Pranchas de paddle "são vendidas sem chamada de atenção para os perigos". Érica não foi caso único: só no ano passado foram resgatados 32 praticantes

9 jul 2023, 08:00
Paddle Surf (Pexels)

Em entrevista à CNN Portugal, o pai de Érica Vicente, a jovem que passou 22 horas à deriva no mar numa prancha, apela a que as "autoridades estejam mais atentas" para o facto destas pranchas serem "muito frágeis às condições do mar". Já os instrutores alertam que não se deve fazer SUP "apenas porque se viu um vídeo no YouTube" e que é preciso conhecer os riscos antes de se aventurar no mar

Sol, calor e uma prancha de paddle. Parece um bom plano? Depois de em abril o país ter acompanhado o resgate de Érica Vicente, a jovem de 17 anos que sobreviveu mais de 20 horas em alto mar, no Algarve, o aproximar do calor e o fácil acesso a pranchas de SUP em grandes superfícies comerciais a preços acessíveis faz com que mais pessoas se sintam tentadas a fazer-se ao meio aquático sem pensar duas vezes.

Dados da Autoridade Marítima Nacional a que a CNN Portugal teve acesso mostram que, no ano passado, foram registadas 32 ocorrências que envolveram praticantes de SUP nas praias portuguesas. Já este ano foram registadas, pelo menos, cinco ocorrências.

Em entrevista à CNN Portugal, Vítor Vicente, pai de Érica, começa por esclarecer que quando a filha desapareceu não estava a praticar SUP e a prancha estava a ser usada em modo caiaque, ou seja, com um banco colocado - onde a jovem seguia sentada - e em vez da pagaia usava dois remos. "Ela não estava a praticar paddle, o objetivo não foi praticar Stand-Up Paddle, o objetivo não foi, sequer, entrar no mar no sentido de fazer SUP, portanto, a prancha estava em modo caiaque", esclarece, acrescentando que o objetivo da família, naquele fim de tarde, era "ver o mar, divertir-se dentro da água, com a prancha, remar para lá, para a esquerda, para a direita, molhar um bocadinho, brincar e depois ir embora".

O pai de Érica diz mesmo que o que a família pretendia era fazer jus ao anúncio que o fez comprar a prancha: "Eu comprei isto como um instrumento de diversão na praia". O mesmo anúncio que Vítor Vicente voltou a ver disponível esta semana e que agora questiona por considerar que a venda deste tipo de equipamentos só devia ser autorizada em lojas de desporto e "deviam ser obrigados a ter brochuras específicas a chamar a atenção para a necessidade de isto só ser usado por um adulto".

"Não compreendo como é que isto é vendido ao lado do pão e de tudo o resto e não tem uma chamada de atenção para os perigos de ser comprada quando as pessoas não sabem ou não têm condições de as controlar. Esse é o grande perigo", argumenta.

Vítor Vicente defende que "as autoridades deviam estar atentas e chamar a atenção" para o facto de que "estas pranchas, quando não são controladas ou quando a pessoa lhes perde o controlo, podem representar um perigo muito grande e a pessoa ser arrastada no mar".

"Estas pranchas têm, de facto, uma grande resistência - e ainda bem. São práticas, são muito resistentes, mas são muito frágeis às condições do mar. São insufláveis e, portanto, são muito suscetíveis às correntes e ao vento. E se a pessoa que lá está em cima não tem atenção, fica em situações que podem ser menos boas", alerta.

Vento, o grande problema

Mas o que torna a modalidade tão perigosa? Em entrevista à CNN Portugal, Jorge Branco, presidente da Associação de Stand UP Paddleboarding de Portugal (ASUPP), e Miguel Dias Ferreira, dono da Cascais Paddle Surf, garantem que "o maior inimigo do Stand-Up Paddle é o vento, principalmente quando está offshore, ou seja, a ir da terra para o mar".

"Imagine esta situação: foi ao supermercado, comprou uma prancha, entra na água, o vento está offshore, vai em pé, dá duas ou três remadas e aquilo desliza que é uma maravilha, há uma velocidade incrível, quase não faz força e vai-se afastando. Quando quer voltar, o corpo é uma vela. E, você, que não tem experiência e não tem conhecimento suficiente para contornar a situação, ou às vezes nem sequer força de braços tem, porque é das primeiras vezes que está a fazer aquela atividade, vai tentar voltar para a costa. O problema é que o vento, se estiver muito forte a bater no seu corpo, vai fazer com que continue a remar. E fica exatamente no mesmo sítio. A determinado ponto desiste de remar, porque já não tem mais resistência física", explica Miguel Dias Ferreira.

