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Querer que a Ucrânia ganhe a guerra sem que a Federação Russa a perca é, sem dúvida, um verdadeiro paradoxo

20 mai, 15:43
Vladimir Putin (Associated Press)

Com esta avalanche de manipulações, até parece que foi a Ucrânia que atacou a Federação Russa e que a culpa foi da NATO. Cuidemo-nos

 À memória vêm-nos desde logo os famigerados acordos de Munique de 1938, de Neville Chamberlain, Édouard Daladier e Benito Mussolini, tentando encontrar uma solução para apaziguar a voragem de Adolf Hitler, na antecâmara da Segunda Guerra Mundial. O resultado foi o infeliz desastre que todos nós conhecemos.

É verdade que a História não se repete, mas muitas vezes rima, como terá escrito Mark Twain – por isso aprendamos a não repetir os erros do passado. É no mínimo isso que devemos exigir aos nossos dirigentes políticos. Por favor, não cometam os erros do passado!

Esta guerra real e de cada vez mais alta intensidade que geograficamente parece estar contida dentro das fronteiras da Ucrânia, em boa verdade já não o está. As ações próprias de uma guerra híbrida preparatória de algo mais perigoso e sério fazem-se sentir quase quotidianamente no nosso espaço europeu. Os ciberataques são diários, as ações de vigilância e sabotagem levadas a cabo por agentes infiltrados por Moscovo passaram a ser mera rotina, parece mesmo que voltamos à Guerra Fria. As ações de propaganda visando conquistar as mentes e as almas dos nossos concidadãos, explorando a nossa completa liberdade de imprensa e a de todos os meios de comunicação de massa, incluindo as novíssimas redes sociais de hoje em dia, têm tentado fazer de nós os culpados de todos os males do Mundo. O plantar de colaboracionistas no nosso espaço tem vindo a agravar tudo.

Com esta avalanche de manipulações, até parece que foi a Ucrânia que atacou a Federação Russa e que a culpa foi da NATO que se aproximou perigosamente das suas fronteiras, como se a decisão de aderir à Aliança não fosse uma legítima decisão soberana de cada Estado que a esta organização escolheu pertencer. Cuidemo-nos, é tempo de nos protegermos, caso contrário podemos ter de combater um inimigo híbrido, indefinido e plantado no seio das nossas próprias populações. E essa é a pior guerra de se combater.

Como muito bem asseverou Grant Shapps, o atual ministro da Defesa do Reino Unido, ao referir-se à nova ofensiva em direção a Kharkiv, “os acontecimentos da semana passada deveriam ter sido um alerta para o Ocidente. Palavras calorosas não são suficientes. Cada nação que valoriza a sua liberdade deve fazer tudo o que puder o mais rapidamente possível para garantir que as forças armadas da Ucrânia sejam capazes de repelir esta invasão ilegal”. Claro que Shapps está carregado de razão. Chegou o tempo de acabar de vez com “caveats” sem sentido – em bom português “limitações de emprego” das armas que fornecemos à Ucrânia. Afinal temos medo de quê? Das ameaças nucleares de Medvedev, de Putin ou de um qualquer outro siloviki a quem o Presidente russo encomende ameaças veladas? Que saibamos a lógica da Destruição Mútua Assegurada (o famoso MAD) continua a funcionar da mesma forma eficiente em que funcionou durante a Guerra Fria. E que se saiba, para os lados de Moscovo as tendências de um suicídio não estão em crescendo. Estejamos por isso tranquilos.  

