Ucrânia e Rússia assinaram acordos separados para exportação de cereais: "Um farol de esperança", diz Guterres

22 jul, 15:41
Rússia e Ucrânia assinaram acordos para exportação de cereais (Khalil Hamra/AP)

Três portos da região de Odessa vão assegurar o abastecimento dos mercados mundiais

A Ucrânia e a Rússia assinaram esta sexta-feira dois acordos para retomar a exportação de cereais a partir dos portos ucranianos. Em duas reuniões separadas que decorreram em Istambul, e que tiveram a participação do ministro da Defesa e do presidente da Turquia e do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), as duas partes comprometeram-se individualmente a colocar um fim ao bloqueio dos cereais nos portos ucranianos, situação que está a levar a uma crise global que afeta vários países, nomeadamente em África. Os acordos são válidos para os próximos quatro meses, podendo ser renovados.

Apesar de a cerimónia ter contado com as bandeiras dos dois países, em conjunto com as da ONU e da Turquia, representantes de Rússia e Ucrânia não se sentaram na mesma mesa, só se tendo cumprimentado na formalização do acordo.

O lado ucraniano foi o primeiro assinar, com o ministro das Infraestruturas, Oleksandr Kubrakov, a encontrar-se com Hulusi Akar e António Guterres, que depois, numa reunião separada, receberam o ministro da Defesa da Rússia, que representou Moscovo nas negociações. O governante ucraniano partilhou uma fotografia do encontro, aproveitando para agradecer a António Guterres "pessoalmente por apoiar a iniciativa do transporte seguro de cereais".

Depois de dois meses de duras negociações, o acordo visa a criação de um centro de controlo em Istambul, dirigido por representantes das partes envolvidas: um ucraniano, um russo, um turco e um representante da ONU, que devem estabelecer o cronograma de rotação de navios no Mar Negro.

O acordo implica também que passe a ser feita uma inspeção dos navios que transportam os cereais, para garantir que não levam armas para a Ucrânia. Estas inspeções, que serão realizadas tanto à saída como à chegada dos navios, devem acontecer nos portos de Istambul.

Na confirmação do acordo, numa sala onde estiveram representantes de todas as partes, o secretário-geral da ONU falou num "acordo para o mundo", aproveitando para agradecer especialmente à Turquia pelo papel de intermediário: "Hoje existe um farol no Mar Negro. Um farol de esperança. Um farol de possibilidade. Um farol de alívio num mundo que precisa disto mais do que nunca."

Guterres e Erdogan lideraram as negociações desde o início (Sedat Suna/EPA)

Os agradecimentos estenderam-se a Ucrânia e Rússia, países que António Guterres disse que "ultrapassaram obstáculos, colocaram de lado diferenças para construir o caminho para uma iniciativa que vai servir os interesses de todos".

"Que não existam dúvidas. Este é um acordo para o mundo. Vai trazer alívio aos países em desenvolvimento que estão à beira da bancarrota e às pessoas mais vulneráveis à beira da fome", acrescentou, falando ainda na importância da estabilização dos preços dos alimentos no mercado mundial.

O antigo primeiro-ministro português assumiu um papel decisivo para que se chegasse a este dia, atravessando várias críticas até ao momento, nomeadamente por aquilo que se disse ser a inação da ONU. Na cerimónia de assinatura António Guterres puxou dos galões para destacar o seu papel nas negociações: "Em abril, depois de ser recebido pelo presidente Erdogan, encontrei-me com os presidentes Putin e Zelensky para propor um plano de solução e temos trabalhado todos os dias desde então."

"Recebi um grande esforço e comprometimento de todos os lados durante as negociações. O comprometimento e a dedicação são ainda mais vitais hoje. Esta iniciativa deve ser totalmente implementada, porque o mundo precisa desesperadamente de atacar a crise alimentar global", concluiu.

O presidente da Turquia salientou que o acordo assinado para a exportação de cereais vai prevenir que milhares de milhões de pessoas enfrentem a fome. Segundo Recep Tayyip Erdogan, os tratados alcançados também vão ajudar a gerir a inflação global, que se tem refletido nos preços dos alimentos.

O chefe de Estado turco esclareceu ainda que será um centro de coordenação baseado em Istambul que vai coordenar o acordo. “A guerra não afeta apenas as partes envolvidas, mas toda a Humanidade”, acrescentou Erdogan, pedindo depois que se chegue a um cessar-fogo.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados