A Ucrânia olha ansiosamente para a sua fronteira a norte. O que vai fazer a Bielorrússia?

CNN , Análise por Tim Lister
21 out, 22:00
O Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky e o líder bielorrusso Alexander Lukashenko.

O anúncio feito na semana passada pelo Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, de que o seu país e a Rússia formariam uma força regional conjunta e realizariam exercícios, fez soar os alertas em Kiev.

Da última vez que as forças bielorrussas e russas realizaram exercícios conjuntos, em fevereiro, muitas dessas forças russas atravessaram a fronteira ucraniana na sua malfadada marcha rumo à capital.

Não é que a Bielorrússia tenha um exército poderoso. Mas a perspetiva de a longa fronteira norte da Ucrânia se tornar uma passagem para as forças russas pela segunda vez este ano seria um pesadelo para as forças ucranianas, já tão pressionadas. A Ucrânia e a Bielorrússia partilham uma fronteira de 1000 km, grande parte dela pouco povoada e com floresta densa.

O primeiro grupo de soldados russos a juntar-se à nova força com tropas bielorrussas chegou à Bielorrússia no sábado, informou o Ministério da Defesa de Minsk. No total, o contingente russo será de menos de 9000 pessoas, de acordo com o chefe do Departamento de Cooperação Militar Internacional da Bielorrússia, Valery Revenko.

Neste momento, o exército ucraniano está a conduzir ofensivas no leste e sul, enquanto afasta as forças russas nalgumas zonas de Donetsk e Zaporizhzhia.  Após sete meses de guerra, os militares ucranianos sentiram os efeitos do desgaste, tal como o seu inimigo: ao moverem as suas forças para defender o flanco norte, desgastariam as forças que já combatem em várias frentes.

Tal como esperado, a Bielorrússia diz que a força conjunta é puramente defensiva. O ministro da Defesa, Viktor Khrenin, disse que "todas as atividades realizadas neste momento visam dar uma resposta adequada às atividades perto das nossas fronteiras".

Essas atividades, segundo a Bielorrússia, visam impedir os preparativos ucranianos para atacar o país. Lukashenko disse na semana passada que o seu Governo tinha sido "avisado sobre os ataques contra a Bielorrússia a partir do território da Ucrânia".

Na sexta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Vladimir Makei, disse que estava em curso uma operação antiterrorista, "entre outros relatos de provocações iminentes por parte dos Estados vizinhos". 

A Ucrânia negou veementemente as alegações. O Ministério dos Negócios Estrangeiros disse que "rejeita categoricamente estas últimas insinuações do regime bielorrusso. Não podemos excluir a hipótese de que esta nota diplomática possa fazer parte de uma provocação por parte da Federação Russa."

O Presidente Volodymyr Zelensky disse numa reunião do grupo G7, na semana passada, que deviam ser enviadas forças de manutenção de paz da ONU para a fronteira.

"A Rússia está a tentar atrair diretamente a Bielorrússia para esta guerra”, disse Zelensky ao G7.

Certamente, tem havido muito mais movimentação de material militar nos caminhos de ferro da Bielorrússia. Vídeos nas redes sociais mostraram várias colunas de tanques e outros equipamentos a deslocarem-se por todo o país. As inscrições numa das colunas eram da região militar de Moscovo.

Os analistas acham provável que grande parte deste material pertença à Rússia e esteja a ser recuperado em ações na Bielorrússia, para compensar as perdas que as forças russas sofreram na Ucrânia, sobretudo no mês passado.

Menos provável é que este espasmo de atividade indique que a Bielorrússia se prepara para entrar no conflito. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, disse na semana passada que os EUA não tinham visto indícios de que as tropas bielorrussas "se preparam para entrar ou vão entrar (...) Quaisquer tropas adicionais sob o comando russo serão motivo de preocupação para nós, mas ainda não chegámos a esse ponto."

