O clube que fez um magusto e vendeu rifas para ir a jogo na Taça

23 nov 2018, 08:55

O Vale Formoso já é uma das melhores histórias: entrou na Taça porque um rival desistiu, passou duas eliminatórias perdendo ambos os jogos e chegou à quarta eliminatória vindo dos distritais. Por isso fomos às Furnas, nos Açores, conhecer o clube que já fez um casamento debaixo da baliza e que pela segunda vez na vida vai viajar de avião para o continente. Viemos de lá de coração cheio.

As castanhas não foram, mas bem podiam ter sido, cozinhadas no chão em ebulição do Vale das Furnas, o mesmo que permite confecionar o famoso cozido das Furnas. Afinal de contas são elas que servem de pretexto para mais um convívio entre o FC Vale Formoso, os adeptos e quem passa pela mais visitada freguesia da ilha de São Miguel, nascida na cratera de um vulcão adormecido.

A uma semana da quarta eliminatória da Taça de Portugal, as castanhas, oferecidas por um comerciante local, são apenas o mote para que este clube amador, que milita no campeonato distrital da ilha, possa juntar mais uns trocos. No fim vai ser esse dinheiro que vai permitir custear aquela que é a segunda deslocação do clube ao continente, e a primeira da sua história diante de uma equipa do principal escalão.

Antes desta viagem a Tondela, o Vale Formoso só esteve em Portugal continental para defrontar o Pinhalnovense, também nesta edição da Taça. Este é, portanto, o preço a pagar por alimentar o amor ao futebol em condições modestas.

Ora numa espécie de festa de São Martinho tardio, à porta do campo, entre uma cerveja e um licor caseiro, também oferecido pelo patrocinador do Vale Formoso, vai-se encurtando a distância até Tondela, já que as castanhas são oferecidas, mas as bebidas são a pagar.

É que o orçamento do clube, que ronda dos 20 mil euros anuais, não estica e os prémios da Federação referentes à presença da equipa na Taça ainda vão demorar a cair na conta.

«Não é fácil. Um bocadinho daqui, um bocadinho dali, tudo ajuda. Fizemos até umas rifas e o prémio é uma viagem para assistirem ao jogo em Tondela», revela o presidente do clube, Sandro Ferreira, que na deslocação a Pinhal Novo, para a primeira eliminatória da Taça, teve de pagar do seu bolso a própria viagem e outras despesas, tal como fizeram os outros elementos da direção.

Já os jogadores não necessitaram de entrar no mesmo registo, nem sequer com alguns euros, porque um amigo do Vale Formoso, um emigrante nas Bermudas, custeou as passagens.

Quisemos saber se a junta de freguesia, que tem nesta participação mais palco de projeção da localidade, não ajuda?!

«O presidente, que por acaso sou eu, dá o que pode. Sempre assim foi, independentemente de quem estava na junta E as pessoas da freguesia, na medida das suas possibilidades, também contribuem. Aliás, se há apoio e entusiasmo incondicional e intemporal é o das nossas gentes e dos nossos adeptos», garante Sandro Ferreira.

E não restem dúvidas de que, este domingo, a população daquela que é chamada a sala de visitas dos Açores estará com os olhos e o coração em Tondela.

«Até o padre há-de pedir por nós na missa», confessa o presidente, que habitualmente marca presença na procissão em representação do clube e que exibe com orgulho uma imagem de Santa Ana, a padroeira da freguesia, colocada no alto de uma parede no balneário.

«Se a fé conta no futebol? Claro que sim», acrescenta Sandro Ferreira.

«Se passarmos esta eliminatória, acredito que o presidente nos convoca a todos para ir com ele na procissão», diz Alfredo Garcia, conhecido como Xéxé, o avançado responsável pelos três golos que garantiram a única vitória que o Vale Formoso teve até então, dentro das quatro linhas, na competição.

«E se isso acontecer, muitos jogadores terão ainda de cumprir promessas que estão a fazer, não só à padroeira das Furnas, como ao Senhor Santo Cristo dos Milagres», santo que se venera naquela que é considerada a segunda maior festa religiosa do país.

A juntar à fé e aos adeptos em solo açoriano, o Vale Formoso ainda contará, nas bancadas do Estádio João Cardoso, com o apoio de filhos das Furnas que residem do território continental e um grupo de emigrantes vindos dos Estados Unidos e do Canadá.

Isto porque nem o oceano ou tempo conseguiu esbater o entusiasmo pelo clube, ao ponto de existir em Toronto uma filial, criada por antigos jogadores.

Um desses fundadores é Nuno Ponte, conhecido como Bolinhas.

Não esteve no Vale Formoso durante muitos anos, mas o tempo em que viveu o clube foi suficiente para criar um laço tal que quis casar dentro das quatro linhas. E assim foi... Baliza a servir de altar, passadeira no relvado e convidados na bancada.

«Há amores que começam no campo e acabam fora dele, aqui foi ao contrário», recorda Rui Maciel, que já soma quase uma década com o emblema do Vale Formoso ao peito e que é também funcionário do mesmo na área administrativa.

O avançado assegura que há no clube um ambiente de verdadeira família e que, inevitavelmente, isso deixa marca em quem por lá passa.

