Em quase 90% das empresas europeias os salários deixaram de ser um segredo

4 nov, 16:00
Preços, dinheiro, euro, inflação, economia. Foto: Marijan Murat/picture alliance via Getty Images

A maioria das organizações já comunica ou planeia comunicar os níveis de emprego (87%), as oportunidades de remuneração variável (68%) e a forma como é determinada a remuneração base (59%).

As empresas europeias estão a tornar-se cada vez mais transparentes no que toca ao tema salário: 86% das organizações dizem ter já aumentado a comunicação à volta dos seus programas de remuneração, uma vez que é algo que faz parte dos seus valores e da própria cultura empresarial. Outros fatores, como a confiança nos programas de remuneração (79%) e as expectativas dos trabalhadores (77%), também levaram as empresas a tornarem-se mais transparentes, revela o “Pay Clarity Survey 2022”, desenvolvido pela WTW.

Portugal não é exceção. “As empresas em Portugal serão inevitavelmente forçadas a acompanhar as suas congéneres europeias, uma vez que, além de normas relacionadas com o ESG [Environmental, Social and Corporate Governance] e a igualdade remuneratória, é esperada legislação da União Europeia que trará mais transparência (no momento do recrutamento, por exemplo), e maior regulamentação a nível do reporte dos salários praticados em cada empresa“, justifica Ana Amado, directorretirement na WTW Portugal.

“Por outro lado, as novas gerações têm expectativas mais elevadas a nível da comunicação associada ao salário e aos benefícios: não chega ter um pacote de benefícios, há que fazer uma comunicação estruturada e contínua: o momento do recrutamento é importante e a retenção do capital humano é fundamental”, acrescenta a responsável, em comunicado.

Além dos fatores cultura empresarial, confiança nos programas de remuneração e expectativas dos trabalhadores, os crescentes requisitos regulamentares e as agendas de ESG estão, também, a levar as empresas a tornarem-se mais transparentes no que respeita aos salários: 72% atribuem esse aumento aos regulamentos e 51% ao ESG.

As novas gerações têm expectativas mais elevadas a nível da comunicação associada ao salário e aos benefícios: não chega ter um pacote de benefícios, há que fazer uma comunicação estruturada e contínua: o momento do recrutamento é importante e a retenção do capital humano é fundamental."

Ana Amado

Director – retirement na WTW Portugal

Mas 60% das empresas mostram-se ainda apreensivas

Contudo, muitas organizações estão ainda apreensivas em partilhar mais informação sobre as remunerações. Quase 60% receiam as reações dos colaboradores. Além disso, mais de um terço das empresas (38%) tem preocupações legais sobre a partilha excessiva de informação sobre os salários, enquanto quase um quarto (23%) se retrai devido à complexidade administrativa.

Ainda assim, a maioria das empresas europeias já comunica ou planeia comunicar os níveis de emprego (87%), as oportunidades de remuneração variável (68%) e a forma como é determinada a remuneração base (59%). Isto é comunicado predominantemente através da gestão, enquanto 64% das empresas utilizam webinars ou portais de RH (56%) para partilhar esta informação.

Ao mesmo tempo, três em cada dez organizações em toda a Europa (31%) estão, atualmente, a divulgar localmente o fosso salarial ajustado e uma percentagem semelhante (31%) planeia fazê-lo no futuro. Contudo, dois terços das empresas (68%) estão apenas a partilhar os dados exigidos pela regulamentação local.

“Com a América do Norte a anunciar novos regulamentos em torno da divulgação de informações sobre a faixa salarial aos potenciais empregados e com as empresas europeias a fazerem mais para partilhar as suas ambições salariais equitativas, é provável que a abertura à volta da questão salarial venha a acelerar“, comenta Eva Jesmiatka, Europe lead on pay and career equity na WTW.

“As expectativas dos colaboradores estão a crescer, esperam transparência e ações que se alinhem com os valores que estão a ser comunicados, e é por isso que a abertura em torno de temas como a remuneração e a equidade da carreira estão a tornar-se cada vez mais importantes”, conclui.

Na Finlândia, o Governo está inclusive a planear avançar com legislação que permita aos profissionais saber quanto recebem os seus colegas, caso suspeitem de discriminação salarial, procurando com isso reduzir as disparidades de rendimento entre homens e mulheres. O executivo quer aprovar a lei antes das eleições de abril de 2023, mas o tema não está a reunir consenso. Enquanto os sindicatos de trabalhadores querem ainda mais transparência, a maior organização patronal do país defende que a medida vai criar mais conflitos no local de trabalho.

Já em Portugal, desde 2019 que a CITE está a trabalhar na criação da Norma Portuguesa para a Igualdade Remuneratória entre Mulheres e Homens, no âmbito do Projeto Equality Platform and Standard, financiado pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, através do Programa Conciliação e Igualdade de Género do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu – EEA Grants 2014-2021.

O “Pay Clarity Survey 2022”, da WTW, foi realizado em agosto de 2022, sendo que, na Europa, um total de 63 organizações completaram o inquérito.

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