Uma história de goleadas e um escândalo: «Passámos a noite a festejar num bar. Aliás, em vários bares»

23 mar 2023, 09:48
Liechtenstein-Portugal em 2004 (Foto AP Photo/Keystone, Eddy Risch)

História de um jogo olha para o Portugal-Liechtenstein, com a ajuda de um dos poucos jogadores do principado que pode dizer que marcou um golo à seleção nacional

Escolhemos um dos encontros do fim de semana (neste caso da jornada de seleções) e partimos em busca de histórias. O Maisfutebol traz-lhe a História de Um Jogo. Desta vez, os duelos entre Portugal e o Liechtenstein, que se reencontram nesta quinta-feira

«Nos primeiros jogos com Portugal perdíamos por sete ou oito ou nove a zero. Mas depois houve uma fase em que jogámos bem e conseguimos empatar 2-2 em Vaduz e em Portugal acho que perdemos por 2-1.»

Bate certa a memória de Thomas Beck, antigo avançado que é dos poucos jogadores do Liechtenstein a poder dizer que marcou um golo a Portugal. 

Na verdade, nunca foram nove a zero. Foram oito, duas vezes. E sete noutra vez. O Liechtenstein, atual 198º classificado do ranking da FIFA, é a vítima de duas das maiores goleadas de sempre da seleção nacional. Mas Portugal também já passou por um embaraço frente à equipa que volta a cruzar-se com a seleção, agora na estreia de Roberto Martínez no banco e no pontapé de saída da campanha para o Euro 2024. Foi um percalço na história deste jogo entre duas seleções separadas por um mundo de diferenças, que tem sete episódios e golos com fartura - 35 para Portugal e três para o Liechtenstein. Já agora, tem também a curiosidade de Cristiano Ronaldo, o maior goleador da história, não ter marcado (ainda?) nenhum golo ao Liechtenstein.

15-0 a dividir por dois jogos, para começar

Portugal faz parte do início da história competitiva do Liechtenstein. A seleção do diminuto principado que tem 25 km de extensão e 30 mil habitantes, entre eles apenas um punhado de jogadores profissionais, estreou-se em competições oficiais na qualificação para o Euro 96. O confronto com Portugal acabou 15-0. Divididos por dois jogos, vá. Em dezembro de 1994, no Estádio da Luz, uma seleção portuguesa que juntava duas gerações, entre elas aquela a que chamaram de ouro na força da juventude, atropelou os frágeis estreantes, num festival que começou com um bis de Domingos. Ainda marcaram Oceano, João Vieira Pinto, Fernando Couto e Folha, antes de Paulo Alves sair do banco para fazer mais dois golos. Era oficialmente a maior goleada da história da seleção nacional.

No segundo jogo, em Eschen, Paulo Alves subiu a parada. O antigo avançado, atual treinador do Moreirense, saiu do banco para marcar um hat-trick em pouco mais de meia hora, num 7-0 que também teve direito a bis de Rui Costa. Mais um recorde: esta é ainda a maior vitória fora da seleção nacional. Dois empates nos jogos que se seguiram, com Irlanda do Norte e Áustria, baralharam as contas para Portugal, mas a campanha das goleadas históricas teve final feliz. Em novembro, na Luz, a vitória sobre a Irlanda garantiu mesmo a primeira presença de Portugal numa fase final em 20 anos.

Thomas Beck, que chegou à seleção em 1998, recorda em conversa com o Maisfutebol como se viviam aqueles jogos do lado do Liechtenstein. «Eram sempre jogos difíceis. Éramos uma equipa de um país pequeno contra países grandes, com muitas estrelas. Na nossa seleção só metade dos jogadores eram profissionais, a outra metade era semi-profissional ou amadora.»

«Foi bom para nós sofrermos só 8 e não 14»

Na qualificação para o Euro 2000, o Liechtenstein voltou a calhar no grupo de Portugal. Desta vez, a Seleção Nacional despachou o primeiro jogo, em Vaduz, com um 5-0. Rui Costa abriu e fechou as contas, pelo meio marcou Figo e até deu para o central Paulo Madeira fazer dois golos de cabeça. O segundo encontro jogou-se em Coimbra, a 9 de junho de 1999. 8-0, outra vez.

Thomas Beck estava em campo e a memória poupa-o à má recordação. «Não me lembro de muito. Acho que estivemos 90 ou 95 minutos sob pressão. Foi bom para nós sofrermos só oito e não 14. Não me lembro quantas pessoas estavam no estádio. O Figo jogou, não jogou?»

Jogou. E jogou João Vieira Pinto, que fez um hat-trick. E Sá Pinto, que esteve em mais três golos, dois dele e um outro que resultou num autogolo de Ritter. E também jogou Rui Costa, que marcou outros dois golos.

Foi a última goleada desta história. O Liechtenstein foi aprendendo a competir, diz Beck. «Nos primeiros jogos perdemos com muitas seleções. Depois veio um treinador alemão, o Ralf Loose, que nos disse: ‘Primeiro temos de defender, sofrer poucos golos. Temos de melhorar a defesa, defender com 11 jogadores, e depois tentar aproveitar se tivermos uma oportunidade.’ Na verdade, Loose era o treinador naquele 8-0 de 1999. Mas o Liechtenstein foi evoluindo e na década de 2000 conseguiu apesar de tudo juntar na seleção alguns profissionais, a atuarem no campeonato suíço ou noutras ligas europeias – o guarda-redes Peter Jehle jogou no Grasshopers antes de viajar para Portugal e para o Boavista, o avançado Mario Frick em Itália. Viveu então os melhores momentos da sua história. Em 2007 conseguiu uma vitória épica sobre a Islândia, por 3-0, na qualificação para o Euro 2008, num jogo em que Beck bisou. Três anos antes, embaraçou Portugal.

