Lutadoras de sumo no Japão: conheça as mulheres que estão a mudar o desporto

CNN , Emiko Jozuka, Don Riddell
26 jan, 21:00
Os espetadores afirmam que as raparigas parecem ter menos receio de estar frente a frente do que os rapazes, durante as lutas

O nível profissional de sumo ainda exclui as mulheres de competições e cerimónias mas, apesar dos obstáculos, a prática de sumo por parte das mulheres existe desde os primórdios deste desporto

Com um olhar determinado, Senna Kajiwara avança de cabeça em direção à sua adversária.

As duas pré-adolescentes debatem-se por cerca de doze segundos, antes de Kajiwara expulsar a sua rival para fora do ringue.

Neste torneio de sumo, não há homens de tanga a competir pelo título de “grande campeão”. Em vez disso, raparigas com idades entre os 8 e os 12 anos encontram-se frente a frente e, passo a passo, mudam o futuro do desporto nacional do Japão dominado por homens.

“Algumas pessoas ficam surpreendidas e até chocadas quando descobrem que eu pratico sumo. Pensam que a luta de sumo é apenas para rapazes e homens", disse Kajiwara à CNN Desorto.

“Se houver mais raparigas e mulheres na luta de sumo, conseguiremos alcançar condições equitativas e viver deste desporto. Espero que isso aconteça”, afirma ela.

Senna Kajiwara começou a praticar sumo quando tinha oito anos.

Kajiwara, de 12 anos, afável e de óculos, começou a praticar sumo e judo há quatro anos. Como atual campeã da primeira edição de um torneio nacional que se destinava a raparigas em 2019, está determinada a manter o seu título e a chegar tão longe quanto lhe for possível neste desporto.

“Algumas pessoas não compreendem porque é que pratico sumo, mas eu não me deixo afetar pelo que pensam. Se queremos praticar sumo, é o que devemos fazer”, afirma.

Mas, para as mulheres, a realidade não é assim tão simples.

O nível profissional de sumo ainda exclui as mulheres de competições e cerimónias. Nos últimos anos, houve diversos escândalos que mancharam a reputação do desporto.

Os ânimos exaltaram-se em 2018, quando profissionais de saúde do sexo feminino tentaram auxiliar o Prefeito após este sentir-se mal e lhes foi exigido que saíssem do ringue do sumo, na prefeitura de Quioto. Muitos compreendem este incidente como um reflexo da forma de tratamento das mulheres no Japão patriarcal, que se encontra na posição 120 de 156 países do mais recente Índice de Desigualdade de Género do Fórum Económico Mundial.

Supermulheres e a indústria do entretenimento

Apesar dos desafios, os especialistas afirmam que as mudanças de atitude no Japão estão a abrir caminho para o futuro de jovens raparigas e mulheres na prática de sumo.

A luta profissional de sumo ou Ozumo é uma atividade ancestral, que remonta há mais de 1500 anos. É uma prática exclusiva para homens e tradicionalmente realizada em santuários no Japão, com o objetivo de orar por colheitas abundantes. A cerimónia rigorosa deste desporto manteve-se largamente inalterada durante séculos.

É comum que os combates durem meros segundos e, na maioria das vezes, os dois lutadores defrontam-se no dohyo, um estrado de argila elevado. As mulheres não são permitidas em ringues, uma vez que são consideradas impuras, segundo o Xintoísmo, por menstruarem.

Lutador de sumo Tochinoshin, da Geórgia, (à direita), defronta Takayasu, do Japão, (à esquerda), durante o Grande Torneio de Sumo de verão, em Tóquio, a 26 de maio de 2019.

Apesar dos obstáculos, a prática de sumo por parte das mulheres existe desde os primórdios deste desporto, de acordo com Eiko Kaneda, professora na Universidade Nipónica de Ciências do Desporto, em Tóquio, no Japão.

