Rússia recuperou destroços do drone americano que caiu no Mar Negro? É que os Estados Unidos não

15 mar 2023, 13:46

Casa Branca diz que drone intercetado por aviões russos caiu em águas profundas e é pouco provável que seja recuperado. Mas há quem tema os esforços russos para recuperar o MQ-9 Reaper, que custa cerca de 30 milhões de dólares e terá reunido informação altamente sensível

"Que seja do meu conhecimento, nesta altura, os russos não recuperaram a aeronave". As declarações, do brigadeiro-general Patrick Ryder, porta-voz do Pentágono, foram feitas na tarde de terça-feira, horas depois de se ter tornado público que os Estados Unidos tinham feito cair um drone MQ-9 Reaper norte-americano em águas internacionais ao largo da Crimeia, em consequência da colisão com um avião de combate russo. 

Mas, até ao momento, a dúvida permanece: terão os russos conseguido recuperar o sofisticado drone norte-americano? O Pentágono não revelou o local exato da queda da aeronave não tripulada, avaliada em cerca de 32 milhões de dólares e que contém da mais avançada tecnologia do país - que, certamente, Washington não quererá ver cair no colo de Moscovo. Em declarações à CNN Internacional, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, John Kirby, disse apenas que os Estados Unidos não recuperaram o drone do Mar Negro, sem comentar ações do lado rival e sem entrar em detalhes, acrescentando que está a ser ponderada a divulgação de imagens da ocorrência. "Não tenho a certeza que sejamos capazes de recuperá-lo. Caiu em águas muito, muito profundas. Ainda estamos a analisar se poderá haver algum esforço de recuperação. Pode não haver", declarou.

Segundo a BBC, circulam áudios nas redes sociais que revelam que a marinha russa desencadeou mesmo uma operação para recuperar os destroços do drone, atingido na hélice. No Twitter, por exemplo, escreve-se que Moscovo terá conseguido recuperar o motor, o depósito de combustível e partes da fuselagem do drone e até há quem admita que o grande objetivo dos caças russos que intercetaram o veículo não tripulado foi precisamente este, numa tentativa de se apropriarem da tecnologia norte-americana. Ainda na semana passada, a CNN Internacional citava fonte dos serviços secretos norte-americanos que revelava que as armas capturadas pelos russos na Ucrânia estavam a ser enviadas por Moscovo para o Irão, onde são desmanteladas com o objetivo de serem copiadas.

O tenente-coronel Alexander Vindman, reformado do exército norte-americano e que liderou as políticas para a Ucrânia durante a administração Trump, admitiu preocupação com a possibilidade de a Rússia poder recuperar e "explorar" o drone: no Twitter, escreveu que as forças de Moscovo poderiam estar melhor posicionadas para recuperar a aeronave não tripulada e assim ter acesso à sua tecnologia. 

Vindman também defende que o incidente foi, "provavelmente", causado por um erro do piloto em favor dos russos e que a Rússia obrigou assim os EUA a neutralizarem um drone dispendioso e eficaz. "A Rússia vai interpretar a falta de resposta como um convite a continuar o mau comportamento", sublinhou.

Drones usados para missões de espionagem

O drone Reaper e dois aviões russos Su-27 voavam sobre águas internacionais do Mar Negro quando um dos caças russos, de acordo com fonte militar dos EUA, se colocou propositadamente na frente do drone e largou combustível sobre ele várias vezes. Depois, atingiu a hélice da aeronave não tripulada, obrigando as forças dos EUA que o comandavam a fazê-lo cair no mar, ainda em águas internacionais.

O porta-voz do Pentágono revelou entretanto que os aviões russos voaram junto do drone durante cerca de 30 a 40 minutos antes da colisão, que aconteceu ao início da manhã de terça-feira, pelas seis da manhã de Lisboa. Os Su-27 terão aterrado depois numa base aérea na Crimeia, um deles provavelmente danificado após o choque com o drone, pelo que a colisão, admitem as forças norte-americanas, poderá mesmo não ter sido intencional. O porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos revelou mesmo que, nas últimas semanas, russos e norte-americanos se intercetaram em voo em várias ocasiões. Mas esta vez foi diferente. 

