"O caso do Médio Oriente é oposto ao da Ucrânia: todos os partidos de extrema-direita conseguem juntar-se numa mesma perspetiva" sobre Israel / Hamas - e isso pode ter repercussões nunca vistas

23 out, 09:29
HAMAS gif

Putin e a Rússia fraturaram a extrema-direita mas o Médio Oriente é diferente: Itália fez regressar o controlo de fronteiras e o Vox quer suspender residências em Espanha - a islamofobia vai ser usada como forma de tentar angariar votos. Já está a ser usada, incluindo em Portugal. Mas apesar de a União Europeia ter "começado por falar mal" sobre a guerra Israel / Hamas, o que fez a seguir pode ter atenuado o impacto da estratégia em curso da extrema-direita, dizem especialistas ouvidos pela CNN Portugal. Ah, é preciso não esquecer: vêm aí as eleições europeias

“Cedo ou tarde temos de limitar a migração islâmica para a União Europeia.” A afirmação, reproduzida na Folha Nacional, jornal do Chega, é do presidente daquele partido, André Ventura, mas podia ser qualquer um dos líderes dos partidos populistas da direita europeia, que têm tido a mesma mensagem desde que o Hamas atacou Israel.

É um gatilho quase automático: sempre que existe algum temor relacionado com os muçulmanos e árabes que vivem na União Europeia, os líderes populistas tentam tirar partido disso. Só que desta vez isso pode ter repercussões nunca vistas, particularmente quando estamos a menos de um ano das eleições para o Parlamento Europeu.

O professor catedrático José Filipe Pinto não tem dúvidas: a extrema-direita em geral, e o Chega em particular, vão beneficiar do conflito entre Israel e Hamas, sendo que esse benefício será proporcionalmente maior relativamente ao nível de ameaça de terrorismo na Europa.

“Vamos ter novamente um reacender do discurso nacionalista e a condenação do multiculturalismo. O fenómeno do crescimento da extrema-direita não é localizado num país”, diz à CNN Portugal o investigador em questões relacionadas com populismo.

Com efeito, é mesmo assim: como André Ventura e o Chega outros líderes e partidos do populismo cultural ou identitário (ligado à extrema-direita) estão a tentar tirar partido de situações como o ataque ocorrido em Bruxelas, promovendo a islamofobia como forma de tentar angariar votos entre uma população crescente de descontentamento com a presença muçulmana na União Europeia.

Através do Twitter André Ventura veio rapidamente condenar o ataque na Bélgica, perguntando "por que raio não mandamos esta gente embora?".

A primeira-ministra italiana veio dizer, por exemplo, que “a imigração ilegal em massa pode dar origem a sérios riscos para a segurança da Europa”. Uma afirmação de Giorgia Meloni depois ter ordenado a reposição do controlo de fronteiras com a Eslovénia, defendendo a medida com a necessidade de controlar a entrada de cidadãos não comunitários. Em Espanha o Vox veio pedir o congelamento da autorização de residências, por exemplo.

“Identificamos este populismo em França, com Marine Le Pen, com Gert Wilders nos Países Baixos, depois surgiu a Alternativa para a Alemanha (AfD), o Vox e até o Chega”, lembra José Filipe Pinto, traçando “ligações muito estreitas entre estes partidos”, que crescem por vários fatores, sendo a insegurança das populações um dos principais.

Como Meloni já tentou fazer, o Chega também “vai tentar tirar proveito disso, vai dizer que a política migratória coloca em causa a segurança dos portugueses, fazendo um apelo às políticas securitárias”, acrescenta José Filipe Pinto, prevendo um inevitável “crescimento do eleitorado” do partido de André Ventura, como também vai acontecer com os restantes partidos de extrema-direita.

O investigador do ISCTE Riccardo Marchi, que analisa a questão do radicalismo de direita, diz à CNN Portugal que estas teorias são mais do que conspiração, apoiando-se em dados ou factos, como o ataque a Bruxelas.