Jorge Branco afirma que "o SUP, neste momento, em termos de desportos aquáticos, é aquele que tem trazido mais problemas" por ser "uma situação que está muito ligada ao vento", mas que, "felizmente, Portugal só tem tido resgates" que envolvam praticantes desta modalidade, ao contrário do que acontece noutros países, como é o caso dos EUA. 

"As pessoas pensam que está tudo bem, estão a ser levadas pelo vento e que depois viram e que facilmente retornam, mas já não retornam. E é aqui que começa o grande problema: ser levado pelo vento, sem conseguir contrariar a força do vento", detalha.

Um problema que o pai de Érica Vicente considera que é agravado pela forma com as pranchas são construídas: "Estão preparadas para andar, para navegar rapidamente, para ir com a grande velocidade."

"Estas pranchas, quando não são controladas ou quando se lhes perde o controlo, podem representar um perigo muito grande de a pessoa ser arrastada. Porque, como elas são muito leves e são construídas para andarem, para criar a sensação que o utilizador é muito bom e que manobra aquilo e que aquilo anda", avalia, lembrando que a filha, no dia 15 de abril, "começou a ser puxada a cerca de 10, 20 metros da linha da água, ou seja a corrente estava, de facto, a puxar para dentro do mar".

"E, para o fim, ela não conseguiu controlar e a prancha foi levada."

O presidente da ASUPP assume que "não é aconselhável para iniciantes praticar esta modalidade com vento acima dos 16 nós (29 quilómetros/hora)" porque as condições "ficam extremamente perigosas e a pessoa não tem capacidade, porque é iniciante, de remar contra o vento" - e, além disso, a legislação proíbe a prática de SUP quando as vagas - "aqueles piquinhos de onda" - seja no mar, seja numa barragem, por exemplo, sejam superiores a um metro. "É proibido fazer aquilo com mais de um metro, porque fica perigoso também."

"Outro conselho que eu dou: não vá praticar isto só porque viu um vídeo no YouTube. Vá para uma escola, uma escola que esteja certificada e tenha umas aulas de aprendizagem, onde tudo isto é referido para além de ensinar corretamente a remar, porque a maioria das pessoas não sabem remar. E isso também é, de certeza, um problema numa situação de aflição."

Posição defendida também por Vítor Vicente que considera que estas pranchas "só deviam ser usadas por um adulto, por causa da necessidade de controlo ou por pessoas que têm formação".

"Não ser exigido que seja feito um alerta sério de que só pode ser manobrada por adultos que devem ter o mínimo conhecimento das marés, dos ventos, dos locais para onde vão e da forma como o mar se está a comportar... Um adulto que tenha um problema, mesmo que não seja grande especialista, falo por mim, vai controlando a prancha." 

Colete e leash, sempre

O vento pode ser traiçoeiro e, para além de levar os praticantes para longe da costa, pode ainda ser uma ajuda a quedas da prancha. Nesse momento, para além de saber nadar, há dois acessórios que o praticante de SUP deve ter em conta: o colete salva-vidas e o leash (a corda que liga à prancha e que vai presa ao tornozelo do praticante).

A recomendação parte da Autoridade Marítima Nacional, consta nos editais que estão presentes nas praias portuguesas, e é corroborada por Miguel Dias Ferreira e Jorge Branco. 

O dono da escola de Paddle SUP é categórico: "O colete vai salvar-lhe a vida". E explica que quando alugam pranchas muitos clientes pedem para não levar o colete, mas que isso "é impossível" porque não se trata apenas de "saber nadar", vai muito além disso.

"As pessoas não se capacitam. Sei nadar, tudo bem. Portanto, eu caio, vou nadar e agarro a prancha outra vez e como sei nadar não há problema nenhum. Mas a questão não é essa, a questão é: imagine que se sente mal. Não lhe vai servir de nada saber nadar. Cai da prancha, bate com a cabeça e perde os sentidos. O colete vai salvar-lhe a vida. Portanto, não é só a questão do saber nadar que vai prevenir que aconteça alguma coisa. É mesmo uma questão muito importante de segurança", sublinha.

Uma questão de segurança e de bom senso, na opinião de Jorge Branco, que lembra que os praticantes de modalidades como a canoagem entram no barco com um colete salva-vidas e que quem pratica SUP "em pé, que é perigoso, vão sem nada, sem segurança absolutamente nenhuma" porque não há divulgação das regras.

"O bom senso devia dizer que eu devia praticar aquilo com o colete salva-vidas e o leash é muito importante porque se eu caio da prancha num dia de vento, a prancha vai-se embora e eu fico sem poder ter acesso a ela. Portanto, o leash da perna é muito importante, porque permite recuperar a prancha em caso de queda ou de um caso mais grave e é fundamental também que se use o colete salva-vidas, ou se quiser, o equipamento auxiliar de flutuação", afirma o presidente da ASSUP que, tal como o pai de Érica, apela a que as regras da prática da modalidade sejam divulgadas na venda do equipamento.

