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Major-general

Mais uma inexplicável vulnerabilidade estratégica do Ocidente Alargado

6 ago, 12:10

Taiwan domina a oferta mundial de chips de alta tecnologia – não é de admirar que os EUA estejam muito preocupados...

Existem peculiaridades nesta curta visita de Nancy Pelosi à Ilha Formosa assim designada pelos navegadores portugueses – que chegaram ao Sudeste Asiático em 1513 e estabeleceram na ilha, em 1600, um entreposto comercial, em pleno período dos Filipes. Hoje, a ilha é conhecida como Taiwan.

De facto, esta ilha tem sido praticamente em todos os aspetos independente da China. Os primeiros chineses que nela se instalaram fizeram-no apenas no século XIV, povoando tão só o seu litoral sul. As populações indígenas que lá viviam viram-se acantonadas no século XVII, por ação de mais gente Han vinda da China. Desde finais do século XIX, quando foi colonizada pelo Japão, que não é, de facto território chinês, muito embora tenha sido amparo dos nacionalistas, comandados por Chiang Kai-Shek aquando da sua fuga da China, da qual era Presidente, no seguimento da revolução comunista liderada por Mao Tse Tung, que acabou por o afastar do poder, no final dos anos quarenta do século XX. Mais tarde, na ilha que nunca aceitou a liderança de Pequim, Chiang Kai-Shek conduziu Taiwan, como Presidente entre 1950 até 1975. Em boa verdade, a China continental, tanto a imperial como a republicana, nunca foi a entidade soberana de Taiwan, limitando-se a colonizá-la com camponeses. Mas quer sê-lo. Lá chegaram primeiro os Espanhóis e depois os Holandeses, em 1641, um ano depois da nossa Restauração. Em 1661 a China regressou à Formosa, reiniciando um processo lento de colonização agrícola e comercial. Historicamente o domínio do Império do Meio sobre a Formosa foi sol de pouca dura: em 1895, a colónia de camponeses Han foi cedida ao Japão, depois da sangrenta Guerra Sino-Japonesa. E em 1949, foram os nacionalistas provenientes de Pequim quem a declarou como sua, depois da barbárie da Segunda Guerra Mundial e do abandono/expulsão de Tóquio e da Grande Esfera de Co-Prosperidade Leste Asiática. Um curto mas extenso império marítimo japonês que o Imperador Hiroito logrou impor numa enorme região que ia de Sri Lanka à Birmânia, a Singapura, a Macau, às Filipinas, a Hong-Kong, à Manchúria, a Nanking, à Indonésia e a Timor. Chegou finalmente Chiang Kai-Shek. Então sim, passou a haver e há governo em Taipé, a capital.

Mas falemos do presente. Da polémica e curta visita a Taiwan de Pelosi, é forçoso dar o devido relevo a uma reunião muito especial. Uma reunião cuidadosamente preparada e à qual não foi dado, com intencionalidade propositada, o destaque necessário. Tratou-se de uma discreta reunião de Nancy Pelosi com Mark Lui, presidente da Taiwan Semiconductor Manufacturing Corporation, mundialmente conhecida por TSMC. O que teve água no bico, como iremos ver.

A TSMC sedia só e mais nada a maior e mais avançada fábrica de chips semicondutores do mundo, cuja sede e principais operações se localizam no Hsinchu Science Park, Taiwan. Curiosamente, a TSMC é a primeira fábrica a produzir os tão essenciais chips de 5 e 7 nanómetros, com várias aplicações digitais conhecidas de que é exemplo o microprocessador Apple A14. Diga-se em abono da verdade que estamos em presença do maior fabricante de chips do mundo.

De facto, não terá sido por mero acaso que esta viagem da Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA e terceira figura da hierarquia do Estado norte-americano – caso desapareçam o Presidente e a Vice-Presidente fica ela com o cargo – acabou por coincidir com os esforços dos Estados Unidos para persuadir a TSMC (da qual os EUA e todo o ocidente são fortissimamente dependentes) a construir um centro de produção em solo americano e a solicitar que seja interrompida a exportação de chips mais evoluídos destinados a empresas da China (designadamente os chips mais avançados da produtora de ponta, a Intel).

Não? Sim. O próprio Congresso dos EUA, contrariamente ao que é habitual, aprovou recentemente o “CHIPS and Science Act ”, que prevê subsidiar em US$ 52 biliões o fabrico de chips em território americano, apenas com uma condição importante: as empresas subsidiadas devem comprometer-se a não exportar semicondutores da última geração para empresas chinesas. A intenção foi clara e Nancy Pelosi levou a Carta a Garcia.

