“Acho que percebi a mensagem: vacinar, vacinar, vacinar”. Reuniões no Infarmed voltaram, Pizarro quer 3 milhões com dose de reforço e rejeita regresso obrigatório de máscaras

11 nov, 12:47

Oito meses após o último encontro, Governo, autoridades de saúde e peritos voltaram a encontrar-se, naquela que foi a estreia de Manuel Pizarro nas reuniões no Infarmed para avaliar a covid-19. A vacinação foi a protagonista, assim como os apelos para que não haja alarmismos. Já depois da reunião, Manuel Pizarro rejeitou o regresso da obrigatoriedade do uso de máscaras.

Vacinar, proteger e prevenir. Esta foi a mensagem que o Governo, a Direção-Geral da Saúde e especialistas passaram naquela que foi a reunião que marcou o regresso dos debates sobre o estado atual da covid-19 em Portugal, na estreia de Manuel Pizarro enquanto ministro da Saúde.

O encontro desta sexta-feira, o primeiro desde fevereiro, trouxe ainda a garantia, por parte do ministro da Saúde, que não estão previstas medidas de contenção da propagação do vírus de carácter obrigatório, ao contrário do que tem vindo a ser apelado por alguns especialistas nos últimos dias.

“Não está prevista, nesta fase, a necessidade de medidas de saúde pública de natureza obrigatória”, disse Manuel Pizarro em declaração aos jornalistas, já depois das apresentações dos peritos, que decorreram no auditório do Infarmed, em Lisboa.

“Temos a obrigação de ter aprendido com a pandemia, temos, de facto, de lavar mais vezes as mãos”, afirmou. Apesar de descartar a imposição de medidas de proteção, o ministro da Saúde frisou a “obrigação de proteger os outros”, ficando em casa quando se está “significativamente doente” ou “usar máscara quando vamos contactar com outras pessoas”.

A vacinação acabou por ser o tema dominante no discurso do governante aos jornalistas, que afirmou que quer “três milhões de portugueses com o reforço da vacina contra a covid-19”, mantendo aquilo que foi dito pelos peritos durante as apresentações: a taxa atual de vacinação em Portugal é positiva, mas é necessário continuar a vacinar, sobretudo os grupos mais vulneráveis, seja pela idade, por outras doenças que tenham, ou por um sistema imunitário deficitário.

Da parte que me toca, acho que percebi a mensagem: vacinar, vacinar, vacinar. E vigiar também, manter a monitorização e vacinar”, disse Manuel Pizarro, em tom de brincadeira, no final da apresentação de Carlos Penha Gonçalves, do Núcleo Coordenador de Apoio ao Ministério da Saúde.

Segundo a informação avançada pelo coronel, o último a falar no painel de especialistas, Portugal tem, de momento, “uma capacidade de vacinação semanal de 290 mil pessoas”, mas o objetivo é aumentar a capacidade em 11%, vacinando 322 mil pessoas por semana.

Até à data de hoje, há 9.333.329 pessoas com a vacinação primária iniciada, o que corresponde a 94,7%. Com a primeira dose de reforço há 6.650.209 pessoas com mais de 18 anos inoculadas, avançou Carlos Penha Gonçalves na sua apresentação. No que diz respeito à segunda dose de reforço, e olhando para o grupo de pessoas com mais de 80 anos, há 454.079 vacinados.

Segundo o coordenador do plano de vacinação contra a covid-19, já foram administradas 1.863.885 vacinas na vacinação de outono contra a covid-19 e 1.890.476 contra a gripe. O coronel revelou ainda que 4.879 reclusos já foram vacinados contra a covid-19 e 4.932 contra a gripe. No que diz respeito a pessoas sem-abrigo, 851 receberam a vacina contra a covid e 1.241 contra a gripe.

Carlos Penha Gonçalves anunciou também um aumento de 10% na capacidade vacinal, de modo a que as pessoas com mais de 50 anos possam ser inoculadas ainda este ano. Esta é, segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), a faixa etária que mais preocupa. 

Pedro Pinto Leite, da Direção-Geral da Saúde, revelou que os indicadores da covid-19 a partir do sistema de vigilância atuais apontam para uma “estabilização da infeção” e para um “impacto nos serviços e mortalidade reduzidos”, com exceção de “internamentos em enfermaria, com aumento nos grupos acima dos 50 anos”.

Variantes mais transmissíveis, mas menos graves. Peritos descartam alarmismo

Na reunião, estiveram ainda presentes Henrique Barros, do Instituto de Saúde Pública do Porto (o único à distância), Sónia Dias, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Pinto Leite, da Direção-Geral da Saúde e João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

Ao especialista do INSA coube explicar o impacto das variantes e sublinhagens que atualmente circulam e, apesar de as descrever como mais transmissíveis, frisou que “não há qualquer motivo para alarme”, mas que é importante manter, na mesma, a “vigilância”, ideia que também tinha sido transmitida esta manhã por Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, em declarações à CNN Portugal.

