Um glaciar a derreter mudou a fronteira entre Suíça e Itália - e deixou um hotel no centro da disputa

27 jul, 14:10
O Rifugio Guide del Cervino (Foto: Fabrice Coffrini/AFP via Getty Images)

O Rifugio Guide del Cervino foi construído há 38 anos em Itália, mas hoje está em solo considerado suíço. Já houve negociações diplomáticas entre os dois países, mas o acordo só será divulgado em 2023

O recuo do glaciar Theodul alterou a fronteira entre a Suíça e a Itália e deixou dois terços de um refúgio de montanha, construído em 1984 em território italiano, em solo agora considerado suíço.

Segundo o The Guardian, a fronteira entre os dois países traça-se ao longo de uma divisória de águas - a linha que separa bacias hidrográficas - pelo que a água que derrete do glaciar correrá para um dos lados da montanha, o suíço ou o italiano. 

Porém, este marco, devido ao gelo a derreter, deslocou-se na direção do Rifugio Guide del Cervino, um pequeno hotel de montanha que fica próximo do pico de Testa Grigia - entre o Vale de Aosta italiano e o cantão suíço de Valais - nos Alpes Peninos. A uma altitude de 3.480 metros, o abrigo para turistas e esquiadores tem vista para o Plateau Rosa, uma massa de gelo muito apreciada para esquiar nos meses de verão. 

Em novembro de 2021, em Florença, suíços e italianos chegaram a um acordo a propósito desta alteração da configuração da fronteira: as negociações diplomáticas começaram em 2018, uma altura em que o problema já se colocava, mas o resultado deste compromisso só será conhecido em 2023, depois de ter o selo de aprovação do governo suíço. 

"Concordámos em dividir a diferença", disse ao Guardian Alain Wicht, o responsável pelo departamento de fronteiras da agência de cartografia da Suíça, a Swisstopo. O seu homólogo italiano recusou fazer comentários, dada a "complexidade da situação internacional". 

Wicht, por seu lado, explicou que estes ajustes são frequentes e normalmente resolvidos sem necessidade de intervenção política. "Estamos a discutir por território que não tem grande valor", admitiu. Esta situação foi diferente porque, subitamente, "havia um edifício envolvido". 

Nos locais onde a fronteira entre Suíça e Itália atravessa os glaciares dos Alpes, a linha que separa os dois países segue a da divisória de águas. Mas o glaciar Theodul perdeu quase um quarto da sua massa de gelo entre 1973 e 2010, obrigando agora a redefinir cerca de 100 metros de fronteira. 

Negociação impede renovação do abrigo

A longa negociação, por outro lado, tem impedido a renovação do refúgio de montanha, já que nenhuma das localidades dos dois lados da fronteira foi autorizada a licenciar os trabalhos. O atraso impedirá que as obras estejam feitas quando for inaugurado um novo teleférico do lado italiano do  Klein Matterhorn  - pico nos Alpes Peninos que chega aos 3.883 metros de altitude, a poucos quilómetros do célebre Matterhorn (ou Cervino, em italiano) que chega aos 4.478 metros.

Jean-Philippe Amstein, antigo responsável da Swisstopo, disse ao Guardian que este tipo de disputa é normalmente resolvido com a troca de parcelas de território equivalentes em área e valor. Mas, neste caso, "a Suíça não está interessada em obter um pedaço de glaciar", admitiu, e os italianos, acrescentou Amstein, "não conseguem compensar a Suíça pela perda de área". 

Já o responsável do pequeno hotel de montanha que serve de abrigo a turistas e esquiadores, Lucio Trucco, garante que foi informado - ainda que as negociações tenham sido secretas - que o refúgio permanecerá em território italiano.

"O refúgio contiuará italiano porque nós sempre fomos italianos", disse. "O menu é italiano, o vinho é italiano e os impostos são italianos", frisou.

Com o aquecimento global, muitas estâncias de esqui nos Alpes estão a preparar-se para o fim da época turística, uma vez que o gelo irá derreter com as temperaturas cada vez mais altas. Mas o facto de o Rifugio Guide del Cervino ficar a 3.480 metros de altitude, permitindo até esquiar no verão, significa que será das últimas estâncias a desaparecer por falta de gelo. "É por isso que temos de melhorar a área, porque será certamente o último a morrer", assegura Trucco. 

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