A teia de ligações a Putin de associações que estão a acolher refugiados ucranianos em Portugal

16 abr, 08:00
Vladimir Putin discursa à nação sobre tensão com a Ucrânia (Alexei Nikolsky via AP)

Colaboravam com a Fundação Russkiy Mir, criada pelo presidente russo, participaram em eventos organizados pela agência de propaganda do Kremlin e já foram a Moscovo ouvir Putin a discursar. Quem são os líderes das quatro associações de apoio aos que fogem da guerra e que a embaixada da Ucrânia acusa de estarem a colaborar com Moscovo

Um russo que a embaixadora da Ucrânia diz trabalhar para a Câmara Municipal de Setúbal (que nega), uma professora da mesma nacionalidade que trabalha na escola eslava, em Lisboa, e duas ucranianas, uma tradutora e uma ex-empregada de limpeza.

Os quatro lideram as associações que a embaixadora da Ucrânia em Portugal, Inna Ohnivets, acusa de serem pró-russas e de estarem mesmo assim a acolher refugiados da guerra colocando em causa a sua segurança e a dos seus familiares que estão a lutar na linha da frente.

As teias de ligação destas associações ao Kremlin e ao governo de Putin, que a diplomata garante existirem, constam de um documento que está nas mãos das secretas portugueses. Foi enviado à secretária-geral do SIRP, pelo presidente da associação dos ucranianos em Portugal, Pavlo Sadhoka.

Segundo aquela documentação a que a CNN Portugal teve acesso, estas quatro associações têm mantido ligações à fundação Russkiy Mir, criada por Vladimir Putin em 2007 para apoiar e divulgar a cultura e a língua russa no mundo. Fundação esta que desde que começou a guerra, tem feito várias publicações a respeito da “necessidade de desnazificar a Ucrânia”. Também o facto de três deles terem cargos no Conselho Coordenador de Compatriotas Russos em Portugal levanta suspeitas, segundo o documento.

 

Lyudmyla Bila e Igor Khashin na composição do Conselho Coordenador de Compatriotas Russos em Portugal em 2011. Yulia Gundarina viria a assumir a coordenação desse conselho em 2015 

 

Yulia Gundarina, a professora da escola eslava que lidera a Associação Mir, é desde 2015 presidente daquele conselho coordenador, que organiza eventos junto da embaixada russa. Já o alegado colaborador da autarquia, Igor Khashin, assumiu anteriormente esse cargo, e a tradutora Lyudmyla Bila era um dos elementos que integram esse organismo. Estes três dirigentes de associações que segundo a embaixada da Ucrânia estão a acolher refugiados, e ainda a ex-empregada de limpeza Nataliya Khmil, são, na documentação que foi enviada aos serviços secretos, alvo, cada um deles, de uma pasta com informação detalhada.

Sobre Igor Khashin, apoiante nas últimas eleições do candidato do PCP à Câmara Municipal de Setúbal, a informação dá conta que dirige a associação EDINSTVO - Associação dos Imigrantes dos Países de Leste, que é assumidamente russa. De Lyudmyla Bila destaca-se que está à frente da Associação Apoio ao Imigrante, tendo participado em vários eventos promovidos pela embaixada da Rússia.  Quanto a Khashin e Yulia Gundarina, da associação Mir, recorda-se que chegou a receber uma medalha da Ordem de Mérito pela instituição de cooperação internacional do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, pelo trabalho no desenvolvimento da cultura russa em Portugal. Quanto a Nataliya Khmil explica-se que lidera a associação AMIZADE, de Gondomar, e é a representante dos ucranianos do Alto Comissariado as Migrações, apesar de “cooperar com a embaixada da Rússia”. Aliás, o facto de todas estas quatro associações estarem registadas e reconhecidas no Alto Comissariado as Migrações como representantes da comunidade ucraniana em Portugal é que fez soar o alerta.

O assunto já foi, entretanto, comunicado pela embaixadora da Ucrânia ao governo, com o objetivo de retirar essas mesmas associações do chamado Colégio Eleitoral da comunidade ucraniana no Alto Comissariado para as Migrações,

As preocupações da embaixada com as ligações destas associações aos elementos de propaganda russa acentuaram-se quando começou a guerra. Um dos alertas surgiu pelo relacionamento que estas associações que operam em Portugal têm com a Fundação Russkiy Mir. No dia em que Putin ordenou a invasão da Ucrânia numa entrevista dada à Sky News por Vyacheslav Nikonov, presidente do Conselho de Administração da Fundação Russkiy Mir, justificou a movimentação militar da Rússia por “o exército ucraniano estar a balear cidadãos que estão a tentar fugir para a Rússia”. “O Ocidente acredita na sua própria propaganda, isso nunca aconteceria na Rússia”, respondeu Nikonov quando questionado sobre o medo que as comunidades ucranianas estarem a sentir por terem de abandonar as suas casas.

Para a embaixada da Ucrânia em Portugal esta ligação entre associações portuguesas e organismos ao serviço de Putin “é inaceitável”. No entanto, todas as relações e colaboração entre a fundação criada por Putin e aquelas quatro associações de apoio a imigrantes em Portugal, foram eliminadas da internet. O acesso ao site da Russkyi Mir está bloqueado em Portugal, uma situação que a embaixada e a associação dos ucranianos vêm como uma forma de esconder a “ligação com a Rússia”.

