Guerra pelo Sul: Ucrânia decidida a recuperar cidades e vilas perdidas para tropas russas

CNN , Angus Watson, Ivan Watson, Olha Konovalova, Dan Hodge e Tim Lister
29 jul, 10:55
Ucrânia decidida a recuperar
cidades e vilas perdidas para tropas russas (CNN)

Uma equipa ucraniana de reconhecimento ocupa uma casa modesta numa vila perto de Mykolaiv. As metralhadoras e as mochilas do exército alinham-se encostadas às paredes, os sacos-cama estão estendidos no chão e uma panela de sopa aquece no fogão.

Do lado de fora, o barracão de jardim está cheio de Javelins e de outras armas portáteis de combate a blindados.

Os soldados que fumam na varanda mal reagem ao estrondo das explosões de artilharia que se ouvem, a cerca de 10 quilómetros de distância. Hoje, não é vez deles de lutar na frente sul da Ucrânia.

Os donos da casa, que fugiram para a Polónia após o início da guerra, no final de fevereiro, estão felizes por saber que a vila está de volta às mãos ucranianas.

O tenente Andrii Pidlisnyi foi um dos soldados que expulsaram os russos há dois meses. “No início, era uma operação defensiva para detê-los”, diz ele. “Depois, encontrámos bons lugares a partir dos quais podíamos fazer operações de ataque e retomar os nossos territórios. E agora estamos a fazer isso mesmo.”

Militares ucranianos percorrem a região de Mykolaiv em meados de junho (CNN)

Pidlisnyi comanda uma unidade de 100 homens responsáveis por identificar posições russas, muitas vezes recorrendo a drones. Depois, chamam a artilharia.

No computador, mostra à CNN alguns vídeos de câmaras corporais das missões dele, no início da guerra. Esteve várias vezes em perigo, mas diz que tem o moral elevado após os recentes êxitos. O hardware norte-americano veio ajudar.

Um dos vídeos mostra Pidlisnyi numa trincheira a usar o drone para identificar as posições dos blindados russos. “Mandem vir a prenda dos americanos”, diz pelo rádio.

As tropas russas estão agora na defensiva, nesta zona do Sul - ao contrário do Leste, onde as tropas ucranianas são aquelas que estão a ser forçadas a ceder terreno.

Mas também aqui o trabalho é lento e penoso. O objetivo de soldados como Pidlisnyi é tomar pequenas bolsas estratégicas, áreas de terreno elevado com vista para as cidades ucranianas ocupadas, à distância, onde podem obter mais vitórias.

“Não sei se venceremos até ao final deste ano”, diz ele, referindo-se à recuperação das zonas ocupadas pelos russos no Sul da Ucrânia. “Talvez só no final do próximo ano.”

As tropas ucranianas afirmam ter reconquistado algum território. Dizem que expulsaram os russos de mais duas aldeias ao longo da fronteira Mykolaiv-Kherson, no início desta semana.

Mas é uma grande área de vastos terrenos agrícolas onde quaisquer forças que avançassem seriam alvo de grande exposição, e os russos estiveram vários meses a construir posições defensivas em três camadas por toda a região.

Além disso, os ucranianos têm forças de ataque limitadas. Durante grande parte deste conflito, os ucranianos têm jogado pela defesa e isso degradou algumas das melhores unidades do país.

As armas fornecidas pelos aliados ocidentais não são, em geral, projetadas para ofensivas terrestres, e falta cobertura aérea aos ucranianos contra quaisquer forças que avançam.

As forças ucranianas também sofreram pesadas perdas a Sul, embora os militares raramente forneçam pormenores. Há sinais crescentes de que os russos estão a reforçar a sua presença militar em Kherson, determinados a mantê-la como parte vital da ponte terrestre para a Crimeia - e como a principal fonte de água da península.

Nas últimas duas semanas, extensas colunas militares rumaram para a zona Oeste de Mariupol, passando por Melitopol, até Kherson.

Um veículo blindado com o símbolo “Z” pró-Rússia parado junto ao antigo prédio do conselho regional da Ucrânia em Kherson, a 25 de julho (CNN)

Muitos civis já fugiram. As autoridades ucranianas estimam que quase metade da população de Kherson deixou a região rumo a territórios controlados pela Ucrânia.

Acusam os russos de impedir que mais pessoas deixem cidades como Melitopol, na região ocupada de Zaporizhzhia, para que possam ser usados como “escudos humanos” no caso de uma ofensiva ucraniana.

Mudanças no campo de batalha

A frente Sul da Ucrânia começa perto de Mykolaiv, uma cidade portuária a Norte de Kherson, a cidade ocupada pelos russos. É atingida por mísseis e rockets quase todos os dias.

A Sul e a Leste, uma linha da frente sinuosa vai da costa do Mar Negro através de terrenos agrícolas e sobe em direção à região de Zaporizhzhia.

Esta zona está muito longe da frente calcificada de Donetsk - disputada desde 2014 - mas é agora apenas uma parte de um campo de batalha que se estende por mais de 1000 quilómetros.