"A nossa aeronave MQ-9 estava a conduzir operações de rotina em espaço aéreo internacional quando foi intercetada e atingida por uma aeronave russa", informou em comunicado o general James B. Hecker, comandante da Força Aérea norte-americana para a Europa e África, acrescentando que a colisão resultou na "perda total" do drone. "Na realidade, este ato inseguro e pouco profissional dos russos quase fez despenhar ambas as aeronaves", sublinhava a declaração, citada pela CNN Internacional. 

E o que fazia um drone Reaper sobre o Mar Negro? Segundo a imprensa internacional, estes drones altamente sofisticados são usados pelos EUA na região do Mar Negro apenas para vigilância e recolha de dados, ainda que possam disparar mísseis. Em resumo, fazem missões de espionagem determinantes para fornecer informações às forças da NATO e da Ucrânia, possibilitando a Kiev antecipar movimentações do inimigo. 

O MQ-9 Reaper é produzido pela norte-americana General Atomics e é operado remotamente por uma equipa de duas pessoas, uma das quais responsável por pilotá-lo e outra por operar os sensores e guiar as armas. Tem 11 metros de comprimento e 22 de envergadura e a Força Aérea norte-americana, segundo o The Guardian, admite mesmo que a sua função primária é a de recolha de informação classificada, ainda que realce a sua "capacidade única" para realizar ataques de precisão. 

Um drone Reaper consegue transportar 16 mísseis Hellfire e, como outros veículos aéreos não tripulados, é capaz de voar a altitudes de 15 quilómetros (50 mil pés) e sobrevoar alvos durante 24 horas, tornando-se essenciais em missões de monitorização e vigilância. No ano passado, a imprensa norte-americana avançou que a Força Aérea dos EUA estaria a considerar vender os modelos mais antigos dos drones Reaper à Ucrânia, mas que as preocupações com a transferência de tecnologia altamente sensível e a possibilidade de alguns drones serem abatidos levou a que não houvesse avanço nas negociações. 

Os Estados Unidos são, de momento, os maiores compradores do mundo dos drones Reaper - adquiriram 366 desde 2007, refere o Guardian, citando números do Congresso americano. A Força Aérea do Reino Unido conta neste momento com nove drones ativos, tendo já encomendado mais, refere também o diário britânico. 

Kremlin diz que relações com EUA estão num "estado lastimável"

Já esta quarta-feira, o porta-voz do Kremlin revelou aos jornalistas que não houve contactos de alto nível entre Moscovo e Washington na sequência do incidente com o drone norte-americano no Mar Negro. Dmitry Peskov disse ainda que as relações entre Rússia e Estados Unidos estão num "estado lastimável" e no seu nível mais baixo, depois de Washington ter acusado Moscovo de ter provocado a queda do drone que sobrevoava águas internacionais, mas garantiu que a Rússia não recusa um diálogo construtivo. 

Horas antes, o embaixador russo nos Estados Unidos, Anatoly Antonov, pedira a Washington que parasse os voos "hostis" perto da fronteira do seu país. "Consideramos qualquer ação com o uso de armamento dos EUA como abertamente hostil", referiu o diplomata, citado pela AFP. 

Moscovo recusa que tenha havido uma colisão com os seus aviões de combate e garante que o drone americano caiu depois de "manobras perigosas", tendo voado de forma provocadora e "deliberadamente" perto do espaço aéreo russo com os transponders desligados - dispositivos que permitem a identificação e comunicação das aeronaves.

"A atividade inaceitável do exército dos EUA na proximidade das nossas fronteiras é causa de preocupação", declarou ainda Antonov em comunicado, acusando Washington de usar os drones para reunir informação confidencial que seria depois usada pelo regime de Kiev para atacar as forças armadas russas.

A Ucrânia, por seu lado, salientou que o incidente mostra que Moscovo está disponível para "aumentar a zona de conflito" e arrastar outros países para a guerra. O secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional de Kiev, Oleksiy Danilov, escreveu no Twitter que Moscovo está a subir a parada porque está perante uma "derrota estratégica".

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