Um ator porno, uma organizadora de eventos e uma ex-bancária criam vídeos eróticos para fãs virtuais. "Até onde a imaginação e o dinheiro permitirem"

25 jun, 19:00
Only Fans. Nicol, Rafael e Filipa

A plataforma de criadores de conteúdos OnlyFans não pára de crescer e já conta com mais de 150 milhões de utilizadores do mundo inteiro. A CNN Portugal foi conhecer três histórias de pessoas que viram a pandemia como a altura ideal para explorar as potencialidades do site e fazer algum dinheiro.

Na página de Onlyfans de "Ni", 503 publicações e 630 vídeos ficam disponíveis com uma subscrição mensal no valor de 20 dólares. Do outro lado do ecrã está Nicole Ramirez, de 27 anos, que já conquistou entre 40 e 50 assinantes com a sua jovialidade e sorriso de orelha a orelha. “Nudez não explícita”, descreve assim os conteúdos que vende no Onlyfans. “Mostro sem mostrar, incentivo-os a querer ver mais”, e, para aqueles que se deixam aliciar pelo seu rosto sardento e cabelos encaracolados, há sempre a possibilidade de interagirem numa conversa privada. "Pode ir até onde a imaginação e o poder monetário permitirem. Quem quiser que pague”. Um simples nu começa nos 350 euros, e conteúdos mais explícitos, como uma masturbação, ultrapassam os 650 euros.

À CNN Portugal responde a todas as perguntas sem qualquer pudor e com algumas gargalhadas à mistura. Só não revela os seus rendimentos “para não agoirar”, mas uma coisa garante: “É suficiente para concretizar os meus objetivos”, entre eles a mamoplastia de aumento que tanto ambicionava. Já as gorjetas – que podem chegar até aos 200 euros – reserva-as para outros caprichos. Agora com um negócio mais cimentado, conta como sonha trazer a avô de Cuba, país que viu Nicol nascer e onde viveu até aos cinco anos.

A ideia de enveredar por este ramo já pairava sobre a sua mente há alguns anos, mas o primeiro passo foi dado justamente no início da pandemia, quando os estabelecimentos fecharam e os eventos ficaram em standby. Passou a gravar alguns vídeos em casa e a aproveitar paisagens bonitas como cenário para as suas fotografias. Até à data, Nicol organizava festas temáticas privadas com uma amiga, projeto que ainda se mantém. “Consistia em ajudarmos as pessoas a conectarem-se, a fazer novas amizades ou namoricos”, explica. Hoje em dia considera o Onlyfans um part-time, que concilia com o seu trabalho em relações públicas, publicidade, e ainda arranja tempo para ser dançarina. “Tenho um projeto de atuações em casamentos, batizados, despedidas de solteiro, etc”. Consegue resumir a sua atividade profissional? “Trabalho com pessoas”, conclui, e é na sua imagem que encontra uma ferramenta de trabalho.

Mas o que é o OnlyFans?

Com sede em Londres, no Reino Unido, a plataforma OnlyFans surgiu em 2016 e conta com mais de 150 milhões de utilizadores. Trata-se de um serviço de assinaturas para criadores de conteúdos digitais que, através de subscrições dos chamados “fãs”, podem receber financiamento mensal em troca do acesso aos conteúdos da sua página, que incluem vídeos e fotografias produzidos pelos próprios nas mais variadas áreas. Com recurso ao pay-per-view, os assinantes também têm a possibilidade de receber conteúdos personalizados e privados de acordo com um valor estipulado pelo gestor da página.

Apesar de também acolher o trabalho de músicos ou personal trainers, o serviço ganhou uma vasta popularidade entre trabalhadores sexuais, atores pornográficos ou - como Nicol Ramirez – aqueles que procuram apostar em conteúdos mais eróticos. “Há espaço suficiente para todos, há gostos para tudo”, afirma a jovem. “Há pessoas que gostam de mais magrinhas, há pessoas que gostam de mais gordinhas, há homens que gostam de homens, mulheres que gostam de mulheres”, e a lista podia continuar. O que recebe é quase sempre o mesmo, mas assume que os seguidores são bastante imprevisíveis. “Eles vão e vêm. Há os que subscrevem meses e há os que subscrevem só uma vez”, explica.

