Foi raptado e torturado por soldados russos. Depois usaram o seu Instagram para fazer propaganda pró-Kremlin

CNN , Eliza Mackintosh e Yuliia Presniakova
17 ago, 22:00
Igor Kurayan propaganda russa

A guerra de informação de Vladimir Putin mudou. A CNN identificou pelo menos cinco ucranianos raptados cujas contas nas redes sociais foram manipuladas para divulgar mensagens de propaganda e vídeos de apoio à Rússia. Todos eram figuras públicas. Um já foi libertado: Igor Kurayan

Antes do início da guerra, Igor Kurayan, um homem de 55 anos de Kherson, cidade portuária do sul da Ucrânia, partilhava atualizações frequentes sobre jardinagem nas redes sociais. As suas contas estavam cheias de palmeiras, romãzeiras, calêndulas, bambu e abacates, cultivados em sua casa e em pequenos negócios perto do Mar Negro. Ele chamava-lhe o seu "jardim de conto de fadas".

A 25 de fevereiro, um dia depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia, Kurayan afixou uma fotografia no Instagram com uma espingarda, anunciando que se tinha voluntariado para combater nas Forças de Defesa Territorial, unidades de reserva das forças militares da Ucrânia. Pouco depois, Kherson caiu nas mãos das tropas russas e, no início de abril, depois de semanas a viver sob e a protestar contra a sua ocupação, Kurayan foi raptado. Estava a regar plantas na sua sapataria quando, diz, os soldados russos o arrastaram para a rua e o atiraram para dentro de uma carrinha.

Logo após o rapto de Kurayan, as suas páginas no Facebook e no Instagram, bem como uma nova conta no TikTok registada sob o seu nome, começaram a publicar mensagens totalmente diferentes do perfil do homem conhecido pela família e amigos como sendo um orgulhoso ucraniano, um apaixonado ativista e um ávido jardineiro.

"Eles começaram a utilizar as redes sociais do meu pai... queriam fazer dele um fantoche".
Karyna Kurayan, a filha de Igor

No princípio, os captores de Kurayan pintaram-no como um patriota, publicando fotos antigas do seu tempo a distribuir mantimentos aos soldados ucranianos na linha da frente no Donbass, onde separatistas apoiados pela Rússia têm lutado contra o governo da Ucrânia desde 2014.

Depois começaram a surgir vídeos estranhos. Num deles, Kurayan parecia abatido e envergonhado, ladeado por dois homens armados, mascarados, segurando a bandeira azul e amarela ucraniana e uma bandeira vermelha e preta associada ao movimento nacionalista ucraniano. Disse que Kherson estava ocupada e que os protestos eram inúteis, acrescentando que a Defesa Territorial ali tinha sido desmantelada. Noutro, denunciava o governo do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e apelava aos seus compatriotas para que se rendessem.

"Penso que é inútil mais resistência", afirmava Kurayan no clip, que foi partilhado nas suas contas nas redes sociais e transmitido na televisão estatal russa. De pé, diante de um arsenal de armas, de mãos atadas, dizia que tinha feito parte de uma conspiração para atacar soldados e ativistas livres russos, mas que tinha desistido, acrescentando: "Sugiro que todos os combatentes da Defesa Territorial entreguem as suas armas".

"Eles começaram a utilizar as redes sociais do meu pai. Viram que ele era ativo no Facebook... Registaram-no no TikTok - o meu pai nem sequer sabe o que é o TikTok", disse à CNN a filha de Kurayan, Karyna, uma jornalista de 23 anos que deixou a Ucrânia depois de a guerra ter começado. "Eles queriam fazer dele um fantoche".

Karyna forneceu à CNN os vídeos e as capturas de ecrã dos posts feitos nas contas originais das redes sociais do seu pai. As publicações, que partilhou com as autoridades ucranianas, foram retiradas por Kurayan após a sua libertação.

Um vídeo de propaganda de Igor Kurayan, que ele disse ter sido colocado numa conta do TikTok criada pelos seus captores russos.

Kurayan foi libertado numa troca de prisioneiros no final de abril, após quase um mês de detenção. Ele é um dos vários ucranianos que foram raptados nas áreas ocupadas do sudeste do país nos últimos meses e depois sugados para a máquina de propaganda do Kremlin. Algumas das suas páginas nas redes sociais foram utilizadas para promover argumentos-chave pró-Kremlin, enquanto outras apareceram em entrevistas televisivas encenadas em apoio à guerra do Presidente russo, Vladimir Putin.

Em conversa com a CNN numa videochamada encriptada, Kurayan diz que os soldados russos alternaram entre torturá-lo para obter informações - torcendo-lhe os dedos com um alicate e espancando-o com um cassetetetete - e utilizar o seu iPhone para aceder às suas contas nas redes sociais, partilhando imagens que o retratavam como um traidor heróico. "Começaram a usar estas fotografias para fazer o jogo deles", conta Kurayan, acrescentando que os seus captores lhe mostraram como estavam a sequestrar as suas contas, provocando-o. "Usaram o meu Facebook, o meu Instagram, e o TikTok, que eu não tinha, criaram lá uma página".

"Os russos propuseram-me trair a Ucrânia, cooperar com eles. Primeiro queriam mostrar 'olhem, aqui está um patriota, e ele traiu o seu país'", acrescenta Kurayan, descrevendo como os seus captores tinham articulado o arco da sua estratégia utilizando as suas redes sociais. "Eles disseram, 'tu és uma pessoa muito famosa em Kherson ... queremos tornar-te presidente da câmara'".

A CNN contactou o TikTok para comentários sobre a conta criada com o nome de Kurayan, que ainda está ativa. Nada foi publicado desde 24 de abril, quatro dias antes da sua libertação.

"Começaram a utilizar estas fotografias para fazer o jogo deles ... Usaram o meu Facebook, o meu Instagram, e o TikTok, que eu não tinha, criaram lá uma página".

Igor Kurayan, que foi raptado por soldados russos

À medida que a guerra na Ucrânia se prolonga, a batalha pelos "corações e mentes" está a entrar numa nova fase. Moscovo está a deslocar a sua estratégia de um nível nacional para um nível local, tentando levar os ucranianos que vivem em territórios ocupados para o lado da Rússia. Mas depois de se ter esforçado para encontrar colaboradores disponíveis, tem recorrido a novas táticas.

"No início, na fase blitzkrieg, a máquina de propaganda russa estava a trabalhar a nível nacional - agora que estes esforços são localizados, estão a tentar convencer as populações locais, particularmente nas áreas ocupadas, de que a Ucrânia as abandonou", explica à CNN Mykola Balaban, diretor-adjunto do Centro de Comunicações Estratégicas e Segurança da Informação (Centro Stratcom UA) do Ministério da Cultura e Política de Informação da Ucrânia.

"No caso de Igor e de muitos outros, eles usam estes conteúdos também dentro da Rússia, para mostrar, 'olhem este ucraniano, ele era um ativista pró-Ucraniano, mas agora ele compreende, nós mostramos-lhe qual é a situação real e agora ele é pró-russo, compreende aquilo por que estamos a lutar'".

Entretanto, o Kremlin acusou repetidamente o Ocidente de divulgar falsidades, tendo o embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, afirmado em maio que os países que se autodenominam uma "comunidade de democracias" estavam a construir um "ciber-totalitarismo" e, juntamente com gigantes tecnológicos como a Meta, assinalado qualquer ponto de vista alternativo como "propaganda".

A guerra de informação de Putin mudou

Mais do que qualquer outro país, a Ucrânia sofreu as consequências da chamada "guerra híbrida" da Rússia - uma mistura insidiosa de campanhas de desinformação, ataques cibernéticos e combates terrestres. Desde a revolução Euromaidan em 2014, que transformou a paisagem política e a sociedade da Ucrânia, estreitando os laços com o Ocidente, este tem sido o principal alvo de Moscovo.

A Internet Research Agency (IRA), a famosa fábrica de trolls ligada ao Kremlin, que provocou a discórdia nas eleições presidenciais americanas de 2016, utilizou a Ucrânia como um banco de ensaio para as suas táticas durante anos. Mas, após revelações de interferência russa nas eleições, gigantes tecnológicos como o Facebook e o Twitter intensificaram os esforços para reprimir a atividade não-autêntica coordenada.

