Daniel Sampaio desmente a Igreja: “Não é verdade que é só uma lista de nomes”

Agência Lusa , MJC
6 mar, 14:43
Daniel Sampaio esteve às portas da morte devido à Covid-19

Igreja diz que não vai afastar padres no ativo suspeitos de abusarem sexualmente de crianças porque, diz, só tem nomes e mais nada. Igreja pediu às vítimas para darem a cara publicamente. Daniel Sampaio, membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, reage

O psiquiatra Daniel Sampaio negou esta segunda-feira que a Igreja tenha recebido uma lista com os nomes dos padres abusadores sem ter mais informações sobre os casos denunciados, descrevendo a postura dos bispos como um “atrasar do problema”.

“Não é verdade que é só uma lista de nomes”, afirmou o membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, esclarecendo: “A lista foi obtida a partir das denúncias de vítimas – em que a vítima X diz que foi abusada pelo padre Y – e da investigação resultante do Grupo de Investigação Histórica junto dos arquivos. E a lista que foi entregue resulta da junção destas duas”.

Em declarações à Lusa, Daniel Sampaio enfatizou que houve um trabalho realizado ao longo ao último ano em todas as dioceses com os bispos e que “cada nome é do conhecimento das dioceses”.

“Quando o cardeal-patriarca diz que a Igreja não tem dados não é verdade”, afirmou o psiquiatra.

No domingo, o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, declarou que a Igreja poderia atuar se tivesse factos para juntar aos nomes que constam da lista apresentada. “Aquilo que nos foi entregue pela Comissão Independente foi uma lista de nomes. Se essa lista de nomes for preenchida por factos, tanto nós como as autoridades civis podemos atuar”, disse Manuel Clemente.

Apesar de notar que a Comissão Independente não era uma comissão de investigação, Daniel Sampaio lamentou a reação de sexta-feira da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ao relatório divulgado em fevereiro pela Comissão Independente, na qual os bispos recusaram comprometer-se com o afastamento imediato dos padres identificados como abusadores.

“Fiquei dececionado, mas não inquieto, porque o relatório teve um enorme impacto. Temos de distinguir os bispos da Igreja em si. Há muitos movimentos católicos a manifestarem-se e a situação não vai parar. Criou-se uma dinâmica de discussão, este é só um atrasar do problema”, disse.

Questionado ainda sobre a recusa de uma suspensão preventiva dos padres denunciados pelas vítimas que deram o seu testemunho sobre os abusos sexuais sofridos, num trabalho que abrangeu a realidade portuguesa desde 1950, o psiquiatra justificou que a suspensão não é sinónimo de condenação, mas pode ser essencial do ponto de vista clínico.

“A suspensão não é uma condenação. É importante suspender porque, do ponto de vista psiquiátrico, há grandes probabilidades de estas pessoas repetirem o comportamento. A suspensão é preventiva para averiguação e se não se averiguar nada, retoma”, observou, concluindo: “Não me parece legítimo que uma pessoa que esteja sob suspeita possa continuar a exercer o seu ministério”.

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