Apesar da retórica muitas vezes bombástica, Lukashenko não comprometeu as suas forças com a Operação Militar Especial da Rússia, e a maioria dos analistas acredita que mesmo que o fizesse, pouca diferença faria.

Konrad Muzyka, analista independente de defesa da Polónia, segue de perto as Forças Armadas bielorrussas e acredita que são "relativamente fracas".

Muzyka disse no Twitter: "As Forças Armadas bielorrussas são em grande parte uma força de mobilização. Têm como efetivos cerca de 50-60% das forças necessárias em tempo de paz."

Para atingir o seu pleno potencial, teriam de mobilizar pelo menos 20 mil homens, acrescentou Muzyka.

Este seria um sinal de alerta. Mas Lukashenko repetiu na semana passada que a Bielorrússia não tencionava anunciar qualquer mobilização.

Ao contrário das forças russas, as Forças Armadas bielorrussas raramente realizam exercícios acima do nível do batalhão. Mas tem havido um elevado nível de exercícios este ano; e foi anunciado outro na semana passada.

Serhii Naiev, comandante das Forças Conjuntas da Ucrânia, disse na semana passada: "Esta é mais uma demonstração da sua prontidão e é um aumento artificial do nível de tensão."

O analista Muzyka imagina três cenários: os exercícios são concebidos para se prepararem para um ataque dos estados da NATO; querem prender as forças ucranianas ao longo da fronteira; ou são preparativos para um ataque à Ucrânia.

O primeiro cenário não vai acontecer; a última opção seria imensamente impopular na Bielorrússia, onde não existe o nível de animosidade em relação à Ucrânia que foi instigado na Rússia.

Mas é do interesse de Moscovo que os ucranianos se preocupem com a sua fronteira norte, até pela proximidade com Kiev.

Naiev diz que a Bielorrússia já é importante para preparar os mísseis russos.  A Ucrânia estima que existam quatro sistemas de mísseis balísticos e 12 sistemas terra-ar S-400, e alguns drones de produção iraniana chegaram pelo Norte na semana passada. Começaram também a chegar mais aviões de combate russos à Bielorrússia, de acordo com o Ministério da Defesa bielorrusso.

 As autoridades ucranianas estimam que neste momento existam cerca de 1000 soldados russos na Bielorrússia. Mas se este número aumentasse, "isso criaria uma ameaça de ofensiva repetida na zona operacional do Norte, em particular na cidade de Kiev”, disse Naiev.

Apesar da recente mobilização parcial na Rússia, o Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), sediado nos EUA, acredita que os militares russos são, neste momento, incapazes de formar outra falange para atacar a Ucrânia a partir do Norte.

"As forças russas continuam a desgastar as suas próprias capacidades de   combate, sabotando-se a elas próprias, nas tentativas de capturar pequenas aldeias no Donbass. E simplesmente não têm as tropas mecanizadas eficazes em combate disponíveis para complementar uma incursão bielorrussa no norte da Ucrânia", disse na sexta-feira o ISW.

Lukashenko tem pisado uma linha ténue ao longo do conflito – apoiando a "operação militar especial” do Presidente russo Vladimir Putin, sem comprometer as suas próprias tropas.

Na semana passada, disse: "Estamos a participar (na operação). Não o escondemos. Mas não estamos a matar ninguém. Não vamos mandar os nossos militares para lado nenhum. Não violamos as nossas obrigações."

Contudo, a sua margem de manobra pode estar a diminuir. Os protestos em massa, após a sua disputada reeleição em 2020, deixaram Lukashenko cada vez mais dependente de Moscovo. À medida que a necessidade do Kremlin de ter algumas "vitórias" na Ucrânia se torna mais urgente, o seu aliado para o Ocidente pode estar sob crescente pressão para colaborar.

Mas, ao mesmo tempo, Lukashenko quererá evitar o risco de as suas tropas inexperientes serem cilindradas na Ucrânia, uma vez que ele está vulnerável a mais agitação interna, se as suas forças de segurança estiverem desatentas ou fragilizadas.

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