Maria João Tomás começou a reunir voluntários para ensinar português a refugiados ucranianos. Recebeu mais de 12 mil candidatos

15 mar, 12:30

O movimento nasceu na Junta de Freguesia de Arroios e estendeu-se para todo o país. Porque de Portugal inteiro chegaram voluntários dispostos a ensinar a língua portuguesa a quem foge da guerra. As primeiras turmas devem arrancar nas próximas semanas. Até lá, há muito que triar e organizar

Maria João Tomás mal queria acreditar quando viu a caixa de email a encher-se, quase de um momento para o outro. Porque dela veio a ideia de reunir professores voluntários para ensinar português aos refugiados ucranianos que começam a chegar ao país.

“Houve alguém que disse que estávamos a precisar de professores de português para ajudar os ucranianos. Puseram lá o meu email pessoal. Chego a ter mais de 12 mil, 13 mil emails. Estou a fazer a triagem entre aqueles que são professores de português e aqueles que, não sendo professores, estão a querer ajudar. Este é o primeiro passo”, conta.

O trabalho está a ser feito a partir da Junta de Freguesia de Arroios, em Lisboa, onde Maria João Tomás é responsável pela área da interculturalidade. Há muito que na freguesia com mais diversidade da capital se ensina o português a migrantes. Mas a guerra na Ucrânia veio tornar esta solução algo mais premente, até porque em Arroios moram mais de 400 ucranianos, que servirão de ligação a quem chega.

Uma ajuda tão grande, que ninguém estava à espera

“É muito bonito vermos isto, a nossa sociedade a mexer-se e a querer ajudar. Chegam-me professores dos Açores, da Madeira, do Porto, de Braga, de Aveiro. Ontem até me chegou um do Brasil”, conta Maria João Tomás, que também é professora universitária.

Com tanta ajuda, por agora não são precisos mais voluntários. O trabalho em curso é o de perceber onde estão os que já mostraram essa vontade, arranjar parceiros locais, criar redes. E depois, sim começar as aulas.

Em Lisboa, o Liceu Camões vai abrir oito turmas. Já existem inscrições, entre nomes vindos de particulares que estão a acolher refugiados e associações a trabalhar diretamente com a comunidade ucraniana. Mas, antes de tudo, urge garantir que os alunos estão em condições para começar a aprender.

“Estamos a falar de pessoas que vêm de cenários de guerra, e que a primeira coisa que vão precisar é de estar em segurança. Só depois é que vão começar as aulas. Penso que dentro de uma semana ou duas já podemos começar com os que vieram em primeiro lugar”, explica a organizadora.

Lição número um: força de vontade

Saber a língua portuguesa é um passo determinante para a integração em Portugal. O nível A1 permite o acesso ao mercado de trabalho. O nível A2 facilita o acesso à nacionalidade, se for essa a vontade de quem se instala em Portugal.

E não é preciso saber qualquer língua franca, como o inglês, para dar os primeiros passos. “Nas aulas que temos com refugiados afegãos, tivemos refugiados que não sabem ler ou escrever na língua do país natal. Mas já começaram a ler e a escrever na língua portuguesa”, orgulha-se Maria João Tomás. Nestes casos, há 25 horas dedicadas ao ensino do alfabeto.

A onda de solidariedade é tamanha que já está a justificar alterações à lei. Assim, o curso será certificado sem a necessidade de abrir um concurso público para escolher os professores que o ministram. Acelera-se o processo. Porque aqui todos são voluntários. E a única coisa que esperam em troca é a oportunidade para quem foge à guerra de começar de novo. Sejam da Ucrânia, do Afeganistão, da Síria ou de qualquer outra parte do mundo.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados