Telemóveis que ajudam diabéticos, cirurgias feitas só por robôs, tratamentos de precisão. É esta a medicina do futuro

4 abr, 22:00
Medicina do futuro (fonte: Getty)

Reunidos no 24.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos, que decorreu no fim de semana, os profissionais de saúde debateram os problemas e soluções para a saúde nos próximos anos. À CNN Portugal, o bastonário dos médicos explica os novos tratamentos, as mais recentes cirurgias e as mudanças que serão feitas nas consultas. Uma conversa que resulta de uma grande entrevista feita a Miguel Guimarães e que tem sido publicada ao longo dos últimos dias. Esta terceira parte é sobre a revolução tecnológica na saúde

Decorreu este fim de semana o 24.º Congresso Nacional da Ordem dos Médicos com o tema “Cenários Para 2040”. Porque escolheram estes 18 anos como meta? 

Estamos a colocar a meta de 2040, porque um médico especialista precisa de 13 anos para se formar só no ensino superior, seis anos de curso de medicina, um ano de formação geral e quatro de especialidade. Temos de antecipar aquilo que pode acontecer, porque há coisas que sabemos que vão certamente acontecer e outras que já estão a acontecer. É necessário desenhar agora aquilo que queremos para essa altura, porque isso é que nos permite estar preparados para dar resposta. 

 

Como é que as novas tecnologias modificar o modo como se faz medicina? 

A transformação digital vai mudar a forma como algumas especialidades trabalham. Isso já se começa a notar, o que significa que em 2040 ou até já em 2035, nós vamos ter em algumas especialidades com mais necessidade de especialistas, noutras vamos ter muito e, provavelmente, vamos ter especialidades novas. 

 

Será necessário modificar-se os cursos de medicina lecionados hoje nas universidades? 

O curso que medicina se calhar vai precisar de alterações na sua génese. Nomeadamente, relacionadas com as novas tecnologias para que as pessoas estejam cada vez mais bem preparadas para absorver as novas valências. Obviamente, estas mudanças significam alterações com anos de antecedência.  

 

O congresso vai apenas contar com a presença de médicos? 

Pretendemos neste congresso ter diversidade para podermos pensar em conjunto sobre aquilo que está a acontecer e aquilo que sabemos que vai acontecer, como é o caso da transformação digital. Por isso, vamos contar com a ajuda de peritos de várias áreas, a maior parte nem são médicos, são engenheiros, físicos, biólogos e até jornalistas.  

 

O avanço tecnológico vai afetar a relação entre médico e utente? 

A tecnologia não vai alterar a forma como nós interagimos com os doentes. A relação médico doente vai manter-se sempre, podem é surgir algumas nuances positivas, como por exemplo, deixar de existir um computador e um ecrã entre médico e paciente. Passar a ser tudo apenas falado na consulta, enquanto fica gravado e processado automaticamente por um sistema informático.  Ou seja, vai haver um aproveitamento das tecnologias mais avançadas que já existem atualmente, mas que não estão a ser implementadas no terreno. Tudo isto terá como propósito central que relação médico/doente volte a ser aquilo que foi anteriormente.  

 

Haverá uma aposta na telemedicina?

Vai haver um grande aproveitamento das ferramentas digitais, nomeadamente, naquilo a que se tem chamado telemedicina ou medicina à distância, que poderá ser aplicado à monitorização de uma série de doenças crónicas. Mas, uma telemedicina melhorada do que a que temos hoje, que simule aquilo que acontece na realidade, que tenha imagem, em que o médico consiga olhar para o doente e o vice-versa. O objetivo é que se consigam perceber algumas reações do doente. No entanto, isso significa que é preciso equipar todos os hospitais e os centros de saúde, seja no setor privado, social ou público. Apesar dos custos desta modernização, há cirurgia que demoram uma hora e que vão passar a demorar 10 minutos, como já aconteceu no passado, há uma evolução.



Pode-se dizer, então, que vai existir uma revolução na medicina?

Não há grandes revoluções na medicina, mas pode haver coisas completamente disruptivas. Vejamos aquilo que a inteligência artificial hoje já faz. Neste momento, já possível falar-se com um computador através de uma plataforma de apoio à voz com uma precisão incrível, que raramente tem erros nas transcrições do que se diz. Isto, é algo brutal. Apesar de ser uma forma pequenina de inteligência artificial, significa que no futuro cerca de 30% a 35% do trabalho burocrático e administrativo que os médicos fazem pode vir a ser automático. Os profissionais passarão assim a ter mais tempo para o doente e a ter menos pressão.  

E para os doentes, como é que a inteligência artificial vai ser utilizada? 

