Soldados russos esmagaram uma escola ucraniana. Depois deixaram mensagens aos alunos apelando à paz

CNN , Sanyo Fylyppov e Ivana Kottasová
10 jun, 09:30
Russos destroem escolas na Ucrânia e depois deixam mensagens aos alunos

Mensagens de soldados russos foram alegadamente deixadas em escola saqueada na Ucrânia.

Quando as forças ucranianas recuperaram o controlo de Katyuzhanka, uma aldeia a norte de Kiev que tinha estado sob ocupação russa durante mais de um mês, em março, encontraram a escola local em destroços. Os equipamentos que não tinham sido roubados estavam esmagados, havia um cemitério improvisado no pátio da escola e escavaram-se trincheiras profundas em todo o campo de futebol.

Dentro de uma das salas de aula destruídas, escrita a giz num grande quadro pendurado na parede logo abaixo de um retrato de Isaac Newton, estava uma carta dirigida aos alunos e assinada como "os russos".

Lê-se na carta: "Crianças, lamentamos esta confusão, tentámos salvar a escola, mas houve bombardeamentos. Vivam em paz, cuidem-se e não repitam os erros que os mais velhos cometeram. A Ucrânia e a Rússia são um só povo!!! A paz esteja convosco, irmãos e irmãs!"

A mensagem, escrita em russo, em oposição ao ucraniano - a língua de instrução da escola -, foi uma das várias que ficaram em quadros negros e quadros brancos espalhados por todo o edifício. "Somos a favor da paz no mundo inteiro", dizia outra mensagem. A CNN não pode verificar de forma independente quem escreveu as mensagens.

Uma nota que foi encontrada num quadro negro numa escola em Katyuzhanka, depois das tropas russas terem deixado a área. Uma frase diz: "A Ucrânia e a Rússia são um só povo!!!".

Mikola Mikitchik, o director da Escola Secundária de Katyuzhanka, disse à CNN no mês passado que se sentiu enojado quando encontrou as mensagens.

"Eles escreveram 'Russos e Ucranianos são irmãos' e ao mesmo tempo roubaram a escola... arruinaram computadores, tiraram discos rígidos, levaram computadores portáteis, impressoras, não deixaram nada na escola! É barbaridade e hipocrisia", afirmou.

Mikitchik contou à CNN que foram encontradas na escola três minas antitanque, várias granadas atordoantes e carregadores de metralhadoras com balas. A cozinha, recentemente remodelada com novo equipamento que era utilizado para alimentar diariamente mais de 500 crianças antes do início da guerra, ficou completamente destruída.

De acordo com uma atualização operacional publicada pelo Ministério da Defesa ucraniano a 3 de março, as tropas russas estavam a controlar Katyuzhanka nessa altura, tendo estabelecido campos logísticos aí e noutras aldeias da região.

Katyuzhanka é uma aldeia pequena, mas importante estrategicamente devido à sua posição numa das principais estradas que conduzem a Kiev. Imagens de satélite do início de março revelaram nesta área um comboio militar russo de 64 quilómetros composto por tanques, veículos blindados e artilharia rebocada.

Mikitchik estimou que os danos materiais causados pelas tropas russas - e na sua mente não há dúvida de que foram eles que saquearam a escola - ascenderam a cerca de 160 mil euros e disse que não pode imaginar que os alunos voltem em breve.

"Esperamos vir a ser amigos"

"Tudo foi tirado. Até os cabos foram roubados. Tínhamos cabos elétricos feitos de fio de cobre e 100 metros do cabo foram roubados", disse ele.

Ao mesmo tempo, outra mensagem deixada na escola dizia: "Sejam justos e honestos uns com os outros, deem uma ajuda a todos os que dela necessitem. Esperamos vir a ser amigos! Tornemo-nos médicos, engenheiros, professores - aqueles que trazem a paz!"

A escola em Katyuzhanka sofreu danos tremendos por causa dos combates.

 

Foram escavadas trincheiras no campo desportivo da escola.

Estas notas rabiscadas no quadro negro em Katyuzhanka estavam entre dezenas de mensagens encontradas nas escolas em áreas anteriormente ocupadas da Ucrânia, após a retirada das tropas russas.

Na Ucrânia, fotografias destas mensagens tornaram-se um símbolo da crueldade e do enorme rasto da agressão da Rússia.

Mas, na Rússia, geraram uma resposta muito diferente quando surgiram em abril e rapidamente se tornaram parte da propaganda que retratava o ataque de Moscovo contra a Ucrânia como uma "libertação".

O site de notícias russo Lenta.ru publicou um artigo sobre "mensagens comoventes para as crianças ucranianas" deixadas para trás pelos militares russos, enquanto o site do canal de televisão russo Tsargrad relatou uma mensagem "sincera" que desejava às crianças ucranianas "sucesso nos seus estudos".

O antigo ministro russo da cultura Vladimir Medinsky chegou mesmo a partilhar uma fotografia de uma das mensagens, dizendo que ficou "comovido" com ela.