Para sustentar esta acusação nos documentos enviados às secretas, estão várias imagens retiradas do site da Fundação de Putin, dos últimos anos, que mostram a sua colaboração com as associações portuguesas.

Associação Apoio ao Imigrante e associação AMIZADE no catálogo de organizações pertencentes à Fundação Russkiy Mir

Há também, na documentação, várias fotografias, relatos de viagens e promoção de eventos que revelam toda a teia. Igor Khashin e Yulia Gundarina, por exemplo, foram convidados a ir a Moscovo para participar no 8.º Congresso de Compatriotas. No discurso de encerramento, foi mesmo Vladimir Putin quem subiu ao palco. “A russofobia e, lamentavelmente, outras formas de nacionalismo agressivo extremo estão em curso. Não há como esconder o facto de que existe uma guerra contra os memoriais e a língua russa na Ucrânia, nos países bálticos e em vários outros países”, disse o presidente da Federação Russa no encerramento do congresso. Para Pavlo Sadhoka não há dúvidas de que este momento “foi o sinal de que uma invasão de larga escala na Ucrânia estava a ser preparada”. “Este discurso foi uma forma de preparar, de forma ideológica e com a desculpa de que cidadãos e a cultura russa estavam em risco, a invasão da Ucrânia”, explicou à CNN Portugal.

Discurso de Vladimir Putin no Congresso Mundial de Compatriotas Russos, em 2018

 

Em representação de Portugal e ao lado de Igor Khashin, esteve também Yulia Gundarina, que criou a Associação MIR, fundada em 2004, e segundo o próprio Alto Comissariado para as Migrações, que lhe dedicou um espaço na sua revista interna em 2018, tem como objetivo o acolhimento de“ imigrantes russófonos”.  Já mais recentemente, no dia 15 de dezembro de 2019, a associação “Mir” de Gundarina, com o apoio da Fundação Russky Mir e da Embaixada da Rússia, organizou, na Escola Secundária de Camões em Lisboa, o concerto gala do III concurso internacional “Sonhos Coloridos – Sonhos Realizados”.  

Yulia Gundarina (Esquerda), juntamente com o embaixador russo em Portugal, Mikhail Kamynin na entrega de prémios do concurso internacional “Sonhos Coloridos – Sonhos Realizados”

No conjunto de documentação enviada pela Associação dos Ucranianos em Portugal ao Sistema de Informações da República Portuguesa, há ainda uma foto onde Lyudmyla Bila, presidente da Associação de Apoio ao Imigrante aparece ao lado direito de Vladimir Zhirinovsky,  o deputado ultranacionalista russo, que morreu este mês e que apoiou a invasão da Ucrânia, garantindo que o território e a população “são russos e sempre foram russos”. A fotografia foi tirada em outubro de 2008 no Congresso das Comunidades Compatriotas, em Moscovo, relevando que as ligações com o círculos, mais próximos do presidente russo têm longos anos.

Mas as denúncias sobre o enredo de contatos com a Rússia não ficam por aqui. A associação de ucranianos garante que estas quatro associações têm colaborado com uma agência de divulgação da cultura russa chamada Rossotrudnichestvo, que responde diretamente ao ministro dos Negócios Estrangeiros russo. E dá-se o exemplo de um convite a Lyudmyla  Bila que, em maio de 2012, foi uma das oradoras do Encontro de Professores de Língua Russa em Portugal - uma iniciativa que foi levada a cabo pela Rossotrudnichestvo. Mas tal como sucedeu com a Fundação Russkyi Mir da qual todas as quatro associações são filiadas, também todas as ligações no site da Rossotrudnichestvo foram eliminadas.

Em declarações à CNN Portugal, Nataliya Khmil confirma que esteve associada à fundação criada por Putin entre 2007 e 2015, mas garante que nunca recebeu nenhum apoio financeiro. Por outro lado, explicou que a sua colaboração com a Russkyi Mir e com a embaixada da Rússia em Portugal é estritamente ao nível “cultural, educativo e jurídico”.

“Não quero fazer política, nem da Rússia, nem da Ucrânia”, diz, acrescentando que se sente “perseguida” pela embaixada da Ucrânia e que diariamente tem entre 50 a 60 voluntários a trabalhar para acolher refugiados da guerra. Uma ação que deixa a embaixadora da Ucrânia desconfiada, como referiu numa entrevista exclusiva à CNN Portugal: “É uma grande surpresa que a senhora Khmil agora tenha decidido apoiar os refugiados ucranianos que chegaram a Portugal, porque eu não acredito na sua atitude sincera para com os ucranianos”. 

A CNN Portugal contactou também Lyudmyla Bila, que recusou, porém, comentar a ligação da associação que dirige aos órgãos que respondem diretamente a Vladimir Putin. Já os contatos feitos a Igor Khashin e Yulia Gundarina nunca obtiveram resposta.

Nota: notícia atualizada às 16:00 de sábado, 16 de abril de 2022, depois de fonte oficial da Câmara Municipal de Setúbal garantir que "Igor Kashin não é nem foi funcionário da Câmara Municipal de Setúbal", assim negando a informação constante nos documentos entregues às secretas portuguesas e citada pela embaixadora da Ucrânia. 

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