O que Johnny Depp e Amber Heard nos ensinam sobre relações tóxicas e abusivas

9 mai, 22:32

Problemas conjugais que levaram os dois atores a assinar o divórcio em 2017 estão a ser transmitidos para todo o mundo a partir do tribunal de Fairfax, na Virgínia. As acusações de violência são graves e de parte a parte

O julgamento do processo de difamação em que Johnny Depp acusa a ex-mulher, Amber Heard, de denegrir a sua imagem ao ponto de não ter trabalho desde a denúncia de violência doméstica, tem sido marcado por acusações graves e descritivas de situações violentas de parte a parte, que, no entanto, não serão exclusivas deste casal mediático. A CNN Portugal falou com duas psicólogas para perceber o que este caso nos pode ensinar sobre relações abusivas e tóxicas.

Perante o olhar atento de milhões de telespectadores que assistem ao julgamento à distância, tanto Amber Heard como Johnny Depp recordam um início de relação muito diferente da imagem que passam agora em tribunal: Depp diz que a atriz “parecia a companheira perfeita” que tinha idealizado, descrevendo-a como “querida, engraçada e simpática”, enquanto Amber Heard lembra ter sentido uma “química” quando conheceu o ator de Piratas das Caraíbas.

As descrições vão ao encontro do que a psicóloga Ana Faustino classifica como “período lua de mel”, a primeira fase de uma relação tóxica que está associada à sedução do(a) agressor(a) à vítima, tentando “elogiá-la o máximo possível, dizendo que é uma pessoa muito especial e que nunca conheceu ninguém assim”. 

“Nesta fase de sedução, [o(a) agressor(a)] vai-se tornar naquilo que acredita que a vítima está à espera que ele seja. Ele vai dar sempre um ar de que é uma pessoa muito honesta e muito boa, e que todos os azares que foi tendo ao longo da vida não têm a ver com as suas características, mas com o mundo, e, portanto, todos os outros é que estão errados”, explica.

A psicóloga acrescenta ainda que nestes casos “costuma surgir um ‘amo-te’ muito rápido”, ou seja, a relação parece desenvolver-se a um ritmo muito acelerado, “o que vai fazer com que a vítima se vá sentido muito comprometida e obrigada a corresponder”. No caso de Johnny Depp e Amber Heard, a relação começou quando ambos estavam ainda comprometidos com Vanessa Paradis e Tasya van Ree, respetivamente.

Depois de uma primeira fase mais "colorida", surge uma segunda de culpabilização e desvalorização da própria vítima, em que o(a) agressor(a) vai denegrindo as suas conquistas (por exemplo, uma promoção no trabalho) para que ela possa ficar “cada vez mais dependente dele”. Amber Heard contou em tribunal que sempre que conseguia um papel num filme, Depp questionava-a logo sobre as roupas que iria usar no filme e “se havia uma cena de sexo”. “Eu tinha de andar em bicos de pés ao pé dele cada vez que tinha cenas dessas”, conta.

As declarações de Amber Heard foram corroboradas pela primeira testemunha da sua defesa, Dawn Hughes, especialista em violência interpessoal, que descreveu Depp como "obcecado com infidelidade", ao ponto de chegar mesmo a telefonar para atores ou realizadores com quem Amber Heard trabalhava para os ameaçar. Quando a atriz recebia guiões, prosseguia Hughes, Depp lia-os, procurava cenas românticas e acusava constantemente a ex-mulher de o trair, sendo "obcecadamente ciumento" em relação a James Franco, com quem Heard contracenou.

Mas, de acordo com um depoimento pré-gravado da enfermeira de Amber Heard, Erin Falati, a atriz também tinha problemas de ciúmes e sofria de dependência emocional nas relações, incluindo com Johnny Depp. “Lembro-me de uma sensação geral de desavenças no relacionamento. Discussões, reconciliações e esse tipo de padrão repetitivo”, afirmou Falati.

Estas declarações parecem ir ao encontro do que a psicóloga Ana Faustino classifica como “um iô-iô emocional” nas relações abusivas. “Há uma oscilação de humor constante, ou seja, se por um lado existem todas estas acusações, por outro lado isto oscila para as fases de lua de mel, do ‘eu amo-te e não consigo viver sem ti’, etc. E acabam por embarcar de novo nesta viagem e voltar a repetir os comportamentos”, explica.

A influência dos abusos na infância

Ambos os atores contaram em tribunal que foram vítimas de abusos durante a infância - Johnny Depp pelas mãos da mãe e Amber Heard pelo pai, de acordo com os seus testemunhos. O ator afirmou que a ex-mulher “tem uma necessidade de violência que surge do nada” e que os conflitos muitas vezes começavam por discussões verbais e escalavam para atos de violência. "A única coisa que aprendi a fazer foi precisamente aquilo que fazia quando era criança - retraía-me”, afirmou, lembrando a violência que sofria por parte da mãe.

No seu depoimento, a especialista Dawn Hughes, que disse ter feito uma "avaliação objetiva" de Heard de mais de 21 horas, consultando registos médicos, notas de tratamentos psicológicos, entre outros métodos, também salientou o impacto dos abusos que a atriz sofreu do pai, que tinha “explosões violentas”, na forma como olha para as relações amorosas, ensinando-a “a amar alguém que a magoa”.

