Ucrânia pode já não recuperar todo o seu território e Zelensky deve começar a mudar a definição de "vitória" na guerra

CNN , Natasha Bertrand
28 jun, 22:00
Ucrânia

As autoridades na Casa Branca começam a perder a confiança de que a Ucrânia será capaz de recuperar todo o território que perdeu para a Rússia nos últimos quatro meses de guerra, disseram representantes dos EUA à CNN, mesmo com o armamento mais pesado e sofisticado que os EUA e os seus aliados pretendem enviar.

Conselheiros do presidente Joe Biden começaram a debater internamente como e se o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky deveria mudar a sua definição de “vitória” ucraniana - adaptando-se à possibilidade de o seu país ter encolhido de forma irreversível.

Os representantes dos EUA sublinharam à CNN que essa avaliação mais pessimista não significa que os EUA pretendam pressionar a Ucrânia a fazer cedências territoriais formais à Rússia para pôr fim à guerra. Também há esperança de que as forças ucranianas sejam capazes de recuperar áreas significativas de território numa provável contraofensiva, no final deste ano.

Um funcionário do Congresso familiarizado com as discussões disse à CNN que uma Ucrânia mais pequena não é inevitável. “A Ucrânia conseguir recuperar uma grande parte desses territórios, se não todos, depende também de quanto apoio damos ao país”, disse o funcionário. Ele frisou que a Ucrânia pediu formalmente aos EUA um mínimo de 48 sistemas de lançamento múltiplo de rockets, mas que, até agora, o Pentágono apenas prometeu oito.

E nem toda a gente na Administração está assim tão preocupada. Alguns acreditam que as forças ucranianas podem novamente desafiar as expetativas, como fizeram nos primeiros dias da guerra, quando repeliram um avanço russo na capital ucraniana, Kiev. O conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan tem estado altamente envolvido com os seus homónimos ucranianos e passou horas ao telefone, na semana passada, a debater os esforços ucranianos para recapturar território com o chefe da defesa da Ucrânia e o chefe do Estado-Maior, o general Mark Milley, segundo disseram à CNN representantes a par desse telefonema.

O pessimismo crescente acontece no momento em que Biden se encontra com aliados dos EUA na Europa, onde tentará transmitir força e otimismo sobre o rumo da guerra, ao mesmo tempo que apelará aos líderes para que se mantenham comprometidos em dar armas e prestar apoio a Ucrânia, durante este conflito brutal.

“Temos que nos manter unidos. Putin está a contar desde o início que, de alguma forma, a NATO e o G7 se dividiriam, mas não o fizemos e não o vamos fazer”, disse Biden no domingo durante a cimeira do G7 na Baviera.

O chanceler da Alemanha Olaf Scholz, o presidente dos EUA Joe Biden, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, o primeiro-ministro do Japão Fumio Kishida, a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu Charles Michel, o primeiro-ministro da Itália Mario Draghi, o primeiro-ministro do Canadá Justin Trudeau e o presidente de França Emmanuel Macron, sentaram-se numa mesa redonda enquanto o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, se dirige aos líderes do G7 por videoconferência durante uma sessão de trabalhos na segunda-feira, 27 de junho de 2022, no Castelo de Elmau, no sul da Alemanha.

A Administração anunciou mais 450 milhões de dólares em ajuda de segurança à Ucrânia, na semana passada, incluindo sistemas adicionais de lançamento de rockets, munições de artilharia e barcos de patrulha. Os EUA também devem anunciar esta semana a compra de um sistema avançado de defesa antimísseis terra-ar, chamado NASAMS, para as forças ucranianas. Biden indicou num editorial no início deste mês que está empenhado em ajudar a Ucrânia a ganhar vantagem no campo de batalha para que tenha influência nas negociações com a Rússia.

No entanto, o clima mudou nas últimas semanas, pois a Ucrânia tem lutado para repelir os avanços da Rússia no Donbass e sofreu perdas impressionantes nas suas tropas, chegando aos 100 soldados por dia. As forças ucranianas também estão a gastar os equipamentos e munições mais depressa do que o Ocidente pode fornecê-los e mais depressa do que pode treiná-los nos novos sistemas de armas com padrões da NATO.

Um representante militar dos EUA e uma fonte familiarizada com os serviços de informações do Ocidente concordaram que é improvável que a Ucrânia consiga reunir a força necessária para recuperar todo o território perdido para a Rússia durante os combates – muito menos este ano, como Zelensky disse na segunda-feira que era o seu objetivo. Uma contraofensiva substancial pode ser possível com mais armas e mais treino, disseram as fontes, mas a Rússia também pode ter a oportunidade de reabastecer a sua força nesse período, como tal, não há garantias.

