassinatos e violência com frequência

O jovem suspeito de planear o ataque é estudante do curso de engenharia informática da FCUL. Tem 18 anos e é natural de uma aldeia no concelho da Batalha, mas vive atualmente em Lisboa, onde foi detido. Na zona onde cresceu, a TVI/CNN Portugal falaram com alguns vizinhos do jovem, que relataram que se trata de um rapaz reservado, bom aluno, mas com algumas dificuldades de relacionamento com outras pessoas. Até ao momento, não são conhecidas as motivações para o ataque.

Também na Batalha, os antigos colegas de turma não se mostraram surpreendidos com a detenção e admitiram que jovem falava de assassinatos e violência com frequência. Assim que surgiram as primeiras informações, suspeitaram logo do jovem estudante, que garantem que na escola era "calmo, muito pouco social e brilhante". O suspeito teria um grande fascínio por este tipo de ataques, mais comuns nos Estados Unidos

Gustavo Jesus, psiquiatra especializado em jovens, analisou o perfil do jovem e considera que o planeamento conhecido do ataque leva a crer que o jovem tenha traços de personalidade psicopáticos: "Dos dados presentes, o mais provável é que não se trate de uma doença psicótica, no sentido em que isto foi uma coisa altamente planeada, com documentação vasta e planos muito duradouros no tempo. O planeamento aponta em traços de personalidade "psicopáticos", que façam com que a pessoa não sinta empatia pelos outros".

Um atentado sem precedentes

Não sendo evitado, este atentado sem precedentes transformaria Portugal neste pós-covid no primeiro país a ter um atentado terrorista em solo nacional. O presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, Jorge Bacelar Gouveia, frisa à CNN Portugal que a tentativa de atentado terrorista por parte de um jovem universitário é um caso sem precedentes em Portugal - e há conclusões a tirar. "Nos últimos dias temos estado a ser fustigados por vários atos de pirataria no ciberespaço e uma vez mais se verifica que uma pessoa isolada em casa pode estar a preparar um ato desta gravidade e com este carácter horrendo."

O alerta para a intenção deste ataque chegou à PJ na última semana através do FBI. As autoridades norte-americanas, na monitorização que fazem da internet, das redes sociais e da darkweb, como prevenção do fenómeno do terrorismo, detetaram conversas em chats nas quais intervinha o jovem português e onde este anunciava a intenção que tinha de cometer um atentado em Portugal. 

Comportamento não passou despercebido ao FBI

Hugo Costeira, vice-presidente do Observatório de Segurança Interna, explica à CNN Portugal que o trabalho na darkweb é feito através de uma disciplina que é o Network Intelligent Analysis - que no fundo é uma análise profunda das redes sociais. São utilizados softwares que, muitas vezes, têm tecnologias de Inteligência Artificial e aprendizagem profunda e, portanto, são tecnologias altamente desenvolvidas para fazer pesquisas quer na internet normal - como Facebook, Twitter, etc - quer nas darkwebs, onde por norma existe este tipo de comportamento criminal.

"É bem provável que o próprio FBI em muitos destes sites tenha alguma forma muito mais capaz de angariar informação porque nós em Portugal, em pleno século XXI, de vez em quando ainda duvidamos se os nossos SIS podem aceder ou não a metadados", realça o vice-presidente do Observatório de Segurança Interna.

Cuidado com o que andamos a negligenciar

Fernando Negrão, ex-diretor da Polícia Judiciária (PJ), refere que, ao longo dos últimos anos, "olhavámos para o RACI - o documento que diz o estado da criminalidade em Portugal - e a leitura que fazíamos é que em Portugal cada vez havia menos crime e, portanto, naturalmente nem precisávamos de falar na respetiva sofisticação porque ela não existia". "Sempre achei que esta forma de abordar a criminalidade em Portugal é uma forma que negligenciava principalmente a criminalidade grave porque ela sempre existiria e estaria com certeza presente, ainda que de uma forma embrionária. Se centravam todos os esforços no combate ao crime tradicional deixava-se para trás a criminalidade mais perigosa e que dizia respeito, por exemplo, ao terrorismo."

O jovem detido vai ser presente esta sexta-feira a tribunal, onde deverá ser indiciado por terrorismo. Mas será este um caso de terrorismo? Diogo Noivo, investigador da área de terrorismo, defende que este conceito necessita de ter sempre uma motivação política mas que, em Portugal, este conceito é sempre "menorizado". 

Também Rogério Alves critica a utilização do conceito de terrorismo neste caso, considerando que, para a investigação, dá jeito que seja visto como tal, de forma a permitir "buscas domiciliárias fora de horas" e certo tipo "de interceções telefónicas". O advogado sublinha que, para ser classificado como terrorismo, o ato tem de ter uma motivação política mas, em Portugal, a definição é mais abrangente, acabando por formar aquilo que classifica como "um terrorismo de banda larga".

Já Fernando Negrão tem uma opinião diferente: "Dir-me-á: mas isto não é criminalidade organizada. E eu dir-lhe-ei: ainda bem que a PJ interveio a tempo no sentido de não deixar organizar. Mas temos de estar atentos e dar mais meios no que diz respeito à prevenção".

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