Quando a gordura das pernas se destaca do resto do corpo. 10 respostas sobre lipedema

5 out, 12:00
Lipedema (Pexels)

Se já pensou porque é que as suas pernas têm muito mais gordura do que o resto do corpo, a resposta pode estar no lipedema. Esta doença afeta as mulheres, tem impacto na autoestima e acarreta outros problemas para a saúde. Fique a saber tudo

1- O que é?

“O lipedema é uma doença crónica que se caracteriza por um acúmulo de gordura desproporcional nos membros, predominante nos membros inferiores. Em cerca de 30% dos casos, pode também ou apenas atingir os braços”, começa por explicar Joana de Carvalho, médica especialista em Cirurgia Vascular.

“Apesar da doença estar descrita desde 1940, não é sabido o mecanismo [que leva à acumulação de gordura apenas nos membros], a etiologia não é ainda conhecida. Há muito pouca coisa com evidência científica, mas agora já se fazem mais estudos à volta do tema”, continua a médica, também autora do livro Pernas Lindas [editado pela Contraponto] e que aborda o tema.

2- Quais as causas?

Não há uma causa concreta, mas “sabe-se que tem uma forte relação genética, de mães para filhas”, diz Rui Leitão, especialista e Coordenador da Unidade de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva no Hospital Lusíadas Lisboa.

Sobre esta questão da componente hereditária, Joana de Carvalho diz que “é muito frequente as mulheres descreverem que são as ‘pernas da família’”, algo que, por vezes, complica o diagnóstico e o início do tratamento, pois há uma desvalorização da condição por ser ‘de família’.

Mas pode ainda haver outro fator em jogo. “Pensa-se que possa ter também componente hormonal”, continua o médico Rui Leitão, com destaque para a menarca (primeira menstruação), a gravidez e a menopausa. A toma de pílula pode também ser um fator.

3- Quais os estágios do lipedema?

Apesar de não haver uma definição padronizada acerca dos estágios desta doença, Joana de Carvalho diz que há quatro que ajudam na avaliação e no diagnóstico, sendo que à aparência das pernas deve ainda estar associado um outro sintoma, como dor ou hipersensibilidade do toque, por exemplo, como explica a médica no seu site.

Estágio I: o inchaço das pernas não é constante, pode diminuir em repouso; 

Estágio II: surge a aparência de ‘casca de laranja’, alguma dor e hematomas com mais frequência;

Estágio III: há mais dor e “grandes áreas de gordura que se sobrepõem”;

Estágio IV: a acumulação de gordura é mais intensa, há mais sintomas associados e pode estar-se perante uma “fibroesclerose, possivelmente com associação ao Linfedema”.

4- São os lipedemas todos iguais?

De acordo com o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, o lipedema faz com que as pernas fiquem pesadas e o seu tamanho (largura) sobressaia em relação ao resto do corpo, isto é, a cintura mantém-se fina e as pernas e tornozelos não, ao contrário do que acontece, por exemplo, numa situação de excesso de peso ou obesidade, em que a distribuição de gordura é mais uniforme pelo corpo todo. Por norma, o lipedema não afeta os pés e as mãos, mas os lipedemas não são todos iguais. 

Apesar de haver quatro estágios e de estes permitirem avaliar o grau de acumulação de gordura e a existência de outros sintomas associados, Joana de Carvalho destaca que há casos em que a doença é gradual e outros em que não o é. “Há quem diga que é progressiva na ausência de tratamento, isto é, se não se fizer nada a pessoa vai evoluir no estágio. Há quem defenda que pode não ser progessivo”, diz.

5- Como é feito o diagnóstico?

Em alguns casos, a aparência das pernas é suficiente para se perceber que se está perante um caso de lipedema, mas a médica Joana de Carvalho destaca que é importante que haja um outro sintoma associado, conseguindo-se, assim, descartar outras patologias e chegar ao diagnóstico certo.

“Não temos nenhum teste de diagnóstico para o lipedema, não há um exame que diga que é ou não lipedema. É através do historial, do que sente e do que vemos em termos de formato e textura da perna e pele. Mas com avaliação com ecodoppler dá dados para o diagnóstico”, afirma a médica especialista.

6- Além da acumulação de gordura, quais são as outras consequências?

Em alguns casos, sobretudo nos estados mais avançados, deformações nos joelhos, pés chatos e problemas nas articulações, o que pode condicionar a mobilidade, diz o organismo britânico. Segundo um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine, “os pacientes com lipedema sofrem não apenas de estigma visual, mas também de redução na qualidade de vida através da dor e perda de desempenho na vida diária”.