Por exemplo, no segundo livro mais antigo de História japonesa, que se intitula “As Crónicas do Japão”, há um testemunho do século VIII que descreve como o Imperador Yuuryaku pedia a algumas oficiais de baixa patente que lutassem sumo. Kaneda escreve sobre isto num estudo publicado no “International Journal of the History of Sport”.

Uma obra literária conceituada intitulada “Ukiyo-zoushi” publicada no Período Edo (entre 1603 e 1867) faz mesmo referência a uma luta de sumo entre uma mulher e um homem cego.

E, apesar de as mulheres terem sido proibidas de lutar sumo por um curto período de tempo em 1873, este desporto veio a ser revisto uns anos mais tarde, tornando-se até mundial na década de 1930, quando teve lugar no Havai um evento concebido para exibir a força de lutadoras de sumo, afirma Kaneda.

Ela afirma que a luta de sumo feminina tradicional não era apenas uma forma de entretenimento, mas destacava também uma crença nas qualidades extraordinárias da lutadora. Kaneda escreve que existem registos de lutadoras de sumo que faziam de tudo, desde rezar para que chovesse, na prefeitura de Akita, (uma vez que a sua alegada impureza poderia invocar a fúria dos deuses), a celebrar eventos auspiciosos, tais como casamentos, em Kyushu.

Entre as décadas de 1940 e 1950, a luta de sumo até era considerada uma forma de erotismo clandestino, em que os corpos das mulheres eram objetificados, uma vez que estas se apresentavam em bares, vestidas apenas com tangas, disse Chie Ikkai, professora na Universidade Feminina de Gunma.

Oportunidades para as mais jovens

Avançando para o século XXI, num ginásio local com fraca iluminação, nos arredores de Tóquio, rapazes e raparigas com idades entre os 8 e os 12 anos defrontam-se, entre empurrões e cabeçadas.

Miki Ouike, um treinador de luta-livre, orgulha-se de ter tantas raparigas nas suas aulas, mas afirma que uma há uma falta de clubes de sumo generalizada pelo Japão e isso significa que muitas das raparigas treinam judo e luta-livre.

A sua melhor aluna é Nikori Hara, de 12 anos, que ganhou a competição regional de sumo e se está a preparar para competir no segundo torneio nacional feminino de Wanpaku.

As jovens que competem no torneio nacional feminino de Wanpaku também vêm de contextos de judo e luta-livre.

Este torneio abriu as suas portas a raparigas pela primeira vez em 2019, mais de três décadas depois de receber pela primeira vez rapazes da mesma faixa etária.

Ouike afirma que ainda não se fala muito sobre a existência de competições de sumo femininas. “É uma pena que não haja mais raparigas informadas acerca das oportunidades que existem para experimentarem a luta de sumo”, disse ele à CNN.

As jovens que querem experimentar este desporto começam por se juntar a clubes de sumo unissexo, nas escolas ou nas suas comunidades. Se pretenderem continuar com a prática, inscrevem-se numa das poucas universidades japonesas que recebem mulheres nos clubes de sumo, de acordo com Hiyori Kon, membro da equipa nacional do Japão.

Em criança, Kon treinava em clubes locais na prefeitura de Aichi, no norte do Japão, tendo depois entrado para o clube de sumo da Universidade de Ritsumeikan, na prefeitura de Quioto.

Os espetadores afirmam que as raparigas parecem ter menos receio de estar frente a frente do que os rapazes, durante as lutas.

Atualmente, é funcionária de uma empresa japonesa na prefeitura de Aichi e compete a nível internacional como lutadora de sumo amadora. Ela quer que mais mulheres possam ser capazes de acompanhar a prática de sumo, mas, por vezes, os treinadores não entendem como lidar com aspirantes femininas a lutadoras de sumo.

No torneio feminino de Wanpaku do ano corrente, Kon participou como mestre-de-cerimónias, comentando as técnicas das lutadoras, enquanto multidões de pais entusiasmados e de espetadores curiosos apoiavam as participantes.

As audiências das lutas de sumo têm vindo a diminuir ao longo das duas últimas décadas devido à competição com os outros dois grandes espetáculos desportivos do Japão: basebol e futebol.

