Entre 600 mil e 1,6 milhões de manifestantes saem à rua em França para protestar contra o governo

Há 24 min

Governo fala em 600 mil pessoas, sindicatos acrescentam um milhão. Greve e manifestações fazem subir a contestação ao governo de Sébastien Lecornu

A jornada de manifestações e greve em defesa do poder de compra e dos serviços públicos conseguiu reunir esta quinta-feira 600 mil manifestantes em França, segundo as autoridades, e mais de um milhão adicional, de acordo com os cálculos dos sindicatos. Os números representam um claro aumento do descontentamento social face aos protestos anteriores deste outono.

Os sindicatos elevaram a participação para 1,6 milhões de pessoas em todo o país (350 mil em Paris), um número comparável aos registados durante o auge das grandes manifestações contra a reforma das pensões, no inverno de 2023.

De acordo com os primeiros números do Ministério do Interior francês, houve pelo menos 600 mil manifestantes em todo o país. Mesmo sem dados consolidados, o número ultrapassa largamente os 450 mil estimados pelos sindicatos na manifestação de 6 de outubro, uma mobilização comparável à que foi convocada esta quinta-feira.

Até ao momento, as autoridades não deram conta de incidentes graves num país ainda traumatizado pelos acontecimentos de 17 de outubro, uma jornada de extrema violência urbana ocorrida à margem das manifestações sociais. Nesse dia, foram saqueados pelo menos 3.000 estabelecimentos comerciais em França e incendiados vários edifícios, entre os quais a sede da Câmara Municipal de Limoges.

Este novo braço de ferro com o governo levou a uma rápida reação do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, que se apressou a anunciar que vai receber os sindicatos e as organizações patronais na próxima segunda-feira, em Matignon, sede do governo, para uma "conferência social" destinada a encontrar respostas para as preocupações relacionadas com o poder de compra e os salários.

A jornada de protestos desta quinta-feira afetou sobretudo as universidades – cerca de 30% foram afetadas – e as escolas do primeiro ciclo, onde perto de 20% dos professores aderiram à greve, segundo dados do governo francês.

Paradoxalmente, os liceus, onde nasceu há quase dois meses a atual vaga de protestos, registaram uma adesão inferior à de outros estabelecimentos de ensino.

Os dados do Ministério da Educação indicam que 80 liceus foram bloqueados, apenas 2,2% dos estabelecimentos deste tipo, embora os sindicatos apontem para cerca de mil escolas afetadas, num universo de 3.700.

A greve nacional alterou também os planos de muitos turistas: obrigou ao encerramento ao público da Torre Eiffel, um dos grandes símbolos de Paris, e de algumas salas do Museu do Louvre. Reduziu ainda o horário de visita do Museu de Orsay.

Entre as grandes manifestações, destacou-se a de Paris, onde uma multidão percorreu o trajeto entre a Praça da República e a Praça da Nação, sob a coordenação das principais centrais sindicais francesas. Os manifestantes exigiram um aumento imediato do salário mínimo nacional e contestaram as restrições impostas pelo Governo a determinados percursos das manifestações.

A líder sindical da CFDT, Marylise Léon, denunciou que "nunca houve tantas dificuldades para organizar uma manifestação", numa referência à proibição, por parte do Ministério do Interior, do percurso inicialmente pretendido pelos organizadores, entre a Praça da Bastilha e a Praça da Concórdia. O trajeto passava por zonas próximas de instituições de poder em França, como o Palácio do Eliseu e a Assembleia Nacional.

"É um péssimo sinal em termos de liberdade", acrescentou a secretária-geral da CFDT, o sindicato com maior número de filiados em França.

Candidato socialista às presidenciais de 2027 obrigado a abandonar protesto

Numa jornada de protestos que acontece a menos de seis meses das eleições presidenciais de 2027, a participação de um dos candidatos, o social-democrata Raphaël Glucksmann, apoiado pelo Partido Socialista, gerou polémica. O político acabou por abandonar a manifestação depois de ter sido interpelado e alegadamente impedido de avançar por militantes da França Insubmissa (LFI), o partido de esquerda do candidato ao Eliseu Jean-Luc Mélenchon.

As sondagens mais recentes colocam Glucksmann longe de conseguir passar à segunda volta, para a qual Marine Le Pen, da extrema-direita, e Mélenchon são apontados como favoritos. Um dos principais pontos do seu programa é excluir a LFI de qualquer tipo de acordo político.

Pouco depois de vencer as eleições primárias socialistas, a 11 de outubro, o eurodeputado foi atingido na cara com farinha por um indivíduo que o próprio Glucksmann acusou de pertencer à LFI, num novo episódio que reflete as tensões no próprio campo progressista.

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