O apoio norte-americano a Taiwan que inicialmente se terá fundamentado na oposição às teorias geopolíticas do Heartland de que são exemplo os escritos de Halford Mackinder (no seu terceiro modelo, escrito em 1943 e apresentado com a devida pompa e circunstância na London School of Economics, onde ele era professor e da qual tinha sido um dos Fundadores). Tratou-se de um modelo que referia tão simplesmente que “quem dominar o Heartland dominará, the Island World e, daí, dominará o mundo”. Descodificando: para Mackinder o Heartland era o enorme continente Eurásia rodeado de tudo o resto (que ele apelidou de the Island World), de algum modo cartografando uma nova complexidade de uma interdependência global num novo quadro geopolítico, cuja compreensão tinha como essencial para o Reino Unido manter um Império Britânico em descalabro. Não teve sucesso.

Assim, e por oposição às teorias baseadas no poder continental, centrífugas por natureza, os EUA professaram desde sempre, apenas com exceção do período em que foi seguida a Doutrina Monroe do isolacionismo anti-europeu, essencialmente as teorias geopolíticas de Nicholas Spykman, um professor em Yale que, curiosamente morreu no mesmo ano de 1943, teorias essas que advogavam, não o controlo de continentes, mas antes um bloqueio às potências do Heartland através do domínio de um cordão contínuo de ilhas e países ribeirinhos a que na nomenclatura geopolítica se atribui a designação de “Rimland” (o rebordo). Aí houve algum sucesso. Esta postura esteve sempre na origem das intervenções norte-americanas na Ásia e mesmo na Europa, com destaque para a Coreia o Vietnam, o Reino Unido, o Hawaii, Guam, o Japão, e a Indonésia. O controlo do mundo dependeria, nesta nova perspetiva, dos bloqueios marítimos e não do domínio dos continentes. Taiwan, desde 1949, e da criação da República Popular da China, tornou-se chave.

Contudo, nos últimos anos, a autonomia de Taiwan tornou-se em algo mais, num verdadeiro interesse vital para os EUA, não apenas em virtude da prossecução das teorias geopolíticas de contenção das potências ditas continentais, mas também e sobretudo porque é nesta ilha que se produz a maioria dos semicondutores, dos quais a nossa sociedade hoje e cada vez mais digitalizada tanto depende. Os semicondutores – comummente designados por chips, são hoje parte integrante de praticamente todos os atos das nossas vidas quotidianas. Do uso dos mais pequenos eletrodomésticos, passando pelos nossos automóveis, computadores, sistemas bancários, bitcoins, sistemas de acesso às redes de dados, ou seja praticamente tudo que nos permite viver a vida a que estamos habituados e de que não queremos, de forma alguma, abdicar.

Além disso estão na base da tecnologia que permite produzir as mais letais, mais precisas, mais modernas e mais inteligentes e sofisticadas armas militares. Caças de interceção das da 5ª e da 6ª geração de que é exemplo o projeto “New Geneation Air Defense” (NGAD), novos carros de combate, munições inteligentes, domínio aeroespacial, redes de satélites com capacidade para rastrear armas hipersónicas e muitas outras novidades tecnológicas, apenas passíveis de produzir tendo acesso sem restrições aos mais avançados chips. A Internet 5G e mesmo os novos projetos 6G permitirão que uma gama multifacetada de dispositivos, se e quando lograrem ligar-se entre si, assentes em sistemas de baixíssima latência (aquilo que muitos autores vêm designando por “the Internet of Things”, a Internet das Coisas).

E não é que a coisa resulta? No domínio estritamente militar tal tem vindo a provocar uma verdadeira revolução, uma nova geração de sensores e armas completamente ligadas em rede e com capacidade de resposta muitas vezes autónoma e baseada em sistemas dotados de inteligência artificial.

O problema é que as decisões de décadas atrás estão agora a provocar efeitos nefastos.

Nem tudo que a globalização e a consequente deslocalização de tecnologias de ponta para locais onde abundava a mão-de-obra barata foram vistas como, e foram mesmo, vantagens. No curto prazo proporcionaram às empresas de ponta do Ocidente vultuosos lucros e a nós consumidores o acesso a bens tecnológicos a preços muito competitivos. No médio e longo prazo e porque o desenvolvimento económico nem sempre significa o caminho mais seguro para sociedades livres, tolerantes e democráticas, acabou por nos criar vulnerabilidades estratégicas que deveriam ter sido previstas por quem teve a responsabilidade de nos liderar nesses momentos em que se pensou que a globalização era o remédio para todos os problemas do mundo, incluindo a erradicação das ditaduras! No curto prazo, sim, mas nada de mais errado nos longo e médio prazos.

