Conhece algum mentiroso compulsivo? Caso de político americano que aldrabou grande parte do currículo levanta novas questões

CNN , Brenda Goodman
4 fev 2023, 15:24
George Santos (LUSA/EPA/JIM LO SCALZO)

Maioria das pessoas conta uma média de uma mentira por dia. Isso é normal. Depois há pessoas que mentem dez vezes por dia.

Quando Timothy Levine se propôs a escrever um livro em 2016 sobre o ato de enganar, quis incluir um capítulo sobre uma das suas formas mais extremas: a mentira patológica.

“Não consegui encontrar uma boa base de investigação sobre isso”, conta Levine, presidente do Departamento de Estudos de Comunicação da Universidade do Alabama, em Birmingham, nos EUA. Agora, essa parece ser a única coisa sobre a qual toda a gente quer falar com ele.

“Santos trouxe-me mais repórteres nas últimas semanas do que provavelmente em todo o ano passado”, disse Levine.

“Santos” é o político norte-americano George Santos, republicano de Long Island que foi recentemente eleito para representar no Congresso o terceiro distrito de Nova Iorque

Nos meses que passaram desde a sua eleição, as principais afirmações da curriculum de Santos - incluindo onde obteve o seu diploma universitário, o seu emprego no Citigroup e na Goldman Sachs, um grupo de salvamento de animais que ele diz ter fundado e a sua filiação religiosa judaica – foram sendo negadas pelo escrutínio de jornalistas e verificadores de factos. Afinal, diz ele agora, não tem um diploma universitário; não foi empregado pelo Citigroup nem pela Goldman Sachs; as Finanças não têm registo do seu grupo de salvamento de animais. Ele diz também que nunca afirmou ser judeu [“jewish”], mas sim que era “de natureza próxima da dos judeus" [“jew-ish”].

Santos defendeu-se em entrevistas aos meios de comunicação social em dezembro, dizendo que as discrepâncias eram resultado de preenchimento de currículos e más escolhas de palavras, mas que ele não era nem um criminoso nem uma fraude.

Não é claro o que está a motivar as declarações de Santos.

Mas esta história tem dado aos profissionais que estudam a mentira nas suas formas mais extremas um momento raro para aumentar a consciência sobre a mentira como sendo um distúrbio mental – o que, dizem agora, tem sido largamente negligenciado por médicos e terapeutas.

“É raro encontrar uma figura pública que mente tão frequentemente de formas tão verificáveis”, afirma Christian Hart, psicólogo que dirige o Laboratório de Engano Humano da Universidade do Texas.

Os psiquiatras têm reconhecido a mentira patológica como uma perturbação mental desde os finais do século XIX, mas os especialistas dizem que nunca foi dada atenção séria à questão, nem financiamento ou estudos reais. A mentira patológica não tem o seu próprio diagnóstico no Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais dos EUA, ou DSM, a bíblia da psiquiatria. Em vez disso, é reconhecida como uma característica de outros diagnósticos, como os distúrbios de personalidade.

Em resultado, não existe uma forma de tratamento baseada em evidências, embora muitos mentirosos patológicos digam que querem ajuda para conseguirem parar.

A abordagem padrão para tratar a mentira baseia-se em técnicas emprestadas da terapia cognitiva comportamental, que enfatiza a compreensão e a mudança dos padrões de pensamento. Mas ninguém tem a certeza de que esta seja a forma mais eficaz de ajudar.

“Não sabemos necessariamente qual é o tratamento mais eficaz", diz Drew Curtis, professor associado de psicologia na Angelo State University no Texas, que estuda a mentira patológica.

Curtis já teve um caso de uma pessoa que propôs atravessar o país de carro para fazer tratamento, o que ele diz não ter sido capaz de fazer.

“Então esse é o lado que me parte o coração, como clínico: pessoas que querem ajuda e não conseguem”, diz Curtis.

Curtis e Hart, que colaboraram desde longa data, publicaram recentemente um estudo que apresenta provas para apoiar a inclusão da mentira patológica como diagnóstico autónomo no DSM.

