O que se sabe sobre os acordos assinados por Ucrânia e Rússia que podem ser decisivos para o mundo

22 jul, 18:08
Cargueiro com cereais aguarda para passar perto da Turquia (Khalil Hamra/AP)

Partes cederam em várias cláusulas num acordo que durará por quatro meses e pode ser renovado

Ucrânia e Rússia assinaram esta sexta-feira dois acordos separados para retomar a exportação de cereais a partir do Mar Negro, onde vários navios aguardam para poderem sair e levar alimentos a todo o mundo. Da cerimónia que decorreu em Istambul, e que contou com António Guterres como uma das figuras principais, surgiram várias cláusulas que as partes se comprometeram a cumprir.

Numa cerimónia realizada no Palácio Dolmabahçe, com a parceria da Turquia e das Nações Unidas, foram assinados dois documentos - já que a Ucrânia recusou assinar o mesmo papel que a Rússia - devendo o acordo vigorar durante quatro meses, sendo, no entanto, renovável.

Depois de dois meses de duras negociações, os documentos visam criar um centro de controlo em Istambul, dirigido por representantes das partes envolvidas: um ucraniano, um russo, um turco e um representante da ONU, que deverão estabelecer o cronograma de rotação de navios no Mar Negro. 

O acordo implica também que passe a ser feita uma inspeção dos navios que transportam os cereais, para garantir que não levam armas para a Ucrânia. Estas inspeções, que serão realizadas tanto à saída como à chegada dos navios, deverão acontecer nos portos de Istambul.

Mykhailo Podolyak, conselheiro de Volodymyr Zelensky, já tinha referido que iriam ser assinados dois documentos “espelho”, um pela Ucrânia e outro pela Rússia, em que ambos os países se comprometem nos mesmos termos: “A Ucrânia não assina documentos com a Rússia”, garantiu.

Como parte do acordo ficou definido que a exportação de cereais pode começar a ser feita a partir de três portos: Odessa, Chernomorsk e Yuzhnyi, três áreas portuárias perto da cidade de Odessa, o maior porto do Mar Negro. A escolta dos navios que vão levar os cereais ficarão a cargo de pilotos ucranianos, confirmaram ambas as partes, sendo que também não poderão existir representantes russos nos portos de onde os cereais vão sair. De resto, Mykhailo Podolyak já tinha dito isso mesmo, referindo que, caso essa parte não seja cumprida, “haverá uma resposta militar” da Ucrânia.

No entanto essa escolta não será poderá ser realizada por membros das Forças Armadas, uma vez que a utilização de navios, aeronaves ou drones de guerra é proibida a partir de uma certa distância dos navios.

Uma fonte russa ligada à negociação referiu que os acordos vão permitir a entrega de 25 milhões de toneladas de cereais aos mercados mundiais: “Os navios com produtos alimentares que estão a ser bloqueados nos portos ucranianos vão ser desbloqueados”, disse a mesma fonte à agência TASS a partir de Istambul.

Serão cerca de 80 os navios que estão bloqueados atualmente, sendo que esse desbloqueio deverá levar à entrega das tais 25 milhões de toneladas nas próximas semanas.

A agência russa RIA Novosti acrescenta que o acordo não prevê a desativação de minas no Mar Negro, uma vez que isso demoraria muito tempo. Ainda assim ambas as partes vão poder enviar equipas de desativação de minas para assegurar a segurança dos corredores de transporte.

A Ucrânia, um dos cinco maiores exportadores de cereais do mundo, costumava produzir para fora cerca de seis milhões de toneladas de cereais por mês antes da invasão russa. A guerra diminuiu essa produção para apenas um milhão de toneladas mensais, acentuando uma queda que acontecia há dois anos. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, a Ucrânia produziu 54,9 milhões de toneladas de cereais entre julho de 2019 e junho de 2020, um valor que, no mesmo período do ano seguinte desceu para 44,9 milhões de toneladas.

Ainda assim, e segundo os mesmos dados, é esperado que a Ucrânia aumente a sua produção de cereais entre julho de 2021 e junho de 2022 para 47,2 milhões de toneladas, um valor ainda assim muito abaixo do perspetivado antes da guerra, que era de 63,7 milhões de toneladas.

Entre os vários cereais o trigo é o que ganha mais relevância, sendo que a Ucrânia também é um forte produtor de milho e cevada.

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