A exposição à Ómicron ajuda a conquistar imunidade mesmo que não fiquemos infetados?

18 fev, 07:00
Homem de máscara (Associated Press)

É a questão para um milhão de euros. Fomos ouvir os especialistas

A exposição à Ómicron ajuda a conquistar imunidade mesmo que não fiquemos infetados? A questão foi colocada num artigo do The Wall Street Journal e a resposta não é simples: são ainda muitas as incógnitas quanto à imunidade que causa, sobretudo se é suficiente e duradoura. 

Mas vamos por partes. Se em causa estão múltiplos contactos com partículas do vírus que não causaram, pelo menos que a pessoa saiba, uma infeção, a resposta é não, não é possível conquistar imunidade apenas porque o vírus circula no ar que se respira. Se a pessoa estiver vacinada ou já tiver sido infetada, então a resposta é sim.

Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, é taxativo ao afirmar que este cenário de imunidade sem infeção é pouco provável. “Ao não termos contacto com o vírus, ao não ficarmos infetados, é quase impossível ganharmos imunidade. Temos de ter contacto com o vírus de alguma forma, temos de ser expostos e infetados.”

Já Luís Delgado, professor e diretor do Serviço e Laboratório de Imunologia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e ex- presidente da SPAIC - Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica,prefere não arriscar com certezas, mas considera também pouco provável haver imunidade sem contrair o vírus. 

E quando já se tem anticorpos, até que ponto é benéfico estar em contacto com o vírus?

A imunidade conquista-se quando o sistema imunitário fica munido de anticorpos, dando-lhe uma forma de proteção e controlo contra um agente infecioso, evitando que este cause doença. Para que haja produção de anticorpos, e, posteriormente, a chamada ‘memória imunitária’, é necessário que o organismo esteja em contacto com o vírus. E isso pode acontecer de duas formas: contágio, que causa infeção, ou vacinação, que, defendem os especialistas entrevistados pela CNN Portugal, é a forma “mais segura” de conquistar a desejada imunidade.

Ora, se em causa estiver uma pessoa com o esquema vacinal completo - duas doses com uma dose de reforço - ou que já tenha sido infetada (ou que já tenha tido a infeção e esteja vacinada), é possível que a exposição constante ao vírus possa ativar a memória imunitária e, com isso, aumentar a proteção, mesmo que a pessoa não fique infetada. Este cenário, diz Frances E. Lund, professora e diretora do Instituto de Imunologia da Universidade do Alabama (nos Estados Unidos), em declarações ao The Wall Street Journal, é o suficiente para o sistema imunitário “ser reforçado”. 

Da mesma opinião é Elisabete Ramos, presidente da Sociedade Portuguesa de Epidemiologia, que diz que “a parte mais relevante [nesta questão] não seria o ganhar imunidade num primeiro momento, mas na manutenção da imunidade sem precisarmos da vacinação regular”. E explica: “Já temos algo que nos protege, já temos um contacto com o agente [por via de uma infeção prévia ou da vacinação]. Depois, e de cada vez que vamos contactar com o vírus, naturalmente essa imunidade vai sendo de alguma forma reforçada”.

Ainda segundo Elisabete Ramos, “é um fator importante que [o vírus] circule em natureza”, o que fará com que, com o tempo, “seja um pouco como o vírus da gripe”, em que a pessoa vai ganhando imunidade ano após ano, seja com a vacinação (quando elegível para tal) ou com o contacto com o vírus. Mas a especialista é cautelosa quanto a certezas sobre a forma como o novo coronavírus se vai comportar: “Terá de ser avaliado ao longo do tempo, pois neste momento ainda não sabemos o suficiente.”

Ainda não é possível saber como será a imunidade a longo prazo

Tal como a epidemiologista Elisabete Esteves, também o médico Gustavo Tato Borges diz que é cedo para grandes certezas, sobretudo quando o tema é a imunidade a longo prazo causada por esta variante Ómicron, que foi somente detetada pela primeira vez há três meses na África do Sul. 

“A Ómicron é uma variante recente, não há dados concretos da duração e intensidade da sua imunidade, da imunidade adquirida.” Porém, considera Gustavo Tato Borges, depois da infeção “o que se acredita é que durante um período de seis meses teremos defesas e não teremos tanta facilidade no desenvolvimento de novas infeções”.

O imunologista Luís Delgado diz que a exposição constante a esta nova variante “vai aumentar anticorpos e linfócitos T que reconhecem o corona”, mas destaca que “não se sabe se podem proteger contra novas estirpes”.

Igualmente cauteloso está Gustavo Tato Borges, que considera que “dizer que a Ómicron vai ser a variante que vai dar imunidade para sempre ou resolver a pandemia de forma global acaba por ser uma afirmação ousada”. E justifica: “A Ómicron tem duas linhagens e é possível ser infetado por ambas, o que significa que não há perspetivas de que venha a dar uma imunidade natural adquirida pela infecção e doença, de que nos irá proteger a longo prazo. É cedo para dizer que isso”.

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