Como resultado, a Rússia tem vindo a confiar cada vez mais no que os especialistas chamam "branqueamento de informação", legitimando narrativas falsas ou duplicadas através de uma rede de atores, jornalistas, activistas e outros representantes pró-Kremlin - numa prática conhecida em ucraniano como "dzhynsa" (uma referência a dinheiro guardado num bolso das calças de ganga para negócios ilícitos).

Desde a invasão da Rússia, os hackers invadiram contas das redes sociais e redes de telecomunicações de fontes de confiança na Ucrânia - funcionários governamentais, meios de comunicação social, soldados e civis ucranianos - para espalhar mensagens falsas de que as tropas ucranianas se estavam a render e, mais amplamente, para semear a confusão. A Meta, empresa-mãe do Facebook, disse em abril que tinha ligado uma campanha dirigida a oficiais militares ucranianos a um grupo de hackers patrocinado pelo Estado na Bielorrússia, conhecido como Ghostwriter. E disse também que os seus sistemas haviam detetado e frustrado tentativas de uma rede ligada ao IRA de regressar ao Facebook.

"Eles podem capturar pessoas reais e fazer o que quiserem com as suas redes sociais, este espelho social desta pessoa real".
Mykola Balaban, diretor-adjunto do Centro Stratcom UA

Os governos também estão a reagir. Em maio, uma investigação financiada pelo Reino Unido alegou que uma nova fábrica russa de trolls, alegadamente a operar a partir de uma fábrica de armas em São Petersburgo - com ligações suspeitas ao Yevgeny Prigozhin, um aliado chave de Putin e o homem que se acredita estar por detrás do IRA -, estava a piratear discussões nas plataformas sociais, incluindo o Facebook, o Twitter e o TikTok, a visar as contas de líderes mundiais e a promover mensagens a favor da guerra. O governo britânico disse ter alertado as plataformas para a atividade, e que as provas ajudariam a erradicar operações de influência russa.

Contra este pano de fundo, a Rússia tem de encontrar novas estratégias. Agora as suas forças estão à procura de pessoas reais para promover as suas narrativas - quer elas estejam dispostas a fazê-lo ou não.

"Podem capturar pessoas reais e fazer o que quiserem com as suas redes sociais, este espelho social desta pessoa real", disse Balaban, que tem vindo a seguir as estratégias de desinformação da Rússia há anos - primeiro como historiador, depois como soldado e agora como funcionário governamental. "Claro que, quando se fala de recursos, é muito mais caro e complicado, porque são necessárias pessoas especiais para trabalhar com estes cativos, como Igor Kurayan, não é tão simples como contas falsas e fábricas de bots".

O Centro Stratcom UA de Balaban colabora de perto com grupos de verificação de factos e da sociedade civil para acompanhar as contas sociais dos ucranianos em risco de rapto, operações de influência e pirataria informática. Como parte deste trabalho, o centro gere também uma base de dados de fontes oficiais ucranianas, que partilha regularmente com a Meta e outras redes sociais, para fins de monitorização.

A CNN identificou pelo menos cinco ucranianos raptados cujas contas no Facebook foram utilizadas para divulgar mensagens de apoio à guerra da Rússia, ou apareceram eles próprios em vídeos de propaganda partilhados através de redes sociais. Todos eram figuras públicas - destacados ativistas locais, funcionários e veteranos. Todos, excepto Kurayan, continuam desaparecidos, de acordo com os seus amigos e familiares.

Os casos, embora preocupantes, não parecem constituir uma tendência, de acordo com a Meta.

A empresa anunciou várias funcionalidades de segurança para utilizadores na Ucrânia, em resposta à guerra, e encorajou aqueles que provavelmente serão visados a instalar autenticação de dois factores.

"Os média russos são 100% mentira"

No fim de contas, a propaganda russa salvou Kurayan.

Depois de ter sido transferido de uma cave em Kherson para um quartel em Sebastopol, na Crimeia, Kurayan foi filmado numa reportagem sobre prisioneiros de guerra ucranianos. Nela, ele aparece por um momento, sentado entre outros prisioneiros reunidos numa sala a ver televisão estatal russa. Muitos evitam olhar para a equipa de filmagem, alguns com a cabeça nas mãos.

