Porque a Rússia está a atravessar o melhor momento na guerra e o tempo que a Ucrânia não tem para usar as novas armas (análise)

CNN , Análise de Tim Lister
27 jun, 22:00
Ucrânia

Provavelmente, as forças russas estão a atravessar o seu melhor período desde que a invasão da Ucrânia começou, há quatro meses.

Eliminaram a maioria das defesas ucranianas na região do Lugansk, consolidaram o controlo de uma faixa de território a sul, melhoraram a logística e a estrutura de comando e reduziram a eficácia dos drones de ataque ucranianos.

Na última semana, os russos foram recompensados ​​pelos intensos - alguns diriam impiedosos - bombardeamentos das restantes áreas da região de Lugansk mantidas pelas forças ucranianas, que finalmente abdicaram de Severodonetsk e perderam território a sul de Lysychansk.

O chefe da autoproclamada República Popular de Lugansk, Leonid Pasechnik, previu na sexta-feira passada que as forças russas cercariam completamente Lysychansk em dois ou três dias. Até agora, isso não aconteceu, mas a cidade está em perigo iminente.

As forças russas também intensificaram os ataques na região do Donetsk, aproximando-se ligeiramente da faixa de cidades industriais na região que segue a sul de Sloviansk, passando por Kramatorsk e Kostiantynivka.

Em Lysychansk e em muitas das cidades espalhadas pelas linhas de frente sinuosas que atravessam cinco regiões, os ucranianos podem enfrentar uma repetição do que aconteceu em Severodonetsk, onde foram bombardeados até se retirarem. Simplesmente, não restava nada para defender.

O dilema imediato para os militares ucranianos é se devem continuar empenhados na defesa de Lysychansk, com o risco de perderem soldados e armas se a cidade for cercada - e se a liderança política da Ucrânia vai ordenar uma retirada para novas linhas defensivas.

Se isso acontecer, as unidades agora estacionadas na bolsa de território ocupado pela Ucrânia podem recuar sem serem dizimadas? Grandes secções da autoestrada que liga Lysychansk a Bakhmut estão repletas de destroços, e as unidades russas estão a aproximar-se de Bakhmut.

Projéteis de artilharia atingiram a cidade de Bakhmut na manhã de 26 de junho de 2022, danificando várias casas e matando pelo menos uma pessoa.

Parece que os russos não estão a fazer grandes progressos de Izium, a norte, em direção a Sloviansk, apesar das repetidas tentativas de romper as linhas ucranianas. Ainda assim, as autoridades ucranianas alertaram no domingo que as forças russas estavam “a acumular-se” a norte de Sloviansk. Os militares russos podem rapidamente mobilizar uma mão-cheia de batalhões de grupos táticos estacionados do outro lado da fronteira.

Alguns bloggers militares russos não se deixam levar pelo otimismo. Yuri Kotyenok, por exemplo, acredita que as forças russas não têm homens suficientes para cercar as cidades altamente fortificadas de Slovyansk e Kramatorsk.

A longo prazo, a melhor esperança para os ucranianos é que, à medida que vão destacando mais armamento ocidental capaz de destruir a artilharia russa, os sistemas de rockets e os postos de comando muito atrás das linhas de frente possam reduzir gradualmente o défice de poder de fogo.

Mas armas como o sistema de rockets HIMARS, que tem um alcance de 70 quilómetros na configuração fornecida à Ucrânia, exigem várias semanas de treinos. E no Donbass, várias semanas é muito tempo, dada a atual pressão sobre as forças ucranianas.

Essa pressão é ainda maior porque muitas das unidades colocadas na região estão entre as mais experientes da Ucrânia. Foram desgastadas pela intensidade dos bombardeamentos russos e não são de fácil substituição.

E os militares ucranianos já perderam em combate algumas das armas levadas para a frente. O Ministério da Defesa da Rússia afirmou na semana passada que os ataques russos já tinham eliminado alguns dos obuses M777 fornecidos pelos EUA.

A ofensiva russa também aprendeu com os erros cometidos durante a campanha inicial e a investida abortada em direção a Kiev. Os sistemas de defesa aérea, em especial o S-300, foram implementados para providenciar uma cobertura extensa em vez de local, retirando eficácia aos drones de ataque ucranianos. Curiosamente, parece terem sido publicados menos vídeos nas redes sociais a mostrar os aviões de combate ucranianos em ação.

Um homem inspeciona a cratera que restou depois de a artilharia russa ter atingido um distrito de Kharkiv a 26 de junho de 2022.

A Rússia nomeia novos comandantes

A hierarquia russa também foi reorganizada, com novos comandantes a serem destacados para as forças do sul e do centro da Ucrânia sob a tutela do Ministro-Adjunto da Defesa, Gennady Zhidko.

O Instituto para o Estudo da Guerra disse que “o alto-comando russo está a reorganizar-se e a reestruturar a hierarquia militar para melhor gerir as operações na Ucrânia.”

Talvez não seja por acaso que a primeira visita relatada do Ministro da Defesa russo Sergei Shoigu e dos altos comandantes às forças envolvidas na “operação militar especial” tenha acontecido quando a maré parecia estar a favor da Rússia. A vitória tem mil pais, mas a derrota é órfã.

Rob Lee, analista das Forças Armadas Russas no King's College de Londres, observou que Zhidko se sentou ao lado de Shoigu nas reuniões feitas durante a visita. Lee lembrou que a Rússia, aparentemente, “não tinha um comandante-geral na fase inicial (em março), violando o princípio da unidade de comando.”

O Ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, participa na parada militar do Dia da Vitória no centro de Moscovo a 9 de maio de 2022.

Resta saber se o sucesso russo contra as defesas ucranianas no Donetsk poderá encorajar uma maior expansão dos seus objetivos de guerra, além da operação militar especial - talvez um esforço para manter o impulso até o rio Dnipro que, essencialmente, divide a Ucrânia em dois.

Esse é o pior cenário possível para os ucranianos e, por enquanto, continua a ser uma possibilidade distante e não um risco iminente. As forças ucranianas ainda estão a defender cerca de 12.000 quilómetros quadrados, só em Donetsk (uma área do tamanho do Connecticut).

Apesar dos reveses ucranianos nas últimas semanas, ainda há muitas provas de que os blindados russos também estão a sofrer um elevado desgaste. Os responsáveis ocidentais acreditam que alguns batalhões de grupos táticos foram reconstituídos.

E pode haver um raio de esperança para a Ucrânia, no meio dos reveses no campo de batalha: eles defendem uma linha de abastecimento acelerado de armas do Ocidente, agora que os líderes do G7 estão reunidos.

Um dos maiores apoiantes do Presidente Zelensky, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, está ciente do risco de “fadiga da Ucrânia”, numa altura em que o campo de batalha parece virar a favor da Rússia.

“As primeiras semanas e meses da resistência ucraniana foram caracterizadas por uma unidade global avassaladora e por uma enorme onda de apoio ao povo ucraniano”, disse ele na abertura da reunião do G7, na Alemanha.

“É essencial que isso se mantenha a longo prazo. O comportamento da Rússia e as atrocidades que Putin está a cometer devem tornar-se ‘normais’ aos olhos do mundo.”

O presidente dos EUA, Joe Biden, fez um apelo semelhante. “Temos que nos manter unidos. Desde o início que Putin espera que, de alguma forma, a NATO e o G7 se dividam, mas não o fizemos e não o vamos fazer”, disse ele.

Não há, por enquanto, nenhum sinal de recuo de qualquer um dos lados, até porque há muito em jogo.

Hal Brands, num artigo para a “Foreign Affairs”, disse que o conflito “em igual medida destacou e aprofundou a clivagem global básica dos dias de hoje - o confronto entre as democracias avançadas que estão empenhadas na ordem internacional existente e as autocracias eurasianas que tentam derrubá-la.”

Mas, para Putin, esta guerra por ele escolhida é uma parcela (e grande) de uma luta existencial contra a hegemonia dos EUA.

O Instituto para o Estudo da Guerra concluiu que o Kremlin “pretende conduzir um conflito prolongado na Ucrânia e procura desenvolver os esforços de mobilização para apoiar os objetivos militares e políticos a longo prazo nas áreas ocupadas da Ucrânia.”

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