Foi a 9 de outubro de 2004. Depois da euforia do Euro 2004 e da ressaca da final perdida, Portugal entrou na qualificação para o Mundial 2006 com duas vitórias, sobre Letónia e Estónia. Seguia-se a visita ao simpático Liechtenstein e até ao intervalo tudo parecia correr como seria de esperar: Portugal vencia por 2-0, com um golo de Pauleta e um autogolo de Hasler. Depois, Scolari entrou em gestão. Tirou Costinha, amarelado, logo ao intervalo, a seguir fez sair Simão e depois Cristiano Ronaldo, que também já tinha um cartão. Recorde o relato desse jogo ao minuto no Maisfutebol.

Deu no que deu. Logo aos 48m, Burgmeier aproveitou um mau atraso de Paulo Ferreira para fazer o 2-1. E a 15 minutos do fim Thomas Beck consumou o escândalo. «Foi um livre de 25 metros ou 35 metros», sorri o avançado, a recordar aquele golo em que a bola bate no chão e Ricardo fica mal na fotografia.

A festa que durou toda a noite, com os jogadores de bar em bar 

Beck não tem dúvidas: «Foi o golo mais importante da minha carreira. Não foi o golo mais bonito, mas foi o mais popular.»

Nunca se tinha vivido nada assim no Liechtenstein e a festa foi à altura, recorda. «Começou no campo, continuou no balneário e depois durou toda a noite», ri-se: «Fomos para a rua, estivemos num bar em Vaduz. Aliás, em vários bares.»

Beck fez 94 jogos pelo Liechtenstein e nunca mais viveu nada assim. «Foi o maior jogo da minha carreira, claro. Jogámos contra grandes seleções, Espanha ou Alemanha, também eram jogos espetaculares. Mas só tivemos um empate frente a uma das melhores equipas do mundo e isso foi em 2004», continua, a contar que ainda hoje essa é uma das melhores memórias futebolísticas do principado: «Quando se fala sobre futebol no Liechtenstein toda a gente se lembra que ganhámos à Islândia, mas também do empate contra Portugal. Com Ronaldo em campo, Ricardo Carvalho, etc, etc. Tantas estrelas.»

Por cá, o choque foi proporcional à festa no Liechtenstein. Vergonha, escreveu-se. «Sofremos golos que já não existem», dizia Scolari no final. «Temos de ter uma mudança de atitude porque, se não o fizermos, contra a Rússia, em vez de dois golos, sofremos 12.» À chegada ao aeroporto, o ainda adolescente Cristiano Ronaldo procurava desvalorizar – «Não foi um escândalo, às vezes estes resultados acontecem», disse -, enquanto os companheiros repetiam a ideia de que aquilo tinha de servir de exemplo. «É difícil perder pontos onde nunca ninguém perdeu», admitia Jorge Andrade, a revelar que a equipa fez «terapia de grupo» depois do jogo: «Concluímos que estes resultados contra equipas menores não podem voltar a acontecer.» O central deixava ainda uma promessa. «Somos jogadores com carácter e personalidade para fazer um bom jogo contra a Rússia.»

Dito e feito. Quatro dias mais tarde, a seleção reagia em grande. Àquele que foi um dos piores resultados da história seguiu-se uma exibição de luxo em Alvalade, que terminou na memorável goleada à Rússia: 7-1.

A partir daí Portugal embalou para o apuramento, que foi selado precisamente frente ao Liechtenstein um ano mais tarde, em Aveiro. Mas não ganhou para o susto e esteve perto do escândalo outra vez. O Liechtenstein até marcou primeiro, num golo de Benjamin Fischer. No início da segunda parte Pauleta empatou, depois Figo ainda desperdiçou um penálti e foi preciso esperar pelos 85 minutos para evitar novo choque. Figo bateu um canto e Nuno Gomes, que tinha saído do banco um minuto antes a render Cristiano Ronaldo, apareceu a cabecear para o 2-1 final.

Portugal e Liechtenstein só voltaram a defrontar-se uma vez depois daquela noite em Aveiro. Foi em agosto de 2009, no único particular desta história. Jogou-se no Algarve e Portugal venceu por 3-0, com um bis de Hugo Almeida e mais um golo de Raúl Meireles. 

«A motivação estava sempre presente»

Para quem está de fora, pode ser difícil perceber como consegue uma seleção do nível do Liechtenstein encontrar motivação para defrontar equipas muito superiores. Thomas Beck explica: «A motivação estava sempre presente. Jogávamos contra grandes estrelas, em bons países, em bons estádios, com muitos espectadores. Cada jogo era um momento alto para mim.»

Agora que o Liechtenstein surge de novo no caminho de Portugal, para uma nova era na seleção, os pressupostos são os mesmos. No papel e na prática, Portugal é muitíssimo superior ao adversário e o óbvio favorito a vencer e a contrariar a tendência para começar mal a corrida aos Europeus – já não vence o primeiro jogo desde 1998.

«É difícil para o Liechtenstein. Agora tem mais problemas do que no meu tempo, há muitos amadores, muitos jovens», observa Thomas Beck: «É uma equipa em mudança neste momento. Frente a Portugal, com o novo treinador e com tantos jogadores que se querem mostrar, é difícil.» O que esperar do jogo de Alvalade? O habitual. «O Liechtenstein vai concentrar-se na defesa, estacionar o autocarro», sorri: «No Liechtenstein esperamos que eles consigam defender durante muitos minutos e que sofram poucos golos.»

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