Já estive infetado com Ómicron. Posso ser de novo contagiado?

3 fev, 18:00

Especialistas admitem que pode ocorrer uma reinfeção pela mesma variante, mas acreditam que não trará grandes complicações. À CNN Portugal médicos e infeciologistas explicam o que se sabe sobre este assunto

Quem até agora conseguiu ‘escapar’ ao SARS-CoV-2 e foi infetado pela primeira vez com a variante Ómicron não está livre de ficar novamente infetado pela mesma variante, que se tem mostrado mais ligeira em sintomas e severidade, mas muito mais contagiosa do que as variantes anteriores.

“Não é de todo impossível [uma reinfeção]. Se a variante Ómicron se mantiver [em circulação], é possível que a pessoa fique reinfetada com a mesma variante daqui a um período de tempo”, começa por dizer à CNN Portugal Luís Tavares, médico e coordenador da Unidade de Infecciologia do Hospital Lusíadas em Lisboa, sem adiantar quanto tempo pode ocorrer entre uma infeção e outra, pois a duração da imunidade é ainda incerta.

Além de se conseguir sobrepor à imunidade conferida pelas variantes Delta e Alfa, responsáveis pela maioria dos casos nos últimos dois anos, e de ser capaz de fazer frente à imunidade da vacina - embora a vacinação ñão trave a infeção, continua a ser o principal escudo-protetor contra a doença grave - a variante Ómicron pode sobrepor-se a si mesma, até mesmo se em causa estiverem linhagens da mesma variante.

“Existem duas linhagens diferentes, duas variações. Há suspeita que uma pessoa infetada com uma linhagem possa ser infetada com a outra”, explica Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública. 

Também Manuel Ferreira Magalhães, pneumologista pediátrico e professor universitário, já tinha explicado que “devido à inexistência de capacidade do sistema imunitário de produzir uma defesa permanente do SARS-CoV-2”, é possível que a pessoa possa ser infetada duas vezes pela mesma variante, uma vez que “não existe memória imunitária”.

Quão frequente é uma dupla infeção por Ómicron?

Para já, não se sabe, até porque uma boa parte dos casos de reinfeção que estão a acontecer agora dizem respeito a pessoas que ficaram infetadas primeiramente com a variante Delta. 

No entanto, Óscar Felgueiras, matemático especialista em epidemiologia da Universidade do Porto, adianta que “existem relatos na Dinamarca”, mas defende que “a questão importante”, para já, é saber “até que ponto isso é frequente, se estamos a falar de um padrão ou não”.

Olhando para o caso da Dinamarca, que já assume a covid-19 uma doença crítica e está a evoluir para uma fase mais endémica, como disse Filipe Froes à CNN Portugal, Óscar Felgueiras considera que os casos de reinfeção por Ómicron que têm sido lá relatados podem dever-se ao facto de o país já ter “a variante a circular de forma completamente dominante”. 

“Tivemos múltiplas reinfeções Delta e Ómicron e não se afasta com a mesma família da Ómicron”, esclarece Gustavo Tato Borges, que continua: “Apesar de não termos alertas de severidade com a BA.2 [nova linhagem], a diferença da constituição genética com a BA.1 pode indicar uma eventual infecção, mas ainda é tudo incerto”.

Há mais riscos com um duplo contágio por Ómicron?

Depende. A escassez de informação sobre esta variante não permite respostas taxativas, mas à luz do que se sabe hoje, é possível que os danos não sejam tão severos como com outras variantes. No entanto, para pessoas imunossuprimidas e para quem não está ainda vacinado os riscos são sempre uma realidade.

“Esta segunda linhagem continua a ser ligeira, portanto, ser reinfetado com a Ómicron acaba por não trazer, até ao momento, grandes complicações”, refere Gustavo Tato Borges, que continua: “com o que conhecemos, não fará diferença se [as pessoas] possam ou não ser infetados, porque teriam doença ligeira e a Ómicron parece dar uma boa imunidade”.

Quanto ao potencial impacto nos sistemas de saúde, Óscar Felgueiras diz que “à partida não parece constituir um demasiado risco”. “Diria que constituirá mais uma camada protetora”, considera o matemático.

Qual a duração da imunidade causada pela Ómicron?

Esta é uma das dúvidas da comunidade científica e deve-se ao facto de a Ómicron estar a circular há pouco tempo junto da população. 

“Não temos informação sobre quanto tempo a imunidade natural dura”, uma vez que “a imunidade de uma infecção e da vacina vai desaparecer com o tempo”, o que aumenta o risco de reinfeção”, adianta Luís Tavares.

Sobre este ponto, Gustavo Tato Borges dá conta de relatos também na África do Sul, em que “foram infetadas com variantes da mesma família, mas há uma certa incerteza quanto à duração da imunidade Ómicron”. Também em Israel começam a surgir dados sobre pessoas que ficaram infetadas duas vezes pela Ómicron.

Ómicron não trava Ómicron, mas trava outras variantes?

Mais uma vez, ainda não se sabe. Apesar de já convivermos com o novo coronavírus há quase 24 meses, a verdade é que esta variante foi apenas descoberta no final de novembro, o que limita a possibilidade de análise temporal do seu comportamento e efeitos, sobretudo a longo prazo, tal como diz à CNN Portugal Gustavo Tato Borges: “A Ómicron está numa fase muito inicial”.

Se em causa estiver a variante Delta, a Ómicron pode ser um bloqueio, de acordo com um estudo desenvolvido por uma equipa de cientistas do Instituto de Investigação em Saúde da África, que dá conta que os recuperados de uma infeção da variante Ómicron poderão conseguir escapar a infeções posteriores da variante Delta.

“Se aparece outra variante, a possibilidade de uma reinfeção é mais plausível”, atira o infeciologista Luís Tavares.

Quanto a este tema, Óscar Felgueiras considera que “numa população com uma cobertura vacinal grande com infecção prévia abrangente, como acontece um pouco com Portugal derivado da Ómicron, isso vai à partida reforçando a imunidade da população”. Porém, o matemático destaca que “nunca saberemos ao certo o que trará a chegada de uma nova variante, mas será mais expectável que com o passar do tempo a população fique mais resistente”.

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