Do valor pago por cada subscritor, a plataforma retira sempre uma taxa de 20% e o restante fica disponível para ser movimentado para o criador de conteúdos.

Alguns criadores fazem promoções, como por exemplo oferecer 50% de desconto aos primeiros 100 subscritores, mas Nicol recusa, gosta do seu valor bem estabelecido. “Costumo dizer que não sou o Pingo Doce para fazer promoções.” Explica que é como ter um Instagram pago e às vezes acaba até por desempenhar um papel de “psicóloga”. “Converso com os meus clientes, partilhamos ali bons momentos. Há pessoas que são praticamente amigas, nunca as vi pessoalmente mas desabafam comigo”. Arrisca-se a dizer que é quase “uma namorada virtual” de muitos dos seus seguidores. “Não me importo, tenho uns 50 namorados por mês, mas só no OnlyFans”, ri-se. Por outro lado, salienta que não teve contacto com nenhum cliente até ao momento, sobretudo porque muitos nem sequer apresentam uma fotografia de perfil. “Não faço ideia quem sejam”, assegura.

Ao contrário daquilo que pensava antes de ativar a sua página, as idades de quem subscreve os seus conteúdos variam bastante, a partir dos 20 anos, sendo a maior parte de nacionalidade portuguesa. E pedidos menos convencionais por parte dos fãs? “Tive um cliente que me pediu um vídeo de dois minutos com roupa, um top curto normal, apenas a mexer no umbigo”, revela, acrescentando que não hesitou em fazê-lo.

"Tudo é uma oportunidade para fazer dinheiro"

Durante a pandemia Nicol recebia diariamente vários solicitações para videochamadas e encontros, mas garante nunca ter aceitado. "Há certas pessoas que começam a ficar obsessivas e ligam muito, mas eu simplesmente bloqueio. Não tenho paciência", desabafa. Explica que também tem uma vida, com as suas duas cadelas e os outros trabalhos. Mas, para si, uma coisa é certa: "tudo é uma oportunidade para fazer dinheiro", e ela não pretende desperdiçá-la. "Mesmo que vá jantar fora, estou sempre ligada ao OnlyFans, nem que vá à casa de banho tirar uma foto".

Questionada sobre se este tipo de negócios poderá ter crescido durante a pandemia, dá o seu exemplo. “Sabia que muitas pessoas estavam em casa sozinhas, não tinham com quem falar”, admite. “Já que muitas gostavam da minha imagem e da minha pessoa, então claro, aproveitei-me um pouco disso e criei a plataforma”.

Também Rafael Ferreira seguiu o mesmo caminho. Com 35 anos, é acompanhante de luxo e ator pornográfico porque há uma década assim o decidiu: "quero trabalhar com sexo". Dito e feito. Hoje possui uma carteira de clientes nos quais tem total confiança e cerca de 40 filmes para adultos gravados. Quando a pandemia fechou toda a gente em casa, não podia realizar encontros e as filmagens que fazia uma vez por semana foram canceladas por tempo indeterminado. Restou-lhe o OnlyFans, que surgiu meses antes da pandemia, depois de lhe terem solicitado conteúdos mais particulares. "Fomos forçados a utilizar a criatividade para fazer coisas a solo, e responder a pedidos do público", diz.

No final, resultou, e desde então nunca mais deixou esse negócio, ainda que agora o concilie com os seus restantes trabalhos. "Tenho que ter conteúdos novos todas as semanas até porque, se não tiver, o próprio OnlyFans notifica-me e o dinheiro pode ser devolvido". Rafael publica conteúdos duas vezes por semana, à terça e à sexta-feira. Inicialmente tratavam-se de vídeos individuais, mas agora, que as restrições por conta da covid-19 começam a diminuir, já convida outros participantes de diferentes cantos do mundo como Barcelona, França, Alemanha e Brasil. "Muitas pessoas procuram-me no Twitter por eu já ter um nome dentro da área dos filmes", esclarece. "Perguntam se estou disponível para fazer uma gravação e às vezes envolve viajar".