“Pensemos no terrorista da Bélgica: este tunisino desembarcou em Lampedusa, onde Meloni diz que há um problema. Não foi parado aí, passou por Portugal, onde foi detido, e conseguiu ir parar à Bélgica”, nota.

O especialista refere que isso é suficiente para que um partido de direita diga, com alguma legitimidade, que a imigração em massa pode promover a infiltração de lobos solitários, como aconteceu em Bruxelas.

O jogo da simpatia com Israel

E isso é ainda mais fácil quando a oposição é entre o Estado israelita, muito defendido pelos ideais da direita europeia, e um grupo que vários consideram terrorista, como o Hamas.

Riccardo Marchi lembra que desde os ataques do 11 de setembro que “todos os partidos de direita que têm percentagens interessantes colocaram-se ao lado do Ocidente e de Israel, que consideram como a única democracia ocidental no Médio Oriente”.

“Sempre que há uma polarização da crise israelo-palestiniana, principalmente pelo Hamas, é muito fácil estes partidos capitalizarem a opinião pública moderada, o centro-direita e até de alguma esquerda com simpatias por Israel”, acrescenta.

Diferente seria, diz o investigador do ISCTE, se a crise desencadeada no Médio Oriente tivesse vindo de uma força civil, até porque o governo de Benjamin Netanyahu enfrentava uma fase particularmente complicada. “Quando a crise é determinada por fações islâmicas ligadas ao Irão, como o Hamas ou o Hezbollah, é muito mais fácil. [Os partidos de extrema-direita] apostam tudo nesse sentido”, reitera.

De resto, José Filipe Pinto aponta que acontece na Europa o que não acontece nos Estados Unidos, que se colocariam “sempre ao lado de Israel”, fossem liderados pelo Partido Democrata ou pelo Partido Republicano. “Ambos os partidos têm uma ligação histórica a Israel, a questão não se coloca, porque é uma questão nacional”, vinca, dizendo que nenhuma das partes encontra na outra algum tipo de posição antagonista.

Na Europa “é completamente diferente”. Os partidos da extrema-direita e da direita radical apoiam a causa israelita, “porque entendem que o povo judeu foi sempre perseguido”, além de que a esquerda toma uma posição diferente.

“Os partidos conotados com a esquerda e a extrema-esquerda vão defender a causa palestiniana e o direito à constituição de um Estado, nos casos mais extremos até o direito a um Estado excludente”, afirma José Filipe Pinto, referindo a possibilidade de Israel deixar de existir nesta solução.

A diferença em relação à Ucrânia (que ajuda a direita)

A União Europeia foi rápida a condenar a invasão da Rússia contra a Ucrânia, mas houve países a fazê-lo a velocidades diferentes, sendo que alguns nem o fizeram de forma expressa. Ainda há poucos dias o primeiro-ministro da Hungria esteve reunido com o homólogo russo, num encontro genericamente malvisto entre os 27, e que coloca em causa a coesão do bloco no apoio a Kiev.

"A guerra no Médio Oriente resolve este problema, o grande tema das europeias não vai ser Ucrânia, mas Israel, e [André Ventura] vai poder fazer um discurso ligado ao islamismo radical", acrescenta Riccardo Marchi, dizendo que a posição da esquerda portuguesa, nomeadamente do PCP, também "facilita muito o discurso".

José Filipe Pinto também alinha nesta visão. O politólogo lembra que dentro do Identidade e Democracia (grupo onde o Chega se senta com outros partidos populistas no Parlamento Europeu) "estava dividido" em relação à Ucrânia, uma vez que havia "posições a favor do Ocidente e outras que sempre estiveram ao lado de Putin".

Reunião do partido europeu Identidade e Democracia (Getty Images)

E, mesmo que como a AfD, que decidiu moderar o discurso pró-Rússia, houve sempre a dificuldade em condenar a invasão e expressar apoio à Ucrânia.

"No caso do Médio Oriente é o oposto. Todos conseguem juntar-se numa mesma perspetiva", destaca José Filipe Pinto, apontando que grupos antissemitas ou antissionistas na direita são residuais.

Posição da União Europeia atrasa o benefício

Se os partidos de extrema-direita não estão já a tirar um maior partido do conflito no Médio Oriente, em parte isso deve-se à posição assumida pela União Europeia. José Filipe Pinto assinala que "se começarem a aparecer vozes dissonantes, que apontem no sentido de Israel deixar de ser visto como uma vítima, nesse caso esses partidos vão ganhar muito, porque vão explicar que os governos europeus acabam por subscrever a causa palestiniana, que é defendida pela esquerda".

O politólogo até diz que a União Europeia "começou por falar mal", quando o seu mais alto representante diplomático, Josep Borrell, veio denunciar o ataque do Hamas, mas colocando um "ónus" na retaliação de Israel.

"Ao colocar muito a quente esse ónus apontou muito para uma visão de haver como que algum receio da atitude de Israel, numa posição muito comedida, que até é passível de limitar o apoio a Israel", explica José Filipe Pinto, destacando como positivas as intervenções das presidentes da Comissão Europeia e do Parlamento Europeu, Ursula von der Leyen e Roberta Metsola, que vieram esclarecer que os 27 estavam claramente com Israel.

O professor universitário nota apenas uma pequena diferença em relação à posição norte-americana: os Estados Unidos entendem que Israel tem o direito e o dever de se defender, enquanto a União Europeia só apregoa o direito à defesa.

A decisão de manter o apoio humanitário à Faixa de Gaza, mesmo depois da polémica com o comissário húngaro, também foi importante para aligeirar o discurso da extrema-direita, até porque, mesmo mantendo essa ajuda, modificou a atuação: "Vamos aumentar a assistência, não vamos é colaborar de forma acrítica em projetos que visam o desenvolvimento de uma zona que pode utilizar verbas para patrocínio do terrorismo".

Uma internacional populista?

Será este previsível crescimento e alinhamento da direita europeia um passo para a ideia de Steve Bannon, o antigo estratega de Donald Trump que fundou "O Movimento", uma organização que pretende juntar os partidos dos países europeus que estão contra a União Europeia?

José Filipe Pinto admite que este é um cenário que "vai ter mais capacidade, mais possibilidade de acontecer", ainda que não se preveja, pelo menos para já, o número mágico para que a extrema-direita ganhe definitiva importância no espaço europeu: o terço de lugares no Parlamento Europeu.

"O populismo ainda não vai conseguir um terço dos lugares, porque senão colocaria em causa o projeto europeu", aponta o politólogo, lembrando que isso significaria eleição de vice-presidentes e até de presidentes de comités, o que "iria condicionar" a vida comunitária "no sentido de um caminho para nações em vez de um projeto coletivo".

Que vai crescer o politólogo não tem dúvidas, que residem apenas em perceber quanto. Isso vai, em grande parte, depender do que acontecer em termos de segurança. "O que acontece é que os populismos criticam o sistema precisamente pelas benesses, apoio e liberdade concedidas a estas minorias, que, quando se envolvem por lobos solitários em atos de terrorismo, isso vai em termos muito claros criar na opinião pública uma situação de repúdio em relação aos atos, mas também adesão às críticas dos partidos que responsabilizam a elite pela falta de segurança decorrente", o que vai resultar na subida dos partidos populistas.

"Nós temos de perceber que a União Europeia tem muitos muçulmanos, é normal que estes partidos comecem a levantar bandeiras de islamofobia, porque explicam que a insegurança é resultado da política de acolhimento. Voltamos a ter culto de apelo à soberania nacional", conclui.

Tudo isto vai depender, claro, da forma como ambos os conflitos evoluírem.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados