Glaciar do "Juízo Final" está "com problemas", alertam cientistas após descoberta alarmante debaixo da massa de gelo

CNN , Laura Paddison
16 fev 2023, 09:00
O Glaciar Thwaites na Antártida, também conhecido como o "Glaciar do Juízo Final". Créditos: NASA/OIB/Jeremy Harbeck

Dois novos estudos revelam que, embora o ritmo de derretimento debaixo de grande parte da plataforma de gelo seja mais lento do que se pensava, fendas profundas e formações de "escadas" no gelo estão a fazê-lo derreter muito mais rapidamente

O "Glaciar do Juízo Final" na Antártida - assim chamado porque o seu colapso poderá levar a uma subida catastrófica do nível do mar - está a derreter rapidamente de formas inesperadas, de acordo com uma nova investigação.

O Glaciar Thwaites é quase duas vezes maior do que Portugal e está localizado na Antártida Ocidental. Parte do que o mantém no seu lugar é uma plataforma de gelo que se estende até à superfície do oceano. A plataforma funciona como uma rolha de cortiça, retendo o glaciar em terra e proporcionando uma importante defesa contra a subida do nível do mar.

Mas a plataforma de gelo crucial é altamente vulnerável à medida que o oceano aquece.

Em dois estudos, publicados na revista Nature nesta quarta-feira, os cientistas revelaram que, embora o ritmo de derretimento debaixo de grande parte da plataforma de gelo seja mais lento do que se pensava, fendas profundas e formações de "escadas" no gelo estão a fazê-lo derreter muito mais rapidamente.

Fendas no Glaciar Thwaites em 2020. Créditos: Britney Schmidt/ITGC

À medida que as alterações climáticas aceleram, o Glaciar Thwaites está a mudar rapidamente.

Todos os anos lança milhares de milhões de toneladas de gelo no oceano, contribuindo com cerca de 4% para a subida anual do nível do mar. O derretimento particularmente rápido acontece no ponto em que o glaciar encontra o fundo do mar, que recuou quase 14 quilómetros desde finais dos anos 90, expondo um pedaço maior de gelo à água relativamente quente do oceano.

O colapso completo do próprio Thwaites poderia levar a uma subida do nível do mar de mais de 70 centímetros, o que seria suficiente para devastar as comunidades costeiras em todo o mundo. Mas o Thwaites também está a agir como uma barragem natural para o gelo circundante da Antártida Ocidental, pelo que os cientistas estimam que o nível global do mar poderá subir cerca de 3 metros se o Thwaites colapsar.

Embora possa levar centenas ou milhares de anos, a plataforma de gelo poderá desintegrar-se muito mais cedo, provocando um recuo do glaciar que é instável e potencialmente irreversível.

Para melhor compreender a modificação do litoral remoto, uma equipa de cientistas norte-americanos e britânicos da International Thwaites Glacier Collaboration viajou para o glaciar em finais de 2019.

Utilizando uma broca de água quente, perfuraram um buraco de quase 600 metros de profundidade no gelo e, durante um período de cinco dias, enviaram para baixo vários instrumentos para fazer medições no glaciar.

O local de perfuração do Glaciar Thwaites. Créditos: Peter Davis/British Antarctic Survey/ITGC

Os instrumentos incluíam um robô semelhante a um torpedo chamado "Icefin", que lhes permitia acesso a áreas anteriormente quase impossíveis de serem observadas. O veículo operado remotamente tirou imagens e registou informações sobre a temperatura e salinidade da água, bem como sobre as correntes oceânicas.

Foi capaz de "nadar até àqueles lugares realmente dinâmicos e recolher dados desde o fundo do mar até ao gelo", disse à CNN Britney Schmidt, professora associada na Universidade de Cornell, em Nova Iorque, autora principal de um dos artigos.

Os resultados da investigação revelam "uma imagem muito matizada e complexa", indicou à CNN Peter Davis, oceanógrafo do British Antarctic Survey e autor principal do outro trabalho.

Os cientistas descobriram que, embora o glaciar esteja a recuar, a taxa de derretimento sob grande parte da parte plana da plataforma de gelo era mais baixa do que o esperado. A taxa de derretimento foi em média de 2 a 5,4 metros por ano, segundo o estudo, menos do que os modelos anteriores tinham projetado.

O derretimento está a ser suprimido por uma camada de água mais fria e fresca na base do glaciar, entre a plataforma de gelo e o oceano, de acordo com a investigação.

"O glaciar ainda está com problemas", alertou Davis, em comunicado. "O que descobrimos é que, apesar de pequenas quantidades de derretimento, ainda há um rápido recuo do glaciar, por isso não parece ser preciso muito para desequilibrar o glaciar."

O robô Icefin debaixo do gelo marinho perto da Estação McMurdo. Créditos: Rob Robbins/ITGC

 

O robô Icefin depois de ter sido retirado da água. Créditos: Britney Schmidt/Justin D. Lawrence/ITGC

Os cientistas também foram surpreendidos por uma segunda descoberta. Descobriram uma paisagem glaciar subaquática muito mais complexa do que o esperado, dominada por estranhas formações em escada e fendas - grandes fendas que atravessam toda a plataforma de gelo.

O derretimento foi particularmente rápido nestas áreas, descobriu a equipa de investigadores. A água quente e salgada foi capaz de afunilar e alargar fendas, contribuindo para instabilidades no glaciar.

"O glaciar não está apenas a derreter por dentro, está também a derreter para fora", observou Schmidt.

O derretimento ao longo do gelo inclinado das fendas "pode tornar-se o principal desencadeador do colapso da plataforma de gelo", de acordo com os autores dos estudos.

Os resultados acrescentam um novo nível de informação a uma série de estudos alarmantes que apontam para o rápido derretimento do glaciar.

Um estudo de 2021 descobriu que a plataforma de gelo poderá quebrar-se nos próximos cinco anos, e, no ano passado, os cientistas disseram que o Glaciar Thwaites estava preso "por um fio" enquanto o planeta aquece, com potencial para um rápido recuo nos próximos anos.

"Sabíamos que estes glaciares estavam a mudar. Sabíamos que estava relacionado com a temperatura dos oceanos. Sabíamos que estava a derreter. Sabíamos que a atmosfera estava a aquecer. E sabíamos que os glaciares estavam a desfazer-se", apontou Schmidt.

O que a pesquisa mais recente faz é fornecer "as peças que faltam" para descobrir exatamente como é que esta mudança está a acontecer, sublinhou ainda.

Acampamento "Icefin" no Glaciar de Thwaites em 2020. Créditos: Daniel Dichek/ITGC

 

Implantação do "Icefin" no Glaciar de Thwaites em janeiro de 2020. Créditos: Daniel Dichek/ITGC

David Rounce, um glaciólogo da Carnegie Mellon University, na Pensilvânia, que não esteve envolvido no estudo, afirmou à CNN que a nova investigação oferece "novos conhecimentos sobre a rapidez com que o fundo da plataforma de gelo está a derreter e os mecanismos pelos quais está a derreter, que são muito importantes para melhorar a nossa compreensão e capacidade de modelar como o Thwaites irá mudar no futuro".

A investigação, observou ainda Davis, pode ajudar a fazer projeções mais precisas sobre a subida do nível do mar, que podem ser introduzidas nos esforços para mitigar as alterações climáticas e proteger as comunidades costeiras. De uma perspectiva mais pessoal, disse esperar que isto leve as pessoas "a sentarem-se e a tomarem consciência das mudanças que estão a ocorrer".

"Apesar de ser tão remota, as consequências do que acontece ao Thwaites vão ter impacto em todos", garantiu Davis.

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