opinião
Jornalista,editor de Sociedade

Quem escolheu o buraco onde Rendeiro se meteu?

15 mai, 18:09

A desonestidade intelectual que infeta as “redes” em geral e um ou outro espaço de comentário em particular obriga, por vezes, a recordar o óbvio: João Rendeiro, burlão que todas as instâncias judiciais atestam ter falseado informação bancária e metido milhões ao bolso, enganou, por último, a justiça e fugiu do país para não cumprir pena. Não sem antes desviar obras de arte e património para escapar aos credores. Escolheu a África do Sul dos ricos pelo sol, bons hotéis e negócios. E não olhou, por soberba, à África do Sul dos pobres, com um sistema prisional de terríveis condições, para o caso de ser apanhado. Quando lhe bastava ter ido ao YouTube. Foi capturado, podia ter regressado a Portugal logo nos dias seguintes, mas decidiu opor-se e resistir. Não aguentou a prisão sul-africana e acabou por morrer. Posto isto, que são factos, de quem foi a culpa toda senão dele?
 
Qualquer morte é uma tragédia. E num Estado de Direito ninguém merece ter a sua dignidade ou integridade física postas em risco. Mas não pode ser considerado “desumano” dizer-se a verdade pura e dura – que foi Rendeiro a escolher o seu destino. As prisões sul-africanas, mal ou bem (péssimas), em óbvia violação dos direitos humanos, já lá estavam há décadas. Que culpa têm agora a Polícia Judiciária, a Procuradoria-geral da República ou o Estado português de um fugitivo se ter ido meter naquele buraco?
 
Alguém o empurrou para ali, ou estava sujeito às mesmas regras e condições do comum dos reclusos na África do Sul? O que tinha de especial Rendeiro, a mais do que centenas de outros presos nas mesma condições, muitos com a idade dele, para ser transferido ou mandado para um hotel com uma pulseira e uma caução? Era por ser ex-banqueiro? Por ser português?
 
Fui o maior crítico da nossa justiça porque o deixou fugir; não posso ser crítico porque o apanharam. A Polícia Judiciária resolveu um embaraço dos tribunais e, em articulação com a polícia sul-africana, ajudou a localizar um condenado em fuga. A partir daí, Rendeiro estava sujeito às regras locais. Mais: se o tribunal sul-africano não o extraditou logo, como pedia a PGR, e estaria agora vivo e de saúde na Carregueira, foi para ceder às garantias de defesa, a cargo de uma advogada que, enquanto teve a torneira do dinheiro de Rendeiro aberta, todos os expedientes inventou para retardar o processo. A bem do negócio. Por fim, largou-o à sua sorte quando se fechou a torneira e eu, desumano, pergunto mais uma vez: de quem foi a culpa? 

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