«Aqui a bola é um extra», garante.

Não admira, por isso, que Francisco Duarte, natural de Cascais, se tenha adaptado tão bem à equipa. «Há um grande espírito de camaradagem, dentro e fora do relvado, e isso faz com que nem o cansaço depois de um dia de trabalho, nem o mau tempo nos façam ficar em casa», garante o avançado, num dia em que o treino foi feito debaixo de chuva intensa, trovoada e até granizo.

Vitor Sousa, o defesa que durante o dia trabalha como pintor e bate-chapas de profissão, até tem sacrificado muito do tempo que podia passar com a filha pequena para garantir que «a máquina chega oleada» a Tondela.

«É preciso, se queremos fazer história», frisa, acrescentando, no entanto, que a família o acompanhou na viagem a Pinhal Novo. «A minha filha tinha pouco mais de três meses e foi um gosto enorme tê-la comigo. E só ainda não tem a camisola do clube porque as mais pequenas são para crianças de dois anos», explica.

«Vamos pensar nisso... Talvez umas fraldas oficiais do Vale Formoso», ironiza Hernâni Melo, o coordenador técnico.

Piadas à parte, a verdade é que o clube das Furnas tem já uma loja oficial capaz de fazer inveja a muitos clubes de escalões superiores.

«Vendemos, na altura do verão, centenas de camisolas, o que para um clube que está nos distritais é muito bom. Aliás, posso garantir que somos o clube dos Açores que mais camisolas vende.»

Ora as camisolas têm corrido o globo, assim como os cachecóis, como atestam os registos na página do Facebook do clube, numa rubrica designada Vale Formoso in the World.

«É um pedido que fazemos aos turistas, que tirem uma foto no seu país de origem. E são cada vez mais os que o fazem. Acontece mais na época alta. Passam pela freguesia, observam o movimento perto do campo e acabam até por assistir a treinos e jogos», revela Hernâni Melo.  

«É o resultado da abertura que o clube sempre teve para com todos os que nos visitam. Uma envolvência que me conquistou desde sempre, ainda antes de viver o Vale Formoso por dentro», remata o coordenador técnico.

Um sentimento partilhado pelo treinador, Hélio Oliveira, que fala num clube que é «mais do que uma equipa de futebol». 

«Por isso é que no Vale Formoso não aceitamos qualquer jogador. Aqui o critério vai para além de ter pés para a bola. Há uma cola que nos une como equipa e como família e que está assente em valores que a competição não pode destruir: o respeito e a amizade».

Não quer isto dizer que a equipa renegue para segundo plano a competição e a uma vontade de vencer.

«Faz parte da essência desta equipa: ser realista mas alimentar o sonho. Este jogo com o Tondela vai exigir o melhor Vale Formoso de sempre. E eu acredito que podemos surpreender, apesar das probabilidades», admite o técnico, reconhecendo que a parte mais desafiante nos últimos tempos tem sido gerir a imensa vontade que o plantel tem de pisar o relvado no próximo domingo.

«Claro que todos queremos essa oportunidade», confessa André Gamarra, o mais jovem jogador do plantel. «Conseguir ficar na história do Vale Formoso como alguém que contribui para o momento mais alto do clube é algo que me motiva muito», refere o furnense de 19 anos, por sinal o único filho da terra no plantel.

Uma realidade bem diferente dos tempos de Nelson Paiva, 44 anos, antigo jogador do clube que o Maisfutebol encontrou, devidamente equipado com as cores do Vale Formoso, à saída de um treino com o filho.

«A maioria dos jogadores era das Furnas, gente que jogava no pelado. Era um clube modesto e sem a ambição e as condições de hoje. Não tenho, por isso, dúvidas de que este Vale Formoso é o melhor de sempre e vai ficar na história», remata, com uma convicção à prova de vulcão, tal como a terra que serviu de berço a este clube.

É, aliás, um clube que tem contrariado o percurso expectável numa competição. Chegou à Taça de Portugal porque outro clube da ilha de São Miguel, o Operário, desistiu da competição por não ter recursos económicos para o efeito. 

A partir daí fez-se à prova.

O primeiro embate foi em casa do Pinhalnovense. O Vale Formoso resistiu durante os noventa minutos, mas não resistiu ao prolongamento: acabou goleado por 5-0. Não foi, no entanto, o adeus à Taça. Quis a sorte que o clube micaelense fosse repescado.

Na segunda eliminatória recebeu a União de Leiria, equipa que levou dos Açores um triunfo por 3-0. O resultado acabou, porém, por ser transferido para o Vale Formoso, pelo facto dos leirienses terem utilizado um jogador de forma ilegal.

A equipa das Furnas passava, desde modo, à terceira eliminatória da Taça, depois de perder dois jogos. Na terceira ronda chegou a primeira vitória, por 4-3, sobre o Coimbrões em casa.

A garra dos açorianos é testada novamente este domingo, em Tondela, naquele que é considerado o mais exigente jogo da história do Vale Formoso. Uma pequena equipa nascida entre as caldeiras das Furnas, que traz o amor à terra, e ao futebol, cravado no peito.

[artigo originalmente publicado às 23h56 de 22 de novembro]

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