Embaixadora da Ucrânia teme pela segurança dos refugiados ucranianos em Portugal e alertou Governo sobre infiltrados pró-russos em organizações que os acolhem

8 abr, 09:36

Em entrevista exclusiva à CNN Portugal, a embaixadora da Ucrânia afirma que tem feito uma investigação desde 2016 a organizações, que descreve como pró-russas, que têm representado a Ucrânia no Alto Comissariado para as Migrações e sublinha que a Embaixada russa tem tido um papel ativo de desinformação sobre o conflito

A embaixada da Ucrânia em Portugal teme pela segurança dos refugiados ucranianos que chegam ao país, porque, revela a embaixadora Inna Ohnivets numa entrevista exclusiva à CNN Portugal, “há organizações pró-russas” que estão infiltradas no apoio aos refugiados e que “podem receber informação sobre os dados pessoais destes refugiados e dos seus familiares que lutam no exército ucraniano”.

A diplomata Inna Ohnivets, que é embaixadora desde 2015, explica que já alertou o Governo para o facto de, das oito organizações que fazem parte do colégio eleitoral da comunidade ucraniana no Alto Comissariado para as Migrações, apenas duas serem reconhecidas como ucranianas. “Há a necessidade de excluir associações pró-russas da lista de representantes da comunidade ucraniana em Portugal”, afirma.

A embaixadora sublinha também que algumas associações têm cooperado com a Embaixada Russa, mesmo depois do início do conflito entre as duas nações, e refere que tem feito uma investigação desde 2016 a estas organizações que agora “querem retirar esta informação para não mostrar a sua ligação com a Rússia, ou com o mundo russo”, alerta.

CNN - A Associação de Ucranianos em Portugal alertou, no dia 2 de abril, os Serviços de Informação da República Portuguesa para a presença de “agentes de influência russa” em algumas organizações que acolhem refugiados. A queixa alertava para o facto de algumas das associações que compõem o colégio eleitoral ucraniano do Alto Comissariado para as Migrações terem ligações a agências que respondem diretamente ao Kremlin, como a Rossotrudnichestvo e a Fundação Russkiy Mir. A Embaixada tem conhecimento disto, sente que são ligações perigosas?

Na lista do Alto Comissariado para as Migrações há associações pró-russas. Mas elas estão na lista como associações ucranianas. Já chamámos a atenção e reunimos com o Alto Comissariado para as Migrações sobre esta situação, que não é aceitável. 

CNN - Quais foram os resultados da reunião que teve com a Alta Comissária para as Migrações?

Discutimos esta questão, tive também uma conversa telefónica com a atual secretária de Estado da Igualdade e das Migrações, a doutora Sara Abrantes Guerreiro, e concordámos que é necessário resolvê-la. Na nossa opinião, precisamos de alterar esta lista e excluir as associações pró-russas porque no colégio ucraniano têm de ser incluídas só aquelas que representam a comunidade ucraniana.

 

 

CNN - Há associações com ligações à Rússia que estão a representar a comunidade ucraniana e a acolher refugiados ?

Há a associação EDINSTVO, que é chefiada por Igor Khashin, um cidadão russo. Esta associação está ligada à embaixada russa e também este cidadão, durante uma reunião em 2016 comigo, confirmou que esta associação não tem nenhuma ligação com a Ucrânia. Esta associação é russa. Por exemplo, associações como Amizade - Associação de Imigrantes de Gondomar e a Associação MIR, não têm nada com a Ucrânia e com a sociedade ucraniana aqui. Infelizmente estas associações participam também nas eleições para o representante da comunidade ucraniana aqui em Portugal e claro que a representante da comunidade ucraniana eleita por estas associações, a senhora Nataliya Khmil, não representa a Ucrânia. 

CNN - A CNN Portugal contactou Nataliya Khmil que explicou que, em 2008, se associou à fundação Russkiy Mir - criada por Vladimir Putin para promover a linguagem e a cultura russa - porque lhe prometeram a oferta de livros para crianças, mas que cortou essa ligação em 2015 e que os seus contactos com representantes da Federação Russa foram estritamente no âmbito cultural e educativo. Ainda assim, a senhora embaixadora sente que estas ligações são perigosas? Acha que a impossibilitam de representar a Ucrânia no Alto Comissariado?

Há uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia há já oito anos e, a partir de 2014, as associações como Amizade, MIR e EDINSTVO continuaram a sua cooperação com a Embaixada Russa. Isso significa que eles não perderam a comunicação com o mundo russo, na realidade. Neste caso, a associação Amizade, liderada pela senhora Natalyia Khmil, tem também um grupo de dança que participa em diferentes eventos culturais, como o Dia Nacional da Rússia, e isso já durante o tempo da guerra entre a Ucrânia e a Rússia.

Para mim, é uma grande surpresa que a senhora Natalyia Khmil agora tenha decidido apoiar os refugiados ucranianos que chegaram a Portugal, porque eu não acredito na sua atitude sincera para com os ucranianos. Ela participou em diferentes eventos, juntamente com os representante oficiais da embaixada russa em Portugal, tal como os representantes da agência Rossotrunichestvo. Claro que, atualmente, esta situação não é aceitável. Na minha opinião, não podem os representantes das associações pró-russas, que aqui funcionam, participar no acolhimento dos refugiados ucranianos.