As filmagens foram transmitidas em vários canais russos, incluindo a NTV estatal, que descreveu as "boas condições" no quartel e afirmou que os prisioneiros "querem que a guerra acabe, que se viva em paz".

Dias mais tarde, numa cena surreal, Kurayan disse que estava na mesma sala de exibição quando se viu a si próprio a aparecer no ecrã. "Quando estava em Sebastopol, via estes canais russos, éramos forçados a vê-los. Toda a informação dos média russos é 100% mentira", diz. "Mas graças a esta reportagem fui libertado".

Alguns dos familiares de Kurayan na Transnístria, região separatista na fronteira da Moldávia com a Ucrânia, que é aliada da Rússia, reconheceram-no nas filmagens, tiraram uma fotografia e enviaram-na à sua filha, Karyna.

"Vimos o pai lá, e compreendemos exatamente onde ele estava. Depois, recolhi todo o material, capturas de ecrã (das redes sociais), tudo o que tinha, toda a informação, e enviei-a para a linha direta (prisioneiro de guerra)", conta Karyna à CNN. Depois de dias de silêncio, o seu telefone tocou. Era a vice-primeira-ministra ucraniana, Iryna Vereshchuk, que na altura tinha a responsabilidade de negociar trocas de prisioneiros, que estava a telefonar para dizer a Karyna que o seu pai estava a ser libertado, diz. "Nunca estive tão feliz", acrescenta ela.

A CNN contactou o gabinete de Vereshchuk, assim como a Direção Principal de Inteligência, que gere agora as trocas de prisioneiros, e o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), que gere a linha direta, para obter comentários. A SBU disse à CNN, numa declaração, que não podia comentar casos específicos.

Antes do início da guerra, o governo dos Estados Unidos advertiu numa carta às Nações Unidas que tinha "informação credível" de que as forças russas tinham compilado uma lista de cidadãos ucranianos, incluindo ativistas e jornalistas, para serem raptados e torturados, ou mortos.

Por esta razão, muitas pessoas que vivem em territórios ocupados não saem de casa com os seus telefones pessoais, utilizando, em vez disso, e sempre que possível, dispositivos pré-pagos. Kurayan não tinha o seu iPhone com ele quando foi raptado, mas após dias de tortura, conta, disse aos seus captores onde ele estava escondido.

"Os militares russos tentam obter o controlo dos dispositivos (de ativistas, influenciadores locais, figuras públicas) para verificar as suas contas nas redes sociais, eles veem o valor disso... para ver o que as pessoas estão a publicar, para ver o quão influente ele ou ela pode ser, mas também para verificar a identidade", disse à CNN Yevhen Fedchenko, co-fundador e editor-chefe da proeminente organização ucraniana de verificação de factos StopFake.

"Os militares russos tentam obter o controlo dos dispositivos, verificar as suas contas nas redes sociais, eles veem o valor disso... para ver o que as pessoas estão a publicar, para ver o quão influente ele ou ela pode ser".
Yevhen Fedchenko, co-fundador da StopFake

"Sei que estou na lista de procurados deles. Se conseguirem apanhar-me, usar-me-ão para os mesmos fins, para disseminar propaganda... ou apenas para ser eliminado", acrescentou.

Para Fedchenko e outros na linha da frente da guerra de informação da Rússia, a estratégia do Kremlin não é nada de novo. O vácuo de informação e o clima de medo criado nos territórios ocupados é uma tática de Moscovo utilizada em 2014, quando anexou a Crimeia e fomentou uma guerra no leste da Ucrânia.

Mas, desta vez, os ucranianos fortaleceram-se contra estas tácticas - prontos para denunciá-las ou mesmo para combatê-las online.

Quando Kurayan recuperou o controlo das suas contas nas redes sociais e começou a examinar as mensagens, foi desconcertante ler o que os seus captores tinham escrito, fazendo-se passar por ele. Mas, diz, ao analisar os comentários, tornou-se claro quão ineficaz era a estratégia deles.

"Li como os meus amigos reagiram a estes vídeos. E eles comentaram-nos imediatamente, sabendo que eram os russos", diz ele, rindo. "Eles perceberam que não era eu".

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