O fenómeno triste de Ninety Mile Beach (e não só): a fome está a matar pinguins

14 jun, 11:06
Pinguins dão à costa na Nova Zelândia

Estão a dar à costa na Nova Zelândia

Permanecem em fileiras ordenadas e uniformemente espaçadas, com as asas estendidas e a tão distinta plumagem azul brilhante inerte sobre a areia. São 183 ao todo, cuidadosamente recolhidos pela população local, dispostos e fotografados para posterior investigação. Estes pinguins foram encontrados em Ninety Mile Beach na semana passada -  o caso mais recente de um fenómeno de pinguins mortos a aparecer nas praias da Nova Zelândia em grande número.

São da espécie kororā - também conhecidos como pequenos pinguins azuis - e os pinguins mais pequenos do mundo, nativos da Nova Zelândia. Têm sido uma visão comum nas costas do norte do país, habitualmente captados a subir as dunas ao entardecer com o seu "andar" característico e levemente curvado. No entanto, o Departamento de Conservação da Nova Zelândia (DoC) classifica a sua população como “em risco, em declínio”.

E, segundo noticia o The Guardian esta terça-feira, as mortes destes animais chocaram e confundiram os habitantes locais, que nos últimos meses encontraram centenas de cadáveres de pinguins que deram à costa e em estado decomposição nas praias da Ilha do Norte. Estes últimos 183 pinguins apareceram na Ninety Mile Beach na mesma semana em que outros 100 foram encontrados despejados e em decomposição na praia vizinha de Cable Bay. Já no final de maio, os locais fotografaram também outro bando de 109 pinguins mortos em Ninety Mile Beach e, em meados do mesmo mês, um morador encontrou 40 em Tokerau Beach, também na região de Northland. As autoridade registaram ainda outros relatos de pelo menos 20 mortes na mesma praia no início do mês.

A que se deve, afinal, este fenómeno? 

Nos grupos de moradores de Northland nas redes sociais discute-se estas mortes com uma crescente sensação de angústia e alarme – estarão as aves a ser capturadas e despejadas por pescadores? Há algum problema na água? Apanharam algum novo tipo de doença?

Graham Taylor, o principal consultor científico do Departamento de Conservação (DoC), que estuda aves marinhas, acredita que mais de 500 pinguins deram à costa desde o início de maio de 2022 e que o número pode estar a aproximar-se dos 1.000. Contudo, é impossível dar um número exato, principalmente porque alguns são encontrados e enterrados por pessoas, explica o especialista à mesma publicação.

No início do ano, refere, os investigadores do Ministério das Indústrias Primárias da Nova Zelândia decidiram testar algumas das aves mortas, caso um novo vírus ou doença estivesse a afetar as colónias. Procuraram por infeções e toxinas. E concluíram que os pássaros estavam a morrer de fome.

"Todos os pinguins foram encontrados com um peso muito abaixo do normal. Este tipo de aves deveria ter cerca de 800 a 1.000 gramas, mas tinham cerca de metade desse peso", diz Graham Taylor. "Não havia gordura corporal neles, quase não havia músculo para mostrar. Quando chegam a este estado de emagrecimento, não podem mergulhar." Eventualmente, os pássaros simplesmente morrem – de fome ou hipotermia pela falta de gordura para mantê-los aquecidos.

Alterações climáticas: o mesmo novo problema de sempre 

O DoC acredita que os Kororā não estão a passar fome por causa da pesca excessiva. Em vez disso, as alterações climáticas estão a tornar as águas demasiado quentes para os peixes dos quais estes pinguins se alimentam. No ano passado registaram-se as temperaturas oceânicas mais quentes da história desde que há registos - o sexto ano consecutivo em que esse recorde foi quebrado. E, na Nova Zelândia, tal se conjugou com as condições climáticas de La Nina para criar ondas de calor marinhas. À medida que as águas aquecem, os pequenos peixes que os kororā comem vão mais fundo à procura de águas mais frias ou deixam a área por completo.

"Esta pequena espécie [de pinguim] pode mergulhar por norma até 20 ou 30 metros, mas não é tão boa a mergulhar muito mais fundo do que isso", diz Graham Taylor ao Guardian. As temperaturas da água mais quentes do que o habitual durante o inverno provavelmente mantiveram os peixes fora do alcance.

Importa referir que as mortes em massa de aves marinhas não são desconhecidas historicamente: tempestades severas, ondas de calor ou eventos climáticos podem resultar em dezenas ou centenas de aves na costa. O que mudou, diz Taylor, é a frequência. Anteriormente, as mortes nestes números ocorriam talvez uma vez por década. Nos últimos 10 anos, o especialista diz que houve pelo menos três anos de mortes em massa a sua frequência está a aumentar.

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