CNN - Há uma situação semelhante, mas envolvendo um cidadão russo, Igor Khashin, que foi um dos presidentes da associação EDINSTVO. Khashin foi diretor do Conselho de Compatriotas Russos em Portugal e a sua associação é reconhecida pelo Alto Comissariado como representante da Ucrânia. 

A Câmara Municipal de Setúbal tem uma colaboração muito ativa com a associação EDINSTVA. E nas instalações da Câmara Municipal, há um gabinete do senhor Igor Khashin, por isso esta associação está instalada mesmo na câmara de Setúbal.

CNN - De facto, esta associação tem um protocolo de cooperação desde 2005 com a Câmara Municipal de Setúbal. Igor Khashin foi, de resto, apoiante do autarca André Martins (CDU) durante a última campanha para as autárquicas. Mas há outros casos de representantes da comunidade ucraniana que têm ligações a entidades russas, nomeadamente, Lyudmyla Bila, presidente da Associação de Apoio ao Imigrante, cuja associação também estava registada junto da fundação Russkiy Mir e também fez parte do Conselho de Compatriotas russos. Também Yulia Gundarina da Associação MIR que atualmente é a presidente do mesmo conselho. Na sua opinião, estas associações não deviam acolher refugiados ucranianos?

No caso de acolhimento de refugiados ucranianos, isso pode pôr em causa a segurança dos ucranianos que chegam a Portugal.

CNN - Porquê?

Porque, por exemplo, estas associações pró-russas que têm a ligação muito estreita com a Embaixada russa podem receber informações sobre os dados pessoais destes refugiados, mas não só sobre eles, também sobre os familiares que agora estão na Ucrânia e participam no exército ucraniano e podem também informar os seus familiares sobre a situação no território da Ucrânia. E esta informação também é interessante, claro, para a inteligência russa. 

 

 

CNN - E de todas as oito associações, apenas duas são reconhecidas pela Embaixada, é isso?

Na lista que há no site do Alto Comissariado para as Migrações, há duas organizações ucranianas - a Associação dos Ucranianos em Portugal e o Movimento Cristão dos Ucranianos em Portugal -, com as quais temos uma cooperação muito ativa e eles também realizam diferentes eventos culturais, sobre a cultura e história ucraniana. Atualmente a situação é a seguinte: há associações que são realmente russas, porque promovem a cultura russa e a língua russa, que estão listadas no colégio eleitoral ucraniano.

CNN - A Associação de Ucranianos em Portugal alertou também para o facto de, desde o início da invasão russa à Ucrânia, ter desaparecido muito conteúdo da internet que estabelecia estas ligações entre as associações e as organizações russas. Acha que isto foi propositado?

Quando começámos este trabalho, que é feito desde 2016, de procurar informação sobre estas associações pró-russas para perceber se existe alguma ligação com a embaixada russa, reparámos que esta informação desapareceu das redes sociais, das páginas da internet. Isso significa que estas associações querem retirar esta informação para não mostrar a sua ligação com a Rússia ou com o mundo russo, mas o mundo russo significa uma ideologia agressiva.

Como podemos ver, por exemplo em Butcha e Irpin, os ocupantes russos cometeram atrocidades terríveis contra população ucraniana. A intenção da Rússia de Putin significa eliminar tudo e estabelecer o seu regime fascista. Putin usa a palavra fascista para os ucranianos e ele declarou que deseja desnazificar e desmilitarizar a Ucrânia, mas os fascistas vivem na Rússia, não na Ucrânia. Para realizar este plano, ele usa instrumentos como desinformação, mentira total e também estas associações pró-russas que funcionam em todo o território dos países europeus, que estabeleceram os contactos também com as comunidades locais para espalhar a desinformação sobre a Ucrânia. 

CNN - Acredita que a embaixada da Rússia tem tido um papel ativo na campanha de desinformação em Portugal?

A embaixada tem dito o povo português apoia a atividade das tropas russas. Diz que cerca de 30% da população apoia a guerra da Rússia contra a Ucrânia, mas isso é desinformação total. Porque eu tenho comunicação quotidiana com representantes do estado português, com diferentes associações da sociedade civil e todos eles apoiam a Ucrânia nesta guerra porque, de facto, a Rússia cometeu muitos crimes de guerra contra a Ucrânia. 

CNN - Precisamente, no Telegram da Embaixada da Rússia tem sido feito recorrentemente uma sondagem sobre a percentagem de portugueses que estão solidários com a posição russa. O último número disponível é de 33% a favor. Este é um exemplo dessa campanha de que fala?

 

Claro, esta informação sobre o apoio dos portugueses à guerra russa contra a Ucrânia não corresponde à verdade e, por exemplo, os portugueses participam ativamente na ajuda humanitária para os ucranianos, também através do acolhimento dos ucranianos que fugiram do território ocupado. Isso significa, na minha opinião, que a comunidade portuguesa está a apoiar totalmente o nosso exército ucraniano e que está a defender, não só o povo ucraniano e a sua soberania, mas também os valores democráticos de toda a Europa.

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