Com a crescente partilha de conteúdos eróticos e pornográficos para fins lucrativos, em agosto de 2021 a Onlyfans anunciou que os iria retirar, uma vez que o site não tinha sido criado com esse objetivo. Cerca de 24 horas depois voltou atrás na decisão, mas foram sendo implementadas novas regras. Entre elas, a produção de conteúdos apenas com outros criadores registados. De outra forma, os envolvidos são obrigados a assinar um termo de autorização de uso de imagem. "Tinha vídeos antigos com pessoas que não estavam ligadas à plataforma e foram todos retirados", lamenta Rafael. "É complicado, mas como todas as pessoas são verificadas também dá uma sensação de segurança".

Na sua opinião, continua a ser o maior site para este tipo de trabalho, e garante que "quem sabe trabalhar" consegue ganhar muito bem. "Cheguei a receber gorjetas mínimas de cinco euros e cheguei a ganhar até 500, mas ainda há valores mais altos". No final do mês, não recebe menos de 1500 euros só através do OnlyFans e tenciona deixar os outros dois trabalhos para se dedicar inteiramente a este negócio. "Tira muito a possibilidade de ter um relacionamento porque simplesmente viro um produto. Não me veem como Rafael, veem-me como um ator porno". Já pensou em juntar-se aos seus pais, no Alentejo. Só precisará de uma câmara e de um programa de edição. 

Um negócio de anos que se reinventou

Aquela que há quase 10 anos começou por ser uma solução para o seu desemprego, acabou por se transformar numa atividade que a realiza. Filipa Santos, de 29 anos, era bancária, formada em gestão de pequenas e médias empresas, e hoje vê na criação de conteúdos eróticos uma profissão que a permitiu atingir um certo patamar nesta área. Define-se como “camgirl”, alguém que também se filma em direto para o cliente, do outro lado do monitor. “Os conteúdos que faço são explícitos, mas variam muito em função da companhia, de fetiches ou de pedidos personalizados”, descreve.

Explica que quando se inseriu neste meio, as coisas eram muito piores, uma vez que não havia redes sociais. Os recursos disponíveis eram o Skype e sites como o Cam4 – plataforma de transmissões em direto via webcam. “Dávamos os nossos contactos e depois o cliente, caso tivesse interesse, pagava por entidade e referência ou carregamento do telemóvel”, lembra. “Hoje em dia qualquer miúda bonita com um corpo bonito tem um OnlyFans”, plataforma que começou por ver como inimiga do seu trabalho. Através da subscrição, os clientes ganham acesso a bastante conteúdo, ao passo que as camgirls vendiam o conteúdo individualmente. Mas durante a pandemia “não se ouvia falar em mais nada”, e, como diz a célebre expressão, “se não os podes vencer, junta-te a eles”.

Mas o que atrai tantos utilizadores? Filipa passa a explicar: "vamos imaginar uma rede social onde o fã tem acesso a vários tipos de conteúdo. Pequenos vídeos, imagens que não vão ver em mais lado nenhum, só mesmo no OnlyFans. Depois há aqueles fãs que querem ver mais vídeos, e mais completos, então pagam à parte ou compram o vídeo inteiro". No seu caso, tirar uma fotografia com o nome do cliente escrito faz parte dos conteúdos personalizados, ou vídeos nos quais o fã decide o que acontece do início ao fim. "Como é que eu me mexo, o que é que eu vou dizer, se falo o nome dele", esclarece. Há também solicitações mais insólitas que passam por ver a pessoa do outro lado a defecar ou a urinar.

"Se vamos dizer que temos uma página de OnlyFans, já somos rotuladas de prostitutas", critica, citando alguns membros da sua família, a "parte mais retrógrada". Os amigos, assegura, apoiam-na e veem aquilo que faz com bons olhos. É um trabalho para manter? Filipa não hesita: "enquanto houver corpo para continuar, sim".

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