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Diretora da Versa

A Índia tem medo de mim

21 set, 13:05

O mundo vai mal quando a Índia - Esse Gigante - tem medo de mim. (De mim?!) Hoje deveria estar em Nova Delhi, depois Agra, Jaipur, o famoso e turístico Triângulo Dourado. Mas estou em Lisboa.

Semanas depois do pedido, com e-mails trocados a questionar todos os meus passos e contactos, a menos de 24h da partida para férias, o meu visto de turista foi recusado. Porque fui honesta. Porque referi que fazia parte desse grupo incómodo para o país - a comunicação social. Portanto, no pedido de visto para a Índia usem como profissão “housewive”, dizem que funciona!

Inédito. Entre todas e entre as tantas voltas que já dei ao mundo. Perdi as férias. O investimento. E o meu sonho indiano, feito das cores do “Moonson Wedding”, das quatro horas de “Lagaan”, do ilimitado “The Darjeeling Limited”.

A “Incredible India”, vendida em milionárias campanhas de marketing, já pede um rebranding para algo como “Questionable India”.

É verdade que a Índia não me quis receber. E na verdade deixei de a querer visitar.

Amor com amor se paga. E estes lugares comuns fazem sentido, quando usados no lugar certo.

Mas a Índia tem medo de quê?

Segundo o Ranking da Brand Finance 2022, a Índia é a sétima Marca Nação mais valiosa do mundo (2,4 biliões de euros), com um crescimento de 19% face a 2021. O seu PIB é dos que mais cresce entre as grandes economias, dado o aumento do consumo interno e do investimento estrangeiro, após a COVID-19. Se está no Top10, tem medo de que?

Como não fui, ou melhor, como o Governo Indiano não me deixou ir, escrevo apenas sobre o que leio. Para quem se diz “The Mother of Democracy”, no recente G20 a Índia mostrou a sua crescente influência económica e geopolítica, mas também ingenuamente (ou genuinamente) o governo nacionalista hindu deixou escapar a sua abordagem à liberdade de imprensa. À falta dela. Centenas de jornalistas que viajaram para cobrir a Cimeira foram mantidos afastados dos líderes, e nem um autorizado a estar presente no encontro entre o presidente Biden e o primeiro ministro indiano Narendra Modi. E os argumentos não convencem.

O meu visto é só irrelevante quando os dados são claros e expostos pelo Reporters Without Borders. “A violência contra jornalistas, os meios de comunicação social politicamente partidários e a concentração da propriedade dos meios de comunicação social revelam que a liberdade de imprensa está em crise na “maior democracia do mundo”. Com uma média de três a quatro jornalistas mortos todos os anos no âmbito do seu trabalho, a Índia é um dos países mais perigosos do mundo para os meios de comunicação social”.

Afinal, quem tem medo da Índia sou eu!

Ainda que os rankings mostrem a força económica de um país, é destes traços identitários que se constrói e mantém a reputação de uma Marca Nação. E a Liberdade(s) é provavelmente uma das mais importantes national equities. Com ela - a Liberdade, vem uma visão de futuro. E talvez seja esse o medo da Índia. Que a nossa percepção nos faça perceber que lhe falta um modelo de Futuro. E esse, mais do que no crescimento económico e dos avanços tecnológicos, está nas fundações da Marca Índia.

O resto, estamos fartos de saber. Há pobreza, desigualdades e graves problemas sociais, insegurança… não há nada de novo aqui, nem nas ruas, que me pudesse surpreender. Ainda assim, não me deixam entrar.

Mas tenho pena que só agora, que já não tenciono visitar a Índia, tenha descoberto que como “housewive” o meu visto teria, provavelmente, chegado no dia seguinte.

É o futuro … ou a falta dele.

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