Uma guerra não se ganha combatendo apenas na frente de batalha, ganha-se destruindo a capacidade do adversário de regenerar o potencial de combate, atacando o seu complexo militar-industrial, as suas vias de comunicação logísticas, as suas concentrações de tropas e o seu sector produtivo. Redunda num verdadeiro paradoxo o querer que a Ucrânia ganhe uma guerra impedindo-a de utilizar as poucas armas de longo alcance que lhe são fornecidas sobre objetivos militares legítimos, na profundidade da Federação Russa. Em linguagem militar, na Zona de Comunicações e na Zona do Interior do Teatro de Operações do Inimigo. Isto é pedir demasiado aos militares e ao povo ucraniano, que já decidiu de que lado quer estar no futuro. Temos por isso a obrigação de não os desiludir mais uma vez, de os apoiar e acabar de vez com estas limitações de emprego desprovidas de sentido e reveladoras de falta de coragem, para não proferir a palavra adequada: cobardia. Vivemos hoje um momento crucial e extraordinariamente difícil – por isso respeitemos quem sofre diariamente os horrores de uma guerra sem sentido e de um povo que tem sido vítima constante de horroríficos crimes de guerra.

A ineficiência do sistema russo tornou-se óbvia, a asfixiante falta de inovação parece ter acordado Putin para a realidade. O novo Stalin renascido tem para si que a Rússia não conseguirá vencer sem alavancar devidamente a sua economia de guerra. E, por isso mesmo, está a fazê-lo, convencido de que, assim, vencerá.

Adolf Hitler teve exatamente a mesma certeza por alturas de 1943 quando se viu perante o mesmo problema com que hoje a Federação Russa se está a confrontar. Antes, a produção militar era tudo menos racional, existiam incontáveis programas concorrentes muito exigentes e dispendiosos que pareciam não ter utilidade visível. A sensação era de que muitos recursos estavam a ser desaproveitados. Hitler, como é sabido, na fase crucial da sua aventura expansionista resolveu nomear Albert Speer, “o seu muito leal amigo”, para dirigir o seu complexo militar-industrial, como seu ministro do Armamento e de Produção de Guerra. Hoje Vladimir Putin, muito à semelhança daquele que parece ser o seu verdadeiro mentor (muito embora acuse todos os outros de práticas nazis), resolveu nomear Andrei Removich Belusov como ministro da Defesa. 

As motivações de um e de outro parecem ser tiradas a papel químico. Muito embora Belusov não tenha um verdadeiro, prévio e consolidado conhecimento das questões da defesa e dos assuntos militares, é leal e tem a vontade e a capacidade de pôr a funcionar em pleno os projetos ligados ao complexo militar-industrial, exatamente como Speer fez. A ausência de uma experiência militar propriamente dita não o impediu de colocar em marcha uma reorganização surpreendentemente eficaz, alavancando o esforço militar-industrial alemão a níveis nunca antes almejados. Resultou, a verdade seja dita: foi realmente apenas em meados de 1944, apesar dos ataques aéreos maciços, que a indústria alemã atingiu o topo da produção militar industrial, crescendo mais de 50% justamente dez meses antes do final da guerra – sob a égide de Speer.

Belusov parece ser o estereótipo do homem que poderá conseguir idêntico feito. Trata-se de um tecnocrata proveniente da elite da Era Soviética, que piamente acredita que o sistema russo pode ser muito melhorado se dirigido pelo Estado, desde que o esforço de produção seja por ele controlado, centralmente planeado e desburocratizado, e com todas as empresas privadas a fazer o que lhes ordenam e utilizando eficazmente os lucros para assim impulsionar a respetiva eficiência. Assim como Speer, que fora um arquiteto, o seu Doppelganger é um doutor em Economia, de reconhecida competência, que não irrita o novo Führer pois, geralmente, é muito leal. Belusov vai certamente impulsionar a capacidade do complexo militar-industrial russo. 

Até que ponto? Esta é a grande questão que se põe e que a todos os dirigentes políticos do Ocidente deve preocupar; como diria Lénine, “o que fazer?”. Tenho para mim que o mais importante será saber bem jogar na antecipação e procurar fazer mais, melhor e nisso haver um empenhamento tão rápido que permita que a Ucrânia consiga estar sempre, pelo menos, um passo à frente. 

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