Em declarações à CNN Portugal, a psicóloga Ana Faustino explica que “as vivências primárias da vítima” podem, de facto, influenciar a forma como perceciona depois os relacionamentos conjugais.

“Vamos supor que a vítima vem de uma relação maternal, por exemplo, onde a mãe não é muito presente. Quando a mãe não é emocionalmente disponível, por muito que as crianças façam, a mãe nunca estará disponível, e às vezes isto é encarado no futuro como sendo uma definição de amor. A definição de amor é eu dar, mesmo que o outro não retribua. Encarando o amor como isto, estou sempre à espera de receber muito pouco”, afirma.

A psicóloga Rute Agulha, por sua vez, salienta que “não há uma relação de causa-efeito, mas sim um risco acrescido” de as crianças que cresçam num ambiente familiar violento possam vir a ser agressores ou vítimas de violência doméstica ou outro tipo de violência no âmbito conjugal.

“Não há uma relação de causa-efeito. Temos muitas pessoas que foram vítimas na infância e na adolescência e não são agressores nem vítimas na fase adulta, tal como temos pessoas que são vítimas na fase adulta e, olhando para trás, não têm esse histórico”, argumenta.

A psicóloga clínica e forense reconhece, contudo, que “há uma correlação”, ou seja, “há um risco acrescido” nesse sentido, porque “quando uma criança ou um jovem cresce neste contexto de violência, por um lado também está a aprender e a interiorizar a ideia de que a violência é uma forma legítima de resolver problemas”.

Porque é tão difícil encontrar uma saída das relações abusivas?

Ao mesmo tempo que Johnny Depp e Amber Heard recordam um início de relação romântica, ambos também falam de situações de violência logo na fase inicial, muito antes do casamento, em 2015. No seu depoimento, o ator disse que decidiu manter o casamento porque não queria desistir dele, tal como o pai se tinha mantido com a mãe apesar dos episódios de violência doméstica.

Segundo as psicólogas ouvidas pela CNN Portugal, é muito difícil para as vítimas de relações tóxicas e abusivas conseguirem colocar um ponto final na relação, precisamente pela “falsa esperança” de que as coisas possam vir a mudar.

“A própria vítima vai perdendo a sua identidade e vai-se transformando numa coisa que ela supostamente não seria, ou seja, vai-se transformando naquilo que a outra pessoa a está a transformar”, explica a psicóloga Ana Faustino, salientando que, muitas vezes, a vítima acabou por ficar tão isolada dos amigos e da família ao longo da relação que não tem possibilidade de falar com outras pessoas, ficando numa “prisão”. “É uma prisão onde o carcereiro é o seu salvador ao mesmo tempo”, frisa.

A psicóloga Rute Agulhas diz que a vítima costuma apoiar-se em “crenças que legitimam a violência como forma de resolver os problemas e desculpabilizar o/a agressor(a)”. “Muitas vezes minimizam alguns comportamentos - uma estalada não é bem violência, foi só um empurrão; só apertou o pescoço, mas não estrangulou. Estas crenças que legitimam a violência nas relações conjugais são também fatores de risco que perpetuam não só a própria violência por quem a comete, mas também pela vítima, porque não sinaliza a situação.”

Além disso, acrescenta, também existe outra variável que inibe as vítimas de denunciarem as situações - a culpa que a própria vítima sente e para a qual “muitas vezes o(a) agressor(a) contribui”. “Culpa porque não chegou a horas, culpa porque não atendeu logo o telefone nem respondeu à mensagem, culpa porque vestiu uma saia mais curta, culpa porque olhou para o lado e estava um homem ou uma mulher na mesa do lado - portanto, os comportamentos violentos acabam por ser justificados com o comportamento da vítima, que interioriza esta culpa. Naturalmente, é muito mais difícil sinalizar e pedir ajuda quando nos sentimos culpados.”

A chamada de atenção para a violência conjugal e a questão de género

As psicólogas reconhecem que ainda há muito "estigma" e "preconceito" quando a vítima de violência conjugal é do sexo masculino. "Ainda há um conjunto de estereótipos relativamente ao homem, porque ainda há aquela ideia de que o homem não chora, que tem de ser forte. Muitas vezes os homens são dissuadidos de prosseguir com um procedimento criminal quando finalmente conseguem quebrar o silêncio", conta a psicóloga Rute Agulhas, salientando que as mulheres também são dissuadidas "mas os homens são mais", precisamente pelo estigma de que são alvo.

"A principal emoção que inibe a denúncia nos homens é a vergonha, enquanto nas mulheres parece ser mais o medo - medo das consequências e das possíveis represálias", acrescenta.

Ainda assim, a psicóloga diz que cada vez mais recebe "feedback muito positivo" por parte dos homens que decidem avançar com uma denúncia, mesmo que, quando cheguem ao posto da polícia, se defrontem com cartazes escritos para as vítimas do sexo feminino. "Mas também continuamos a ter o verso da medalha", lamenta.

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