Gelo da Gronelândia que derreteu num fim de semana podia encher 7,2 milhões de piscinas olímpicas

CNN , René Marsh e Angela Fritz
23 jul, 10:12

A água ao largo da costa noroeste da Gronelândia é perfeitamente calma, mas as poças que se acumulam nos icebergues da região são um sinal de que uma transformação está em curso mais acima no manto de gelo.

Vários dias de tempo invulgarmente quente no norte da Gronelândia desencadearam um rápido degelo, tornado visível pelos rios de água derretida que correm para o oceano. As temperaturas têm andado pelos 60 graus Fahrenheit (15,5º C)  - 10 graus acima do que é normal para esta época do ano, disseram os cientistas à CNN.

A quantidade de gelo que derreteu na Gronelândia só entre 15 e 17 de julho, seis mil milhões de toneladas de água por dia, seria suficiente para encher 7,2 milhões de piscinas olímpicas, de acordo com dados do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo dos EUA.

Dito de outra forma, seria o suficiente para cobrir todo o estado da Virgínia Ocidental de água até aos 33 centímetros.

"O degelo do norte na semana passada não é normal, tendo em conta 30 a 40 anos de médias climáticas", disse Ted Scambos, cientista sénior do Centro Nacional de Dados de Neve e Gelo da Universidade do Colorado. "Mas o degelo tem vindo a aumentar, e este evento foi um pico de degelo."

Para os cientistas no manto de gelo, o calor tem sido alarmante.

"Isso preocupa-me definitivamente", disse Kutalmis Saylam, um cientista de investigação da Universidade do Texas que está atualmente estacionado na Gronelândia. "Ontem podíamos andar por aí de t-shirt – o que não era de todo esperado."

Todos os verões, os cientistas receiam assistir a uma repetição do degelo recorde ocorrido em 2019, quando 532 mil milhões de toneladas de gelo fluíram para o mar. Uma fonte termal inesperada e uma onda de calor em julho desse ano fizeram com que quase toda a superfície do manto de gelo derretesse. O resultado foi O nível global do mar ter subido permanentemente 1,5 milímetros.

A Gronelândia tem gelo suficiente, se tudo derretesse, para fazer subir o nível do mar 7,5 metros em todo o mundo.

As últimas pesquisas apontam para uma situação cada vez mais precária na ilha mais gelada do Hemisfério Norte.

Foram observadas taxas de degelo "sem precedentes" no fundo do manto de gelo da Gronelândia, segundo um estudo publicado em fevereiro, causado por enormes quantidades de água derretida que escorrem da superfície. Esta água é particularmente preocupante porque pode desestabilizar o manto acima dela e pode levar a uma perda maciça e rápida de gelo.

E em 2020, os cientistas descobriram que o manto de gelo da Gronelândia tinha derretido para além do ponto de não retorno. Nenhum esforço para evitar o aquecimento global pode impedi-lo de acabar por se desintegrar, dizem os investigadores da Universidade Estadual de Ohio. A taxa de degelo nos últimos anos excede tudo o que a Gronelândia teve nos últimos 12 000 anos, revelou outro estudo e o suficiente para provocar alterações mensuráveis no campo gravitacional na Gronelândia.

No East Greenland Ice-core Project ,ou EastGRIP, campo de investigação no noroeste da Gronelândia, o trabalho dos cientistas para compreender o impacto das alterações climáticas está a ser inibido pelas próprias alterações climáticas.

Aslak Grinsted, cientista do clima do Instituto Niels Bohr da Universidade de Copenhaga, disse à CNN que têm tentado fazer voos para o campo para poderem enviar as amostras de gelo que recolheram recentemente. Mas o calor está a desestabilizar o local de aterragem.

"As temperaturas que temos neste momento são simplesmente demasiado quentes para os aviões equipados com esqui aterrarem", disse Grinsted. "Por isso, armazenamos as amostras de gelo em grandes cavernas artificiais que fizemos na neve para as proteger do calor do verão."

Os cientistas aproveitam o calor anormal enquanto esperam, para jogar voleibol de calções num manto de gelo no topo do mundo.

Antes das alterações climáticas causadas pelo homem se terem instalado, as temperaturas perto dos 32 graus Fahrenheit (0ºC) eram inéditas. Mas desde a década de 1980, esta região aqueceu cerca de 1,5 graus Fahrenheit por década - quatro vezes mais depressa do que o ritmo global - tornando ainda mais provável que as temperaturas ultrapassem o limiar de degelo.

Grinsted referiu as temperaturas no local de pesquisa do EastGRIP como uma "onda de calor", e observou que o aquecimento global está a fazer subir mercúrio dos termómetros com mais frequência.

"Sim, a probabilidade de as temperaturas aumentarem está claramente ligada ao aquecimento global", disse Grinsted.

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