Infelizmente foi, e os decisores só agora, demasiado tarde, se encontram a tentar corrigir o erro. O neoliberalismo económico falou mais alto e de momento trata-se sobretudo de mitigar os problemas que poderiam e deveriam ter sido previstos e consequentemente evitados.

As empresas de investigação e desenvolvimento de chips dos EUA, de que torno a destacar a Intel, só muito tarde se aperceberam da terrível dependência das cadeias de abastecimento asiáticas para a produção deles, incluindo os mais avançados. Sem querer pecar por reducionismo economicista, mas para ser mais preciso: Taiwan, sozinha, representa 63% da produção de mundial de chips, e a TSMC cerca de 53%. Já se percebeu e citando o Relatório do Governo dos 100 dias de Joe Biden que “Os Estados Unidos são fortemente dependentes de uma única empresa – TSMC – para produzir seus chips de ponta”. O facto de que apenas a TSMC e a Samsung da Coreia do Sul serem as entidades capazes de fabricar os semicondutores mais avançados, argumentou o Presidente norte-americano, “coloca em risco a capacidade de suprir as necessidades atuais e futuras de segurança nacional e toda a infraestrutura crítica dos EUA”.

Ao que parece a política de uma só China até agora não contestada por Washington poderá ter os dias contados! A simples ideia da China se reunificar com Taiwan, no curto prazo, põe a administração norte-americana com os cabelos em pé. Muito embora no Comunicado de Xangai de 1971 e na Lei de Relações de Taiwan de 1979 os Estados Unidos da América tenham reconhecido a existência de uma só China, de momento, parece que para os EUA e mesmo para o mundo Ocidental seja inconcebível e inaceitável que a TSMC possa cair em mãos chinesas – pelo menos enquanto não forem construídas alternativas a esta tão absurda quão incompreensível vulnerabilidade estratégica.

As potenciais consequências? Neste momento arriscamo-nos a ter de correr atrás do prejuízo. O mundo Ocidental andou em verdadeira roda livre, vendo apenas as vantagens imediatas da globalização, acreditando de forma algo “naive” que os mercados se auto-regulavam com base na lei da oferta e da procura e que o desenvolvimento económico seria a panaceia para as autocracias e que abriria, por si só, o caminho à democracia e aos ideais da liberdade no mundo. Nada de mais errado! Apenas comparável à estranha dependência energética de muitos países da Europa Ocidental no que diz respeito ao gás e ao petróleo russos. Também aqui poderemos estar a engordar um potencial inimigo, por ora apenas designado como “desafio” no novo Conceito Estratégico da NATO, acordado há menos de um mês em Madrid.

É tempo de ver mais longe, de pensar nas vantagens e desvantagens de médio e longo prazo e deixar de pensar exclusivamente no lucro fácil e nas vantagens políticas imediatistas. Lessons should be learned. O mundo Ocidental necessita, hoje, de verdadeiros líderes capazes de explicar aos seus concidadãos que por vezes há que tomar decisões impopulares para acautelar o futuro das novas gerações e não lhes criar vulnerabilidades castradoras da sua liberdade de ação.

Muito embora segundo Nancy Pelosi - conhecida defensora dos ideais democráticos e campeã da defesa dos Direitos Humanos, cuja Declaração Universal foi desenhada, na ONU, pelo State Department e por Eleanor Roosevelt e o seu amante francês - a delegação do Congresso dos EUA tenha ido a Taiwan para tornar claro que Washington não abrirá mão do seu compromisso em apoiar esta Ilha de pouco mais de vinte milhões de habitantes. Bem como o esforço em preservar a democracia e os ideais da liberdade da ilha-Estado e em todo mundo permanece inabalável. A verdade é que no Extremo Oriente estamos por enquanto, sobretudo, perante uma guerra de caráter tecnológico.

Por esse motivo, os EUA têm tentado trazer a TSMC para o seu território no sentido de colmatar esta vulnerabilidade, incrementando a sua capacidade de produção doméstica de chips. O controlo desta empresa crucial alcandorou Taiwan a um patamar de importância estratégica sem precedentes. E provavelmente aumentará as tensões existentes entre os EUA e a China no que toca ao status quo desta ilha nossa aliada.

Para já, porque as capacidades de defesa da Ilha Formosa, que com os seus vinte e três milhões de habitantes é tão-somente a décima oitava economia mundial no que toca ao poder real de compra e a oitava na Ásia, não são negligenciáveis. Além de que o apoio dos EUA estaria imediatamente disponível, dada a firme garantia de segurança disponibilizada desde sempre por Washington a Taipé, esperando por isso que os exercícios de demonstração de capacidades da China terminem domingo, dia 7 de agosto e não passem daí.

Assim seja.

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