Ultranacionalistas russos criticam o Kremlin por tentar negociar com a Ucrânia

CNN Portugal , MJC
30 mar 2022, 17:30
Tropas russas na Ucrânia (AP Images)

"Pedimos ao presidente que nos permita pôr fim ao que ele começou”, disse o líder checheno Ramzan Kadyrov. A ala mais nacionalista não aceita que se façam acordos com os ucranianos

“Queridos amigos. Li em diferentes canais do Telegram que a Ucrânia ganhou, a Rússia está a recuar e haverá negociações. Somos lutadores e não concordamos com essas negociações, nem com os seus acordos." Estas foram as palavras do líder checheno, Ramzan Kadyrov, num vídeo gravado na terça-feira à noite e no qual aquele que tem sido um dos grandes defensores da campanha pela "libertação da Ucrânia" pede a Putin que não faça acordos: "Pedimos ao governo, ao presidente, que nos permita pôr fim ao que ele começou”, disse na sua mensagem.

“Devemos completar o que começámos, não parar. Temos que chegar a Kiev. Tenho certeza de que entraremos em Kiev e colocaremos as coisas em ordem”, disse Kadyrov também na terça-feira num grande comício militar em Grozny. Assim que soube dos avanços nas negociações, o líder checheno endureceu o tom. “Na Ucrânia há terroristas e extremistas de 52 países. Enquanto houver bandidos, nazis ou combatentes do shaitan islâmico [espírito maligno], a Ucrânia não poderá ter uma vida normal. Ou os destruímos ou aprisionamo-los para o resto da vida.”

E não é só Kadyrov a pensar assim. Existem dois grupos principais de lobby em volta do Kremlin. Um é formado pelos liberais e oligarcas, mais abertos ao Ocidente e cautelosos com a guerra devido às duras sanções impostas, e o outro é formado pela ala mais nacionalista. Quando Vladimir Putin ordenou às suas tropas que "desnazificassem" toda a Ucrânia, a 24 de fevereiro, os ultranacionalistas foram dos mais entusiastas com a guerra, celebrando o momento em que, finalmente, poderiam pegar em armas e defender o "mundo russo". Depois de tudo o que foi dito para justificar a guerra, eles têm agora dificuldade em compreender um eventual acordo.

O sociólogo de extrema-direita Alexánder Dugin é um das figuras mais relevantes desse setor. Uma das referências ideológicas de Putin, um acérrimo defensor de que a Rússia é uma civilização com um projeto eurasiático contra o bloco ocidental e os seus valores, mostrou a sua desilusão nesta terça-feira, como fez em 2015, por não se ter avançado em toda a Ucrânia na então guerra de Donbass.

"Entendo a preocupação de todos, mas Kadyrov fala não apenas em seu nome, não em nome de todos os chechenos, não em nome de todos os soldados, não em nome de nosso povo, mas também em nome do Supremo Comandante-em-Chefe [Putin]”, escreveu o Dugin no seu canal Telegram. “Este é apenas o início da operação (...) Temos que ter coragem. E ir para a frente, só para a frente”, frisou.

Menos claro é o coronel Igor Girkin Strelkov, ex-membro do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), a ex-KGB, que liderou uma operação secreta em Donbass em 2014. O ex-ministro da Defesa da República Popular de Donetsk foi muito crítico num debate no canal Roi TV: “No Kremlin, há muitos que se propõem a render-se, mas isso é impossível. Qualquer abrandamento será um passo para a capitulação. Como aconteceu com os protocolos de Minsk, Kiev assinará e não cumprirá nada", disse.

“As Forças Armadas russas sofreram sérias perdas. Não conseguiram tomar Kiev, não conseguiram tomar Kharkov, e durante várias semanas não conseguiram tomar Mariupol, e a Europa está a a assistir a tudo isto. Onde está o terceiro maior exército do mundo, depois dos EUA e da China?", alertou Strelkov após afirmar que Moscoco tem duas opções: a mobilização massiva de tropas e fábricas de armas, ou uma trégua que, em sua opinião, permitirá que a Ucrânia se rearme. "Acho que o Kremlin ainda não tomou uma decisão", disse, depois de defender que se deveria chamar "os reservistas, 200 mil homens ou mais, porque mobilizar menos e enfrentar um inimigo armado com um arsenal de alta qualidade seria um absurdo".

Outro dos promotores da primeira ofensiva de 2014 foi o empresário ultraortodoxo Konstantin Malofeyev, outra das vozes nacionalistas do Kremlin. O seu canal, Tsargrad TV (Constantinopla, em eslavo antigo), colocou na sua página web a manchete “Russos, não traiam os russos”.

“Os resultados das negociações de Istambul com os representantes da junta de Kiev chocaram milhões de russos. É estúpido, uma traição, ou pior ainda, um erro?", começava o artigo onde tentava perceber "se o povo russo está preparado para se render". De qualquer forma, alertava que "é muito cedo para pôr fim à operação especial na Ucrânia".

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