opinião

"Entre o risco de regresso à violência e a oportunidade para um compromisso" - a análise de Paulo Portas às eleições em Angola

28 ago, 21:51

Comentador analisou as eleições de quarta-feira em Angola, que considera terem sido "as mais competitivas de sempre" no país

Paulo Portas, um dos observadores internacionais presentes em Angola, considerou este domingo que o país tem um problema: “Angola está, neste momento, entre um risco de regresso à violência, que deve ser contido e evitado, e uma oportunidade de haver um compromisso entre as duas principais forças políticas e fazer uma espécie de segunda transição”.

No seu espaço de análise no Jornal das 8 da TVI, Portas afirmou que estas eleições são, factualmente, “as mais competitivas de sempre” em Angola, e que o sistema político do país “está a mudar” porque “mudaram muitas coisas em Angola e África”, dando o exemplo da demografia e da economia.

Notando que o partido de João Lourenço, com base nos resultados provisórios, já não poderá fazer revisões constitucionais sem a ajuda da UNITA, Paulo Portas disse que é importante “perceber se o MPLA aceita partilhar o poder”. “Uma forma de partilhar poder é, evidentemente, o facto de a UNITA ser a principal candidata a governar cidades relevantes de Angola, a começar por Luanda”, sublinhou, numa alusão às eleições locais que deverão ter lugar em breve.

O dilema da UNITA

O comentador afirmou ainda que o partido de Adalberto Costa Júnior tem um dilema: protestar o resultado das eleições pelos canais habituais, através das instituições, ou alimentar as manifestações populares nas ruas. “O problema da rua, que a UNITA até agora não incentivou, ou pelo menos não se colou, é que o descontrolo é muito possível, e o descontrolo num país que teve uma guerra civil durante muito tempo pode chegar à violência. A partir daí, todos perdem e ninguém controla nada. Pelo contrário, a UNITA sabe que teve o melhor resultado de sempre e não me parece que seja conjuntural. Um partido que tem esta subida pode ter a esperança de lá chegar”.

“A UNITA está há mais de 60 anos na oposição, nunca governou. É preciso que perceba que, entre a paz e a rua, é preferível garantir a paz”, observou o comentador, que relevou ainda o desafio que o maior partido tem pela frente, de apresentar a contagem paralela na qual baseia as suas queixas em relação aos resultados eleitorais.

Paulo Portas apontou também um ponto positivo destas eleições: o fim do sistema do partido dominante, o que forçará os líderes dos dois maiores partidos do país a negociar mais e terem “muito mais capacidade de diálogo”.

Quanto aos fatores que contribuíram para a mudança do panorama político angolano, Paulo Portas apontou a demografia como um dos principais. “A idade média de um angolano é 17 anos. Em Angola, são os jovens que decidem as eleições”, elencou. O comentador apontou também que o aumento do número de pessoas com acesso à internet e a grave situação económica do país (desemprego nos 30,2% e inflação acumulada de 113% desde 2017) como outros fatores que contribuíram para a subida da UNITA e a quebra do MPLA.

Sobre as relações entre Portugal e Angola, Portas vinca que estas têm de ser "de Estado para Estado" e que o governo português se tem de relacionar com qualquer executivo angolano, independentemente do partido que governa. O comentador disse ainda que a Portugal “não cabe intervir e muito menos dar lições” no processo eleitoral angolano. “O tempo do Império acabou”.

6 meses de guerra na Ucrânia

Sobre a guerra na Ucrânia, Paulo Portas afirmou que há quatro ‘players’ mais importantes, a Ucrânia, a Rússia, os Estados Unidos e a China e que, para haver negociações de paz, “é preciso que pelo menos três deles estejam interessados e sejam capazes convencer o quarto”.

“Até agora, nem Estados Unidos, nem China, mostraram iniciativa ou disposição para levar as partes a uma mesa de negociações. A Rússia acha que ainda não completou os seus objetivos militares, e a pausa de verão não a favoreceu. A Ucrânia tem a esperança de reverter as circunstâncias porque, entretanto, teve mais armamento e aprendeu a utilizá-lo”, disse.

O comentador comparou as forças armadas dos dois países em guerra, e vincou que à Rússia poderão “faltar recursos humanos”, ao passo que a Ucrânia enfrenta escassez de armamento.

No capítulo energético, Portas considerou que a Europa “avaliou menos bem as circunstâncias em que avançou para as sanções” citando dados do Eurostat, que revelam que os países do Velho Continente pagaram mais 89% por menos 15% de energia russa. “Pagámos mais e recebemos menos energia. A Rússia soube, com astúcia, contribuir para que o preço subisse, nomeadamente no gás, de forma dramática”.

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