Ao longo da linha, as peças de artilharia enfrentam-se em batalhas que um soldado ucraniano descreveu como “pingue-pongue com canhões”.

É assim há meses.

Agora, os ucranianos dizem que têm uma vantagem: armamento doado, especialmente o sistema de foguetes HIMAR fornecido pelos EUA, está a destruir os depósitos cruciais de armazenamento e os postos de comando e depósitos de munições nas profundezas do território controlado pelos russos.

Os bombeiros trabalham para apagar um incêndio após um ataque militar russo em Mykolaiv a 14 de julho (CNN)

Este mês, a Ucrânia diz que destruiu pelo menos dois depósitos de munições em Nova Khakova, na região de Kherson. A Ucrânia também atingiu três pontes sobre o rio Dnipro e até mesmo um veículo de transporte de mísseis russos S-300 – uma renovada arma terra-ar que causou horror em Mykolaiv.

Na quinta-feira, o Ministério da Defesa do Reino Unido disse que a 49.ª Unidade do Exército da Rússia, estacionada na margem oeste do rio Dnipro, “parece agora altamente vulnerável” depois de a artilharia ucraniana de longo alcance ter atingido as três pontes.

“Uma delas, a ponte Antonivskyi, de 1000 metros de comprimento, perto da cidade de Kherson, foi danificada na semana passada”, e após um novo ataque esta semana “é altamente provável que a travessia esteja impossibilitada”, disse o Ministério da Defesa.

Alegou que “a cidade de Kherson, o centro populacional politicamente mais significativo ocupado pela Rússia, está agora virtualmente isolada dos restantes territórios ocupados.”

No entanto, os russos ainda controlam grandes áreas a nordeste da cidade e podem reabastecer as forças na margem oeste com pontes flutuantes e balsas fluviais através do rio Dnipro. E há mais hardware russo para substituir o que se perdeu.

A CNN obteve imagens de vídeo exclusivas, feitas por guerrilheiros, que mostram mísseis S-300 na estação de comboios de Dzhankoi, na Crimeia ocupada. As imagens e as análises de satélite fornecidas pela Maxar mostram até 50 mísseis S-300 em vagões na estação, na quinta- feira, 21 de julho. Bastaria um S-300 para destruir um edifício em qualquer local da Ucrânia.

No entanto, apesar da enormidade da máquina de guerra russa, os líderes militares da Ucrânia disseram que os ataques deste mês a armazéns russos e a rotas de reabastecimento podem mudar a maré no campo de batalha.

E vários soldados da linha de frente apoiaram essas afirmações - dizendo à CNN que acreditam que os russos têm visivelmente menos munições para disparar contra eles.

“Tivemos cerca de duas a três semanas em que eles não tinham munições suficientes para nos combater com fogo de artilharia, rockets e outros”, diz o tenente Pidlisnyi.

Noutra zona da frente Sul, o capitão das Forças Armadas da Ucrânia, Volodymyr Omelyan, disse à CNN que os ataques cirúrgicos atrás das linhas inimigas fazem parte de uma estratégia de modernização contínua da Ucrânia.

“Acreditamos que os russos se vão render muito mais depressa, especialmente na região de Kherson, quando já atingimos três pontes
principais, duas pontes de automóveis e uma ferroviária”, diz Omelyan, que era político antes de se alistar no exército. Omelyan diz que as vitórias são alcançadas “dia após dia”, no campo de batalha, mas que a Ucrânia opta por não anunciá-las: “É uma boa política por parte dos nossos comandantes falar sobre o que está a acontecer depois de já ter acontecido.”

Preparação para uma longa luta

Na cidade industrial de Kryvyi Rih, a sul, as forças ucranianas estão a ser postas à prova: os reservistas e os guardas nacionais, armados com pressões de ar, têm de invadir uma casa. Os agentes da Polícia ucraniana estão no piso superior, a fazer o papel dos russos.

Uma coluna de fumo ergue-se no horizonte da cidade em Kryvyi Rih, no final de junho (CNN)

Após uma hora de combate simulado, os novos recrutas não conseguiram chegar ao último piso - um sinal de como a guerra urbana corpo a corpo é mortal e difícil.

O comandante da unidade, Oleksander Piskun, ficou gravemente ferido ao expulsar separatistas apoiados pela Rússia de cidades na região Leste do Donbass, em 2014, e anda de cadeira de rodas desde então.

“O combate de rua, a batalha para invadir uma zona ocupada, é o combate mais difícil”, diz ele. “É mais difícil porque não estamos a
capturar zonas ocupadas, mas sim a libertá-las. Estas são as nossas cidades, este é o nosso povo.”

Por enquanto, a luta na frente Sul é dominada pela artilharia, não pelos combates de rua. Os ucranianos dizem que o futuro trará um ataque a Kherson, mas, primeiro, a batalha de longo alcance deve ser travada e vencida.

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