"Lamentamos, não queríamos esta guerra"

Em Novyi Bykiv, uma aldeia na região de Chernihiv, a leste de Kiev, a diretora Natalia Vovk encontrou também uma série de mensagens escritas em quadros negros, muitas delas apelando à paz e amizade entre os povos ucraniano e russo.

A Escola Geral de Ensino Secundário de Novobykivsky foi duramente atingida durante os combates. O telhado foi severamente danificado por bombardeamentos e todas as janelas foram partidas, disse Vovk à CNN no mês passado.

"A biblioteca está danificada. Os livros escolares estão completamente queimados, não resta um único livro de texto. As carteiras estão partidas, o equipamento foi retirado, os computadores foram retirados", contou.

No entanto, em numerosas salas de aula, mensagens apelando à paz foram deixadas pelas tropas russas, disse.

"Lamentamos, não queríamos esta guerra. Irmãos eslavos, estão a ser enganados. A guerra é má, não lutem, crianças!", lê-se numa mensagem, escrita em letras grandes num quadro negro.

Esta nota num quadro encontrada em Novyi Bykiv diz "Vamos viver em amizade!!!"

"Vamos viver em amizade!!!" foi escrito noutro quadro, disse Vovk. Uma fotografia de outra sala de aula mostra uma placa que diz: "Somos todos eslavos. Não é bom para os irmãos irem [uns contra os outros] com uma faca".

Tal como Mikitchik, Vovk está agora a catalogar os danos causados à sua escola durante a ocupação.

"Tínhamos um painel interativo, que nos custou 100 mil hryvnias (€3.480) e eles roubaram-no. As impressoras e os computadores portáteis foram roubados. O que não podiam roubar, partiam, tornavam inutilizável", disse ela.

Foi encontrada uma granada de treino na escola de Novyi Bykiv
Muito do equipamento da escola foi destruído ou roubado.

O edifício da escola Novyi Bykiv tem a forma de uma letra U, que encerra o pátio da escola em três lados. "Isto foi conveniente para eles, colocaram um lançador de rockets no centro e lançaram-nos do centro da escola", disse Vovk, acrescentando que a disposição da escola e as suas caves facilitaram às tropas russas esconderem-se do perigo que se aproximava.

"Há muitas passagens na escola: pode-se entrar de um lado e sair do outro, e eles estavam muito à vontade. Até tinham lá uma sala de jantar", acrescentou ela.

Vovk disse acreditar que algumas das mensagens deixadas pelas tropas russas mostravam o seu desespero pessoal. Muitos estavam a expressar sentimentos antiguerra, disse, e pelo menos cinco das mensagens apelavam à amizade.

Uma inscrição dizia "Todos queremos VIVER" com a palavra "viver" escrita em letras maiúsculas, contou. Outra dizia: "Não compreendemos o que estamos a fazer aqui".

"Creio que estas mensagens mostram que eles compreenderam a desgraça. Talvez eles estivessem à espera da morte", afirmou. "Mas eles também pensaram no facto de que seriam punidos pelo mal que fizeram". Parecia que o [escritor] queria viver, ter um bebé e fazer tudo o que é normal, mas eles compreenderam que depois de tudo isto já não seriam capazes de voltar à vida normal", disse.

“Putin é o vosso presidente''

Numa Escola na aldeia de Zdvyzhivka, a noroeste de Kiev, foram encontradas outro tipo de mensagens.

"Putin é o vosso presidente. Crianças, estudem diligentemente, a Rússia precisa de cidadãos instruídos", dizia uma mensagem encontrada num quadro decorado com desenhos infantis que retratam diferentes planetas do sistema solar.

Esta mensagem encontrada num quadro negro de uma escola em Zdvyzhivka diz: "Putin é o vosso presidente. Crianças, estudem diligentemente, a Rússia precisa de cidadãos instruídos!"

Um funcionário da escola, que quis permanecer anónimo por receios de segurança, disse que foram encontradas minas nas instalações da escola depois dos russos se terem retirado da área em finais de março.

Sob controlo russo, a escola de Zdvyzhivka tornou-se a sede da OMON, o ramo da polícia especial da Guarda Nacional da Rússia, disse. Tal como Katyuzhanka, Zdvyzhivka está também localizada numa das principais estradas que conduzem a Kiev a partir do norte.

Tal como nas outras duas escolas, quase todo o equipamento da escola de Zdvyzhivka foi roubado ou destruído.

"Partiram as mesas das crianças, destruíram o jardim-de-infância, as janelas estão partidas". Roubaram as placas inteligentes e os computadores portáteis", disse o funcionário.

"Tínhamos uma grande televisão LCD. Não a podiam roubar porque era demasiado grande. Por isso, dispararam e deixaram-na na sala de aula", acrescentou o empregado.

Num quadro perto do ecrã da televisão esmagado, foi encontrada outra mensagem: "Perdoem-nos!"

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