“Espero que a dra. Marta Temido venha com uma predisposição diferente”

2 abr, 18:00
Miguel Guimarães

Com o Congresso Nacional da Ordem dos Médicos a decorrer este fim de semana, o bastonário, numa grande entrevista à CNN Portugal, fala dos problemas mais preocupantes, dos riscos que a guerra traz, da medicina do futuro, entre muitos outros temas. A conversa está a ser publicada ao longo destes dias. Se na primeira parte Miguel Guimarães explicou o que se passa nas urgência, nesta segunda diz o que pensa da recondução da ministra Saúde e da atuação de Graça Freitas na DGS e analisa a prestação de Portugal no combate à pandemia

O que acha de António Costa ter mantido a ministra Marta Temido no Governo?  

Normalmente, não me pronuncio sobre as escolhas para ministros por uma questão de princípio. Essa responsabilidade cabe sempre ao Primeiro-ministro, ao partido que os portugueses escolheram para governar Portugal e, portanto, não faz muito sentido comentar. No entanto, o que lhe posso dizer é isto: é muito difícil fazer uma transformação no Serviço Nacional de Saúde, para que seja uma empresa mais ágil, com mais capacidade de resposta, capaz de competir com o setor privado e social e com o estrangeiro, sem ter aqui uma intervenção que valorize a carreira dos profissionais de saúde, que valorize aquilo que são as suas competências e as suas responsabilidades. Não se muda um sistema de saúde ou um serviço de saúde antes de reunir com os profissionais.

 

Mas a ministra não valoriza?

A ministra Marta Temido durante o tempo em que foi ministra nem sequer reuniu connosco, com as ordens profissionais, nem com o sindicato. É muito difícil conseguirem-se fazer transformações profundas no serviço de saúde, que são necessárias e que vão desde a gestão àquilo que são as reformas do serviço de urgências, dos hospitais e dos próprios cuidados de saúde primários, mesmo que tenha um plano, que também não conheço.

 

Está a falar da ausência desse tema no programa do PS?

Os programas dos partidos políticos eram todos muito fracos. Havia um que era diferente, o da Iniciativa Liberal que tinha propostas diferentes para a área da saúde mental, sobretudo. Agora os outros era tudo a mesma promessa: médico de família para todos os portugueses. Não é que não seja importante, mas não havia nada de disruptivo nos programa dos partidos, não havia nada de diferente, não havia nada que fosse melhorar o funcionamento do SNS. Num país como o nosso, temos também de considerar o setor privado e social que têm um peso especifico.

 

Qual deve ser o papel desses setores?

Têm médicos, têm equipamentos e podem ajudar. A pandemia veio mostrar isso mesmo, pois deram uma grande ajuda. Só tivemos capacidade de testagem, porque o privado estava preparado para testar, se não não tínhamos testes. As pessoas já nem se lembram disto, mas os testes eram todos feitos pelos laboratórios Unilabs, Germano de Sousa, António Carneiro. Pelo menos eram laboratórios portugueses privados, e ainda bem que temos esta reserva e esta capacidade.

O que espera da ministra da Saúde nesta legislatura?

Espero que a dra. Marta Temido se aproxime dos médicos, dos enfermeiros, dos profissionais de saúde. Que oiça os profissionais que trabalham no terreno todos os dias para perceber quais são as dificuldades que têm e que construa, juntamente com os vários parceiros sociais, as associações de doentes, as ordens profissionais, os sindicatos, uma mudança para que o SNS tenha mais capacidade de resposta. E com uma cooperação com o setor privado e social, sempre que for necessário, mas com uma grande regulação e fiscalização. Portanto espero que a dra. Marta Temido venha com uma predisposição diferente. E que esteja disponível para negociar com as pessoas, porque isto deve ser um trabalho conjunto e não um trabalho de uma pessoa só. Se não o fizer, nós cá estaremos para continuar a defender os doentes. Nunca vamos desistir de defender os doentes.

 

Olhando para trás, qual é o balanço que faz na gestão da pandemia? Acho que tivemos altos e baixos durante a pandemia. Tivemos boas e más decisões políticas. Tivemos decisões atrasadas da área da Autoridade Nacional de Saúde. Lembro-me que quando foi decidido pela DGS usar as máscaras, elas já estavam a ser usadas nos hospitais há três ou quatro semanas por decisão autónoma. Houve outras coisas que correram bem, acho que tivemos pontos positivos e pontos negativos

 

Quais foram na sua opinião os pontos positivos?

Um exemplo de ponto positivo extraordinariamente foi a vacinação. O Governo, a task force e o nosso vice-almirante Gouveia e Melo estiveram muitíssimo bem. Foi uma excelente opção do Governo pôr os militares a tratar do processo de vacinação. Depois, tivemos aqui algumas coisas que em termos de decisões políticas não estiveram bem.