“Muito depende se a Ucrânia consegue recuperar o território, pelo menos, até as linhas que detinha a 23 de fevereiro”, disse Michael Kofman, especialista nas Forças Armadas Russas do Centro de Análises Navais. “A perspetiva existe, mas é contingente. Se a Ucrânia conseguir chegar a esse ponto, então provavelmente consegue recuperar o resto. Mas, se não conseguir, então pode ter de reconsiderar a melhor forma de alcançar a vitória.”

As forças russas estão a ganhar terreno

As forças russas controlam agora mais de metade da região leste ucraniana do Donetsk, disse Pavlo Kyrylenko, chefe da administração militar da região do Donetsk, na quinta-feira. As forças ucranianas retiraram-se da importante cidade oriental de Severodonetsk na sexta-feira, após semanas de batalhas sangrentas.

Na semana passada, as forças russas também conquistaram terreno ao redor de Lysychansk, a última cidade na região leste do Lugansk ainda controlada pela Ucrânia. Os comandantes militares ucranianos estão agora a lidar com a realidade de que podem ter de se retirar da área para defender o território mais a oeste.

Enquanto isso, as receitas petrolíferas russas só aumentaram à medida que os preços do petróleo dispararam, mesmo apesar das duras sanções impostas pelo Ocidente. As autoridades norte-americanas disseram na segunda-feira que os EUA e os seus aliados vão tentar limitar o preço do petróleo para que a Rússia não lucre mais com isso, mas ainda não se sabe como e quando esse limite entrará em vigor.

Internamente, há um sentimento entre membros da Administração Biden de que Zelensky precisará de começar a moderar as expetativas sobre o que as forças ucranianas podem alcançar de forma realista. Zelensky disse no final do mês passado que “consideraria uma vitória para o nosso país, a partir de hoje, avançar para as linhas de 24 de fevereiro, sem perdas desnecessárias.”

Na semana passada, ele reiterou esse objetivo.

“Não temos outra alternativa a não ser seguir em frente - avançar para libertar todos os nossos territórios”, disse ele numa publicação no Telegram. “Precisamos de expulsar os invasores das regiões ucranianas. Embora a largura das linhas da frente seja de mais de 2500 km, sentimos que mantemos a iniciativa estratégica.”

E, na segunda-feira, ele estabeleceu um prazo. Zelensky quer que a guerra termine e que a Ucrânia vença até ao final de 2022, disse ele aos líderes do G7.

A Rússia também está a sofrer baixas graves em combate, perdendo até um terço da sua força terrestre em quatro meses de guerra, segundo estimam as autoridades dos serviços de informação dos EUA. Os representantes também disseram publicamente que a Rússia lutará para obter ganhos sérios mais a oeste, usando a região do Donbass como base, sem uma mobilização total das suas forças de reserva.

Mas a Rússia acredita que pode manter o combate, desgastando a determinação ucraniana e ocidental à medida que os efeitos económicos globais da guerra se acentuam, disseram representantes à CNN.

A caça ao armamento da era soviética

Como a CNN relatou anteriormente, a Rússia procura, em particular, explorar a lacuna entre a quantidade de munições de estilo soviético que a Ucrânia e os seus aliados têm armazenadas, e quanto tempo o Ocidente demorará para fornecer à Ucrânia armas modernas e que seguem os padrões da NATO, bem como munições que requerem um treino demorado.

Um alto funcionário da defesa reconheceu à CNN que os recursos da era soviética estão “a diminuir”, mas ainda não chegaram “ao fundo”. O mesmo funcionário disse que alguns países do leste europeu ainda têm mais para fornecer - mas apenas se aquilo que derem for substituído por equipamento mais moderno.

Enquanto isso, os EUA e os seus aliados andam a vasculhar o mundo em busca das munições da era soviética que se adaptam ao equipamento que a Ucrânia já possui, incluindo munições de artilharia de 152 mm. As armas padrão da NATO disparam projéteis maiores, de 155 mm. Mas outro representante da defesa dos EUA disse à CNN que o esforço está efetivamente a chegar ao fim, uma vez que já entrou quase tudo que os países estão dispostos a fornecer.

Tendo em conta o ritmo prodigioso com que os ucranianos gastaram as munições mais antigas nos combates de artilharia no Donbass, o mesmo representante disse: “As armas da era soviética estão a ser varridas da Terra.”

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