O pedido, aliás, não é novo. Na página da ASSUP no Facebook, aquando do desaparecimento da jovem, a associação escreveu que o incidente "foi mais um aviso para que se tomem as devidas providências e se faça acompanhar com a venda do equipamento uma pequena brochura com a legislação existente para a boa prática do Stand Up Paddleboarding e que muitos praticantes desconhecem".

Jorge Branco explica que "as próprias fotografias da modalidade são de tal maneira apelativas que descura-se logo, em qualquer fotografia promocional, o colete salva-vidas".

"Uma brochura era meio caminho andado para realmente criarmos muito mais segurança na prática de um desporto que é muito apelativo. Este foi o desporto náutico que mais rapidamente cresceu em todo o mundo", observa o presidente da ASSUP.

Contactada pela CNN Portugal, a Decathlon, uma das marcas que vende as pranchas de Stand Up Paddle, revela que o interesse pela modalidade tem aumentado nos últimos dez anos, assim como o aumento da procura de pranchas, seja para compra, seja para aluguer. No entanto, apesar das pranchas não serem acompanhadas por nenhuma brochura a explicar as regras da prática deste desporto, nas lojas e no site da marca é aconselhado o uso de colete salva-vidas ou de colete de flutuação.

Depois do susto

Apesar do susto que a família apanhou em abril, Vítor Vicente diz à CNN Portugal que as pranchas de SUP - desde que vendidas com brochuras e devidamente utilizadas - são um "instrumento de diversão muito bom", principalmente "se as pessoas utilizarem, mesmo ali juntinho à praia". No entanto, alerta, os riscos continuam a existir, como aconteceu com a família.

"E quando esses riscos acontecem todos em simultâneo, se quem está em cima da prancha se deixa ir ou se for, e tiver o vento, tiver a maré puxar, há mais casos destes."

Em abril, era a jovem que ia em cima da prancha, mas Vítor ainda entrou no mar para tentar alcançar a filha, sem sucesso. O trauma - do qual a família ainda não quer falar - não está totalmente ultrapassado. Érica recuperou totalmente a nível físico, mas os especialistas dizem que a jovem sofre de stress pós-traumático e toda a família ainda está a aprender a lidar com "o novo normal". 

Quanto voltar a subir para uma prancha de Stand-Up Paddle, ainda que em modo de canoagem, Vítor desconhece qual vai ser a reação.

"Não sei, ainda não fomos confrontados com a situação de termos de decidir. Era bom sinal que sim. Era bom sinal que sim, era sinal que tínhamos conseguido ultrapassar tudo, mas a usá-la é da forma como usámos no ano passado: estamos ali a chapinhar, e no caso dela, seguramente nos próximos tempos não anda na prancha sozinha. Isso aí é uma questão de fundo, não anda na prancha sozinha, de certeza absoluta", garante.

Regras essenciais se quer praticar Stand-Up Paddle

A Autoridade Marítima Nacional esclarece que a atividade de Stand-Up Paddle "não está regulada por outros diplomas e não existe enquadramento legal que permita classificar a respetiva prancha como embarcação". Por isso, os editais das capitanias têm sido atualizados no sentido de uniformizar os procedimentos a adotar.

Estas são as regrais de ouro para quem pratica SUP:

  • A prática e o ensino da modalidade devem atender prioritariamente à segurança dos seus praticantes e dos utentes do Domínio Público Marítimo, sendo obrigatório aos operadores e recomendado aos praticantes individuais que disponham de seguros que cubram danos próprios e de terceiros; 
  • Esta prática apenas é permitida com boa visibilidade, entre o nascer do sol e 30 minutos antes do ocaso do sol, em condições meteo-oceanográficas que permitam a sua realização em segurança, estando interdita a atividade em caso de emissão de aviso meteorológico laranja pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA); 
  • O praticante individual, reconhecido como profissional ou atleta de alto rendimento, está excluído da limitação imposta anteriormente; 
  • Na época balnear, só é permitida a atividade fora das áreas concessionadas, ou nos corredores dos apoios recreativos estabelecidos para o efeito, não devendo colidir com o uso público das praias nem com outras atividades devidamente autorizadas; 
  • Recomenda-se aos praticantes individuais desta atividade que antes do início da atividade, informem um familiar ou amigo, em terra, sobre o local e período que tencionam estar no mar, e após a sua conclusão. 
  • Recomenda-se aos praticantes de Stand-Up Paddle a utilização de equipamento de comunicações autónomo (ex: telemóvel em bolsa estanque), colete de salvação e leash.

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