Mas isto levou a Associação de Sumo do Japão a puxar pela criatividade. Em outubro passado, a associação anunciou uma parceria com a Pokemon Inc., que levou mascotes como o Pikachu a desfilar por Wanpaku, com o objetivo de atrair outras audiências mais jovens.

A primeira edição do torneio nacional feminino de Wanpaku teve lugar em 2019.

Durante a competição nacional de Wanpaku, todas as raparigas vestiram mawashi, uma tanga, por cima de calções de ciclismo, “leggings” e uma “t-shirt” do torneio, com cores a diferenciar as faixas etárias. Torneios deste género demonstram como a prática de sumo evoluiu no Japão, diz Kon.

“A sociedade japonesa tornou-se mais encorajadora da prática feminina de sumo. Este é o segundo ano em que realizamos o Torneio de Sumo Feminino de Wanpaku e orgulho-me de dizer que passámos de zero, para um e, atualmente, dois torneios”, disse Kon à CNN Desporto.

No passado, as jovens que ganhassem eventos regionais não podiam avançar para as finais nacionais, uma vez que o evento decorria na arena desportiva Ryogoku Kokugikan, em Tóquio, que é conhecida como a casa espiritual deste desporto. É esta arena que recebe os torneios profissionais de sumo da primavera, do verão e do outono e as mulheres não podem pisar o seu dohyo.

O futuro

A prática de sumo pode ser uma profissão lucrativa, mas, atualmente, os salários são pagos apenas a lutadores profissionais nas duas maiores divisões, de entre as seis existentes. Os lutadores de sumo com o título de yokozuna, que estejam no topo da divisão, podem receber um salário base de cerca de 25 000 dólares por mês, mais o prémio monetário.

Apesar de o mundo da prática de sumo não se revoltar contra o facto de as mulheres competirem apenas a nível amador, para elas, ainda não existem quaisquer oportunidades monetárias, de acordo com John Gunning, ex-lutador de sumo amador.

Kon afirma que o seu desejo não é que as mulheres integrem as classificações Ozumo. Em vez disso, ela quer que as mulheres tenham a opção de se sustentar com a prática de sumo, tal como os homens têm.

“O sumo praticado por mulheres é visto como um desporto menor e a equipa nacional feminina do Japão não consegue arranjar um campo de treino por falta de fundos”, afirma Kon. “A questão principal é como estabelecer uma liga e tornar o sumo amador em profissional.”

Com um campeonato feminino mundial para jovens e também para adultas, aumentar o número de raparigas e mulheres a praticar sumo é crucial para este se tornar um desporto olímpico.

Em 2018, o Comité Olímpico Internacional reconheceu a luta de sumo como um desporto, mas ainda não é uma modalidade nos Jogos. Ainda assim, as lutadoras amadoras, como Kon, esperam que a próxima geração de lutadoras tenha um palco maior para competir.

Senna Kajiwara (segunda da direita) posa para a fotografia, com colegas, após ganhar mais um título.

Em Wanpaku, depois de quase dois anos sem competições por causa da pandemia, a tensão era palpável.

Enquanto as jovens praticavam com os pais e treinadores ao lado, alguns espetadores disseram à CNN que as raparigas parecem ter menos receio de estar frente a frente, dentro do ringue. Outros afirmam que se sentem preocupados com a participação das filhas na prática de sumo, porque os rapazes e os homens constituem uma maioria nos clubes.

Kajiwara, a atual campeã, diz que não sente qualquer receio dentro do ringue.

Depois de parecer que estava prestes a ser derrotada, a sua sorte mudou e conquistou o troféu de “Grande Campeã”, entre as jovens de 12 anos.

Para o ano, já não terá idade para competir em Wanpaku, mas tem em vista uma escola secundária fora da sua terra natal, na prefeitura de Hyogo, onde pode dar continuidade à prática deste desporto ancestral.

“Praticar sumo ensina-nos a não desistir e a ficarmos mais fortes”, disse Kajiwara.

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