 

E que decisões foram essas?

Lembro-me que a terceira onda ocorreu entre novembro/dezembro de 2020 e fevereiro de 2021 e na altura as pessoas já estavam a dizer que era preciso fechar as escolas. Na época era a variante Delta que dava uma doença muito mais grave, e fomos todos protestando a pedir por favor para fecharem as escolas. O número de pessoas que morreu durante aquelas três semanas foi grande e podia ter tido outro tipo de desfecho. Essa altura não foi bem gerida. As decisões políticas foram lentas, não se ouviu a sociedade civil e as coisas aí não correram bem. Mas, a verdade é que contrariamente àquilo que o Conselho Nacional de Saúde tinha sugerido, que era não haver confinamento, o Primeiro-ministro decidiu pelo confinamento e nós rapidamente controlámos a pandemia.

 

Esse momento foi importante?

Foi um controlo notável, esse foi o momento alto positivo do controlo da pandemia. O resultado global, diria que acaba por ser positivo, porque nós neste momento temos uma taxa de população vacinada e isto deve-se muito aos cidadãos. Os portugueses são notáveis. Conseguem perceber que é importante a vacinação e aceitam ser vacinados. Devemos ter 94% ou 92% da população vacinada, mesmo com a terceira dose, o que significa que temos um grau de proteção muito elevado

 

E quando acha que acabam de vez medidas restritivas que ainda existem?

 O tempo já está a aquecer, estamos a entrar nesta primavera especial, ao que chamei, há um tempo atrás, Primavera da Liberdade, o que significa que está na altura da Diretora-geral da Saúde pensar seriamente em acabar com as medidas restritivas que ainda existem. Penso que isso poderá ocorrer dentro das próximas duas ou três semanas e acho que é positivo que ocorra, porque temos condições para isso acontecer.  

Durante a pandemia fez algumas críticas à atuação da DGS. Acha que é urgente a substituição de Graça Freitas? Durante a pandemia, a OM criou um gabinete de crise para o qual convidei como coordenador o dr. Filipe Froes. Fiz isso ainda antes de tomar posse como bastonário – tinha sido eleito em janeiro e fiz isso em fevereiro - porque já se estava a falar da pandemia em Itália e pensámos: isto vai chegar cá. Pensámos ao contrário da diretora-geral da Saúde. A partir do dia em que houve casos em Portugal, o gabinete de crise começou a fazer recomendações. A 2 de março de 2020, fizemos as primeiras recomendações, ainda a DGS não estava a atuar. Só em Portugal, é que uma estrutura como a Ordem dos Médicos não foi incluída no grupo de pessoas que deviam ter sido ouvidas na DGS.  E porque é que isso não aconteceu?

É uma questão a colocar ou à ministra da Saúde ou à dra. Graça Freitas. Não é uma questão que eu possa responder, eu teria feito isso. Acho que nos devemos rodear das pessoas que têm responsabilidade e massa crítica para poder tomar decisões, mas não foi a opinião da DGS. Agora, independentemente disso, não deixamos de fazer recomendações, porque achamos que é a nossa obrigação. Estava em causa a vida das pessoas.

 

Mas, a Ordem dos Médicos fez várias críticas à DGS.

Houve uma ou outra crítica é verdade, em alturas especiais e que era absolutamente necessário que a DGS tomasse uma decisão rápida como quando foi no caso da vacinação, que andámos ali a empatar se avança, se começava pelos mais velhos. Claro que era pelos mais velhos! A taxa de mortalidade era de 14%, a diferença era brutal para as outras pessoas, pessoas com mais de 80 anos tinham rapidamente de ser todas vacinadas. Mas, se recuar, houve ali um tempo de hesitação e aí exercemos alguma pressão para que acontecesse.

 

E o pensa, então, da atuação de Graça Freitas?

Relativamente à diretora-geral de Saúde esteve em linha com o Governo. Foi fazendo o seu trabalho técnico. Não me parece que a diretora-geral da Saúde deva sair por causa disso. Qualquer dia vai sair, porque penso que já está perto da idade da reforma.

 

E qual deve ser agora o papel em relação à pandemia?

Deve-se fazer uma avaliação independente à pandemia para se tirar lições da pandemia. Devemos ou não devemos ter uma estrutura estratégica para estas questões que colocam em causa a segurança nacional? Deve ou não deve existir uma reserva estratégica no SNS e até no setor privado? E por aí adiante. Esse pensamento que já deveria estar a ser feito, até diria que já devia estar concluído. Pelo menos, não houve nenhum resultado que fosse apresentado. Há países que já o fizeram, como a França.

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