Mas o efeito colateral mais comum é o mal-estar emocional e psicológico que esta condição provoca. É comum estar associado a baixa autoestima, vergonha e depressão. 

7- Quando procurar ajuda médica?

Quando à acumulação de gordura está associada dor ou maior sensibilidade ao toque. “Não é apenas a acumulação de gordura que faz o diagnóstico. Para fazer o diagnóstico tem de estar presente algum sintoma de dor ou equivalente, ou hipersensibilidade ao toque, sentir que um determinado estímulo provoca uma dor que não é proporcional ao estímulo. Tenho doentes que dizem que se defendem quando brincam com os filhos por causa da dor ao toque. Pode ainda haver a sensação de peso, nódoas negras que nem sabem de onde apareceram, sensação de arrefecimento constante da perna. Há quem tenha vários sintomas”, esclarece Joana de Carvalho.

Recentemente, a celebridade britânica Shaughna Phillips, que participou no reality show Love Island (com transmissão em Portugal), falou abertamente do assunto, mostrando o seu caso.

8- Quem são os mais vulneráveis?

As mulheres. Esta é uma condição que afeta apenas o sexo feminino. “É raríssimo aparecer nos homens”, diz o médico Rui Leitão.

9- É o mesmo que linfedema?

Ao contrário do lipedema, o linfedema manifesta-se pela acumulação assimétrica de gordura nos membros, podendo afetar um e não outro, para além de que pode ter impacto nas mãos e nos pés, o que não acontece com o lipedema. Além disso, o linfedema dá-se devido à obstrução dos canais linfáticos.

10- Qual o tratamento?

Antes de mais, há que dizer que não há cura. “É uma doença difícil de tratar, mas fácil de diagnosticar”, adianta Rui Leitão. 

Joana de Carvalho destaca que o tratamento depende do estágio em que o lipedema se encontra, sendo que a mudança de hábitos é sempre dos primeiros caminhos e pode mesmo ajudar na prevenção. “Começamos sempre com uma abordagem conservadora, sem intervenção invasiva”, diz, frisando que a alteração dos hábitos alimentares é uma das recomendações, pois o lipedema “pode corresponder a uma resposta inflamatória de baixo grau crónica, o organismo desenvolve esta resposta de baixo grau a alguns agressores na dieta.” Deste modo, aconselha, "a dieta anti-inflamatória com ciclos de dieta cetogénica tem um impacto grande no controlo da inflamação”.

A médica destaca ainda que o exercício físico “é crucial”. “A pessoa tem excesso de gordura e diminuição da massa muscular”, por isso, importa “ativar o efeito de bomba muscular, o auxílio que os músculos das pernas vão dar à drenagem”. Os exercícios na água “são os que têm maior benefício pela pressão hidrostática”, reforça.

Em alguns casos, continua, a fisioterapia e a drenagem linfática podem também ser aliados. Apesar de não estarmos na presença “de um verdadeiro edema, as drenagens não vão fazer nada a essa gordura, mas vão impedir que haja progressão para fibroses e vai fazer uma ativação da circulação linfática”.

“Em fases iniciais, usa-se radiofrequência e microagulhamento para dissuasão de gordura”, diz ainda o médico Rui Leitão, embora deixe claro que “a tendência é que a doença volte, podemos ter de repetir os tratamentos” e, em alguns casos, ser necessário “usar compressão elástica”.

A lipoaspiração na zona afetada é uma das opções mais comuns a nível de tratamento, sobretudo nos casos mais avançados da doença. “O tratamento do lipedema é a cirurgia de redução, através de uma lipoaspiração específica, em que vamos acima de tudo vamos querer poupar a drenagem linfática. No método que uso, as cânulas injetam um jato de soro que vão permitir fragmentar as células de gordura, e torná-las mais fáceis de aspirar e preservar os vasos linfáticos”.

“Na maioria dos casos, [a cirurgia] é feita em mais do que uma cirurgia, para diminuir o tempo cirúrgico e a quantidade de gordura aspirada em cada, para diminuir os riscos”, sendo que deve haver um espaço de três meses entre cada procedimento. 

A cirurgia não é definitiva, mas os resultados são notórios a “longo prazo”, diz Joana de Carvalho. “Ao fim de 12 anos, as pacientes ainda têm benefícios da cirurgia, em termos de sintomatologia e satisfação do formato [das pernas], não necessitam das drenagens e pressão elástica”, conclui.

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