A inteligência artificial vai ser também muito utilizada naquilo que é a monitorização de doenças crónicas. Se tiver um doente for diabético, por exemplo, poderá ter um telemóvel, onde estará instalada uma aplicação, que lhe vai colocando variadas questões ao longo do dia. Em alguns casos, esta tecnologia poderá até medir a frequência cardíaca, a taxa de oxigenação no sangue e já há muita coisa nesta área. Até relógios fazem coisas que eram impensáveis há cinco anos atrás. O próprio doente, quando tiver alguma dúvida, terá a possibilidade de contactar diretamente com o médico, isso vai ser fácil, porque estas aplicações permitem fazer isso em segurança, de uma forma eficaz e fácil para o profissional responder. Esta transformação vai ter um impacto substancial na forma como fazemos medicina no futuro. 

 

O que se poderia fazer quanto a estas tarefas administrativas no imediato? 

Uma das coisas que nós temos dito várias vezes, sobretudo, na área da medicina geral e familiar, é que se libertem os médicos das tarefas burocráticas. Se temos falta de médicos e os profissionais estão sobrecarregados com trabalhos burocráticos e administrativos, soltem-nos. Tal como acontece nos Estados Unidos, onde há técnicos que ajudam os médicos. Para os médicos fazerem aquilo que é o principal que é medicina propriamente dita e as tecnologias vão ajudar nisso, vão facilitar os processos e procedimentos.  



Se um médico trabalhar 10 horas, quanto desse tempo é despendido em trabalho burocrático?  

Diria que por hora, um médico perde 20% a 30% do tempo a lidar com tarefas administrativas. Se aplicarmos isto a 10 horas, temos duas horas e meia perdidas em tarefas burocráticas. É muito tempo e não é motivador. Os médicos gostam de fazer aquilo que sabem fazer que é medicina.



Quanto às cirurgias, como serão os procedimentos e os cirurgiões do futuro?  

Os processos vão se tornar menos evasivos. No outro dia, foi notícia a nível internacional, a primeira cirurgia feita integralmente por um robô. Ou seja, nós já fazemos cirurgias com robôs, nomeadamente o robô Da Vinci que foi o primeiro usado pelos soldados norte-americanos quando estavam no Iraque.

 

Como é que foi feita essa operação?

O robô estava no terreno e os cirurgiões operavam desde Miami ou Nova Iorque, algo que é impressionante. Isto já existe, não se faz é em massa. Tal como já foram criados equipamentos, em que um doente faz uma mamografia e a máquina tem na sua memória milhões de imagens. A própria TAC (Tomografia computadorizada) faz-lhe o exame e, no momento em que acaba, emite o relatório, que tem uma precisão de um a dois milímetros para qualquer lesão, uma precisão que não temos nos métodos comuns. Esta tecnologia dos megadados, em que uma máquina lida com milhões de dados e que tem conhecimento suficiente para poder interpretá-los é uma coisa brutal. 

 

Deixará de ser necessária a presença de um médico para estes procedimentos? 

Em todas estas circunstâncias, será necessária a presença de um médico para validar estes relatórios, calibrar as máquinas ou para tirar dúvidas que o paciente possa ter, mas isto vai tornar tudo mais simples. Acho que há uma grande carga do trabalho burocrático que vai desaparecer das mãos dos médicos e acabar. Isso vai ser um passo muito importante. 



Em termos de tratamentos, o que se vai alterar nas próximas décadas?

Vamos chegar também à medicina de precisão, que vai ter um papel importantíssimo.  

O que é que é a medicina de precisão?  

Consiste na capacidade de se desenvolver um determinado tipo de tratamento específico para cada doente. Ou seja, cada pessoa terá o seu próprio tratamento, a sua dose. Até hoje, temos medicamentos que têm uma dosagem standard para todos os doentes, é assim com a vacinas ou com os comprimidos, mas já existem medicamentos em que, através de estudos moleculares ou genéticos, sabemos que para determinado doente em vez de se administrar 0,4 miligramas por dia, como se faz na generalidade dos doentes, devemos dar-lhe 0,5 ou 0,6 miligramas.  

 

O que é que isto significa?  

Ao fazer aquela dose personalizada vai ter uma eficácia muito maior com muitos efeitos laterais. Agora temos de colocar isto em prática numa área como a da medicação oncológica, onde isto é crítico. O problema é que este tipo de medicina é muito cara inicialmente. Mas, com o tempo vai ficando mais barata para as farmacêuticas, é como tudo na vida. Estes desenvolvimentos significam que vamos tratar cada vez melhor os doentes, tratá-los com mais eficácia e menos efeitos laterais. 

Quanto a tratamentos inovadores com o uso medicinal da canábis, qual a posição dos médicos portugueses?  

Os canabinoides são uma via de investigação importante, que tem grandes potencialidades para determinado tipo situações clínicas. Desde que haja evidência científica para a sua utilização da canábis em determinado tipo de patologias, obviamente que somos a favor. Agora se não houver, então não. Este é o princípio de qualquer medicamento. Aliás, quando isto foi discutido na Assembleia da República, nós fizemos um parecer, que levou depois às decisões que foram tomadas. Foi um parecer sensato, com base na evidência científica que existia para alguns derivados da canábis. Os outros, para os quais ainda não havia prova científica têm de continuar a ser investigados.  

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