Eunice Muñoz celebra 80 anos de carreira no palco onde tudo começou no Teatro Nacional

28 nov 2021, 07:00

Foi a 28 de novembro de 1941 que Eunice Muñoz, então com 13 anos, se estreou como atriz, no Teatro Nacional, em Lisboa. E é lá que vai estar, este domingo, 80 anos depois, a fazer aquilo de que mais gosta: representar

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Eunice Muñoz tinha 13 anos quando, no dia 28 de novembro de 1941, subiu pela primeira vez ao palco do Teatro Nacional, em Lisboa. Interpretava o papel de Isabel na peça "Vendaval", produção da Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. De olhos grandes e cabelo muito preto, era ainda uma menina ao lado de atores já consagrados como Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Maria Lalande, Lucília Simões, Raul de Carvalho ou João Villaret.

Exatamente 80 anos depois da sua estreia como atriz, Eunice volta a esse mesmo palco. Este domingo, às 16.00, apresenta "A Margem do Tempo", espetáculo com que escolheu encerrar a carreira, ao lado da sua neta, Lídia. A sessão especial contará com a presença de amigos e colegas que, no final, lhe prestarão homenagem.

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"O teatro alimenta-me. Toda a vida o teatro deu-me sempre segurança. São 80 anos de gratidão", disse, numa entrevista à TVI em abril.

"Só podia ser atriz"

Eunice - a atriz é tão popular que ganhou o direito a ser tratada assim, só pelo primeiro nome - tem agora 93 anos. 

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Sou uma pessoa como outra qualquer”, mulher, mãe de seis filhos, com netos e bisnetos, mas, “em princípio, só podia ser atriz”, admitiu numa entrevista recente à Lusa.

Eunice é “uma atriz por herança”, que descende de uma família de três gerações de atores. Alentejana  de Amareleja, nasceu a 30 de julho de 1928 e em criança, quando viajava com os pais e o seu teatro desmontável pela província, tinha uma relação de amor-ódio com o teatro. Gostava de representar mas, quando era chamada ao palco, o que começou a fazer logo aos cinco anos, ficava nervosa. “Inventava até dores de barriga para evitar as caras assustadoras que olhavam para mim”, contou em várias entrevistas.

Apesar disso, “alguém reparou” nela e teve oportunidade de, em 1941, se estrear no Teatro Nacional com a peça "O Vendaval", de Virgínia Vitorino, com encenação de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Tinha 13 anos.

“Tive uma sorte imensa de ter comigo a primeira companhia do país, com os maiores atores e as maiores atrizes, como a Amélia Rey Colaço que foi minha mestre muito querida", disse a atriz. "Foi a Sra. D. Amélia Rey Colaço que me ensinou, digamos, a pisar o palco. […] Dirigia-me, e eu aprendia tanto com isso."

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Dois anos depois, também no Nacional, foi como Maria, na peça “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, que conquistou a atenção do público e da crítica.

Já decidida a ser atriz, foi estudar para o Conservatório, que terminou com 18 valores. Pelo meio, estreou-se no cinema com "Camões", filme de Leitão Barros (1946) que a levou ao Festival de Cannes, em França, e lhe valeu o prémio de melhor atriz de cinema atribuído pelo SNI – Secretariado Nacional de Informação.

Uma pausa antes da consagração

Aos 18 anos casou-se e teve uma filha. A carreira ia de vento em popa mas Eunice estava insatisfeita. Em 1953, tinha 21 anos, suspendeu a atividade. Queria dedicar-se à família. Precisava de pensar na sua vida. “Conheci outra realidade. Foi muito agradável, foi muito bom. Foi como se nascesse outra vez”, explicou.

Foi trabalhar para uma loja de cortiça, Mr. Cork, no Príncipe Real, onde se tornou uma atração turística – não podendo vê-la em palco, os fãs iam vê-la ao balcão. “A experiência acabou por se tornar insuportável”, contou.

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Optou por tirar um curso de secretariado. Foi “um percurso que teve de ser feito”, recordaria mais tarde, sem qualquer mágoa. Trabalhou depois numa fábrica de materiais elétricos, onde acabou por conhecer o segundo marido. Foi ele que a incentivou a voltar ao teatro, o que acabaria por acontecer em 1956, a convite de Vasco Morgado, para interpretar "Joana d'Arc", de Anouilh, no Teatro Avenida, e que foi um estrondoso sucesso.

Ao longo da carreira, Eunice Muñoz deu vida a personagens em “muito mais de 100 peças” de teatro, cruzando quase todos os géneros dramáticos, participou em, pelo menos, 16 filmes e em diversas telenovelas, entre as quais “A banqueira do povo” (1993), um trabalho inspirado na história real da banqueira Dona Branca.

Entre as personagens que interpretou guarda com especial carinho as protagonistas de "Zerlinda" (1988) e "Mãe Coragem" (1986), com que Ganhou o prémio Garrett para Melhor Atriz.

"A Mãe Coragem deu-me muita alegria, tinha tanto prazer em fazê-la, cada noite era uma satisfação íntima. Fiz aquilo que um ator não pode fazer, saí de mim própria. Foi tão forte que fiquei com um problema: uns meses depois, estava de férias, e comecei a ver em duplicado. O ator é um fingidor e ali não fingi, excedi-me", contou Eunice, que também é mãe, com seis filhos  (a última com o seu terceiro marido, o escritor António Barahona).

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A despedida não é para já

Em 2010, com 81 anos, quando andava em digressão com "O Ano do Pensamento Mágico" e ao mesmo tempo gravava mais uma novela, admitia: “A minha memória é menos minha amiga. De qualquer modo, continua a ir até onde consegue ir com a minha idade.”

Não há muitos atores que celebrem os 80 anos de carreira em palco. Mas Eunice continua a sentir prazer em representar.

“Na repetição que é o teatro, efetivamente, mesmo quando pensava que ia ter mais uma representação, mais um dia, transformava esse dia numa entrega”, contou à Lusa. “Isso esteve sempre comigo, sempre, sempre”, acentuou.

Este ano, Eunice anunciou que "A Margem do Tempo" seria o seu último espetáculo.

"A Margem do Tempo" é uma encenação de Sérgio Moura Afonso do texto de Franz Xaver Kroetz, onde Eunice Muñoz é acompanhada em palco por Lídia Muñoz, sua neta e também atriz, num espetáculo íntimo e sem palavras. Depois da estreia em abril, em Oeiras, a peça tem andado em digressão pelo país e assim vai continuar, havendo já datas previstas para 2022 e 2023.

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Em outubro, estreou também o documentário “Eunice ou carta a uma jovem atriz”, realizado por Tiago Durão, que abre a porta à intimidade da atriz e revela a cumplicidade com a neta, Lídia. O filme, tal como a peça, continuará a ser apresentado por todo o país ao longo do próximo ano.

Decidi que era altura de passar o testemunho e ver continuado o sonho do teatro pela minha neta Lídia [Muñoz], testemunho que passo orgulhosamente e que quis ver registado pelo cinema”, explicou, no momento da estreia, Eunice Muñoz.

 

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