“Até agora, não há evidência de que estas sublinhagens sejam mais severas em termos de risco, hospitalização, risco de morte”, explicou João Paulo Gomes, que destacou que, segundo “os dados disponíveis, não há qualquer motivo para alarme, mas temos todos os motivos para manter uma vigilância ativa”.

João Paulo Gomes revelou que entre 75% e 95% das infeções são causadas pela sublinhagem BA.5 da variante Ómicron um pouco por todo o mundo, variante que está há semanas com um carácter dominante. Mas rapidamente focou o seu discurso para “o aumento das sublinhagens, como a BQ.1.1”, ao qual Portugal “não é exceção”. Esta sublinhagem, afirmou, “tem sido muito publicitada também porque aparentemente está associada a uma fuga ao sistema imunitário”.

O especialista do INSA explicou que a BQ.1.1 tem dado “grandes saltos”, podendo já corresponder a 30% das infeções atuais. “Inequivocamente, é a mais transmissível atualmente”.

Sobre as vacinas, João Paulo Gomes assegurou que “são muito eficazes, mas menos contra estas linhagens emergentes”, mas que isso não deve ser motivo para as pessoas não se vacinarem, pois “muitas vezes reagimos melhor do que vemos em laboratório”.

João Paulo Gomes afirmou ainda que “não é consensual a grande vantagem da atualização das vacinas relativamente à original” e que “não há evidência que estas sublinhagens sejam mais severas, em risco de hospitalização ou morte”.

Já depois da reunião, Manuel Pizarro também falou das novas variantes de covid-19, considerando que “não acarretam maior risco para a saúde” e que a vacina "continua a ter um efeito protetor" para a gravidade associada a estas sublinhagens que surgem.

Vacinas continuam a ser o escudo protetor: preveniram 12 mil mortes (e há uma nova a caminho)

O epidemiologista Henrique Barros, o primeiro a falar na reunião desta sexta-feira e que quis deixar claro que a pandemia não acabou e que a covid de longa duração deve ser tão “vigiada” como a infeção, revelou que a vacinação “preveniu mais de um milhão de infeções, dois milhões de dias de internamento, 130.000 dias de internamento em cuidados intensivos e 12 mil óbitos”.

“As vacinas foram centrais, mas podem não ser suficientes”, disse, referindo-se à importância de combater as desigualdades no acesso à vacinação, que fazem com que o mundo ande a dois ritmos contra a covid-19.

Além disso, Henrique Barros defendeu a vacinação generalizada, dizendo que “não há evidência científica para cortar determinada idade à vacinação” e “havendo vacinas disponíveis nada justifica que não se possa vacinar qualquer que seja a idade”.

Pedro Pinto Leite, da Direção-Geral da Saúde, destacou também a importância da vacinação, sobretudo a sazonal contra a covid-19 e a gripe nesta altura do ano, “apesar das elevadas coberturas [vacinais verificadas no país]”. O objetivo é “proteger as populações mais vulneráveis”, mensagem também defendida pelo ministro da Saúde após a reunião.

É um facto inegável que a vacina é eficaz, qualquer uma das vacinas, das gerações mais recentes às iniciais, são eficazes, contra a propagação da doença, mas sobretudo contra a mortalidade contra a doença. Esta mensagem parece-me absolutamente central”, garantiu Manuel Pizarro.

Atualmente, estão a funcionar 395 pontos de vacinação no país, 322 pontos em estruturas de saúde, 65 pontos em estruturas municipais e oito em estruturas de outras entidades. Carlos Penha Gonçalves disse que “44% da capacidade vacinal está nas estruturas municipais”.

Carlos Alves, do Infarmed, revelou ainda que a vacina Vidpretyn recebeu ontem a recomendação de aprovação por parte da EMA, cabendo à Comissão Europeia a recomendação final. Esta vacina proteica “tem importância, não que necessitemos de uma melhor do que temos, mas porque tem vantagens e, por isso, deve ser aproveitada”. Sendo uma vacina proteica, considera Carlos Alves, “pode ultrapassar a hesitação da vacinação” por parte de algumas pessoas, além de que este tipo de vacina não precisa da ultracongelação e é mais fácil de manusear.

A procura de vacinas mais eficazes é uma prioridade a nível mundial e têm sido conseguidos avanços nesse sentido, mas Carlos Alves tentou acalmar as expectativas que possam estar a ser criadas junto da comunidade científica. “Não podemos ir atrás da vacina que tem exatamente a variante do dia, não é possivel”, frisou.

“As vacinas do futuro devem ter uma maior imunogenicidade, dar mais resposta a quem tem menos imunidade, assim como vacinas que dão imunidade local, como as vacinas nasais, embora, para já, não sejam eficazes na imunidade sistémica”, explicou.

O presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, a diretora-geral da Saúde Graça Freitas, o primeiro-ministro António Costa e o diretor-executivo do SNS Fernando Araújo também estiveram presentes, mas não prestaram quaisquer declarações.

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