A grande ilusão

2 jun 2023, 18:42

O tempo da Ucrânia e o tempo da NATO

Na antecâmara da tão aguardada contra-ofensiva, mais de um ano depois do início da invasão, o sonho ucraniano é o mesmo e a posição dos seus aliados também. O desfecho possível continua a seguir tempos diferentes. A Ucrânia quer a adesão rápida à NATO, mas a NATO não tem essa pressa para oferecer. O tempo da adesão, aliás, é um tempo que ninguém conhece, por todos os impedimentos de tratado que pressupõe, desde a resolução das disputas territoriais ao pressuposto do artigo 5º sobre a defesa colectiva em caso de um ataque – abrindo caminho a uma Terceira Guerra Mundial que ninguém quer.

No tempo actual, a urgência é assim um constructo com perceções distintas dos dois lados da cortina de ferro e de fogo. A NATO alimenta as falsas expectativas da Ucrânia, ao sinalizar - vivendo no seu tempo próprio de paz garantida pelos ucranianos na contenção da Rússia - que esta Ucrânia será NATO, esquecendo a realidade paralela da guerra em que os ucranianos vivem hoje, sem conhecer o amanhã. Um “sim”, hoje, para Kiev, é um “sim” para amanhã.

Ainda assim, na véspera da Comunidade Política Europeia, onde Volodymyr Zelensky repetiu exigências de armamento e de adesão, Emmanuel Macron procurou quebrar a linha de consenso para exigir algum tipo de garantias de segurança que não têm obrigatoriamente de passar pelo quadro da NATO. Mas outros, como os britânicos, mantêm a encenação a troco do armamento pesado que vai chegando ao campo de batalha, a ilusão mantida de que a Ucrânia, sim, será NATO, sem saber se será mesmo, mesmo no tempo em que sonha. Ou até em tempo de paz.

O sonho ucraniano vai dando lugar à resignação, apesar da urgência. Zelensky, numa rara declaração, admite agora que provavelmente será preciso esperar pelo fim da guerra. E aí, continuará a ilusão?

 

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