Ao longo dos anos, explica Hart, quase 20 pessoas propuseram definições de mentira patológica, mas há pouca em comum nessas definições: “A única característica verdadeiramente comum é que estas pessoas mentem muito”.

A maioria das mentiras são normais

A primeira coisa a saber sobre a mentira patológica ou compulsiva é que ela é rara, diz Levine. Os seus estudos mostram que a maioria das pessoas a maior parte das vezes diz a verdade.

“Estes mentirosos realmente prolíficos são bastante invulgares”, afirma Levine, cujo livro sobre engano, “Duped”, foi publicado em 2019.

Isso não quer dizer que mentir não seja comum. A maioria das pessoas mente por vezes, mesmo diariamente. Nos seus estudos, as pessoas mentiam em média até duas vezes por dia.

O próprio Levine mente regularmente na mercearia, quando os trabalhadores lhe perguntam se encontrou tudo o que procurava. Desde que a pandemia de Covid-19 começou, essa resposta é quase sempre não, mas de qualquer forma ele responde que sim.

Um dos seus alunos trabalhava numa loja de roupa e mentia regularmente às pessoas que experimentavam roupa. Outro - um recepcionista - mentiu para encobrir um médico que estava sempre atrasado.

Tudo isso é bastante normal, diz Levine. Ele acredita que a honestidade é o nosso modo padrão de comunicação, simplesmente porque as pessoas têm de ser honestas umas com as outras para conseguirem trabalhar eficazmente em grandes grupos, algo que, no reino animal, os humanos fazem excecionalmente bem.

Mas manter-se fiel aos factos não é fácil para todos.

Definir a mentira patológica

Nos seus estudos, Hart e Curtis descobriram que a maioria das pessoas conta uma média de uma mentira por dia. Isso é bastante normal. Depois há pessoas que mentem muito: cerca de 10 mentiras por dia, em média.

Hart e Curtis chamam de “grandes mentirosos” aos mentirosos prolíficos ou especialmente consequentes, como alguém como Bernie Madoff, que enganou e defraudou investidores, por exemplo. “Grandes Mentirosos” é também o título do seu recente livro.

Os “grandes mentirosos” são bastante invulgares. E a mentira patológica é ainda mais rara.

Hart pensa que até hoje só interagiu com duas pessoas que respondiam à descrição clássica de mentira patológica.

“Foi vertiginoso”, diz.

Quando as pessoas começam a mentir tanto que já não conseguem parar, ou isso começa a magoá-las ou às pessoas à sua volta, é quando mentir se torna anormal e elas podem precisar de tratamento.

“É mais a categoria clínica de pessoas que contam quantidades excessivas de mentiras que prejudica o seu funcionamento, causa angústia, e representa algum risco para si ou para outros”, diz Curtis, partilhando a definição funcional de mentira patológica que ele e Hart esperam que acabe por ser incluída no DSM.

“O que descobrimos, examinando todos os casos, é que mentir parece ser algo compulsivo”, relata Hart. “Ou seja, eles estão a mentir em situações em que uma pessoa razoável provavelmente não mentiria, e em muitos casos parece que até em seu próprio prejuízo.”

“Isso tende a causar disfunções nas suas vidas", acrescenta Hart, incluindo problemas sociais, de relacionamento e de emprego.

A um certo nível, os mentirosos patológicos sabem que estão a mentir. Quando confrontados com as suas mentiras, admitem tipicamente a sua desonestidade.

Mentir também pode ser uma característica de outras desordens, mas Hart diz que quando avaliaram pessoas que preenchiam os critérios de mentir patologicamente, encontraram algo interessante: “Verificou-se que a maioria delas não tem outra perturbação psicológica. E assim parece que a mentira é o seu principal problema”, disse ele, dando peso à ideia de que a mentira patológica merece ser o seu próprio diagnóstico.

A Associação Psiquiátrica Americana, ou APA, publica o DSM e revê regularmente propostas para novos diagnósticos. Curtis diz que tem estado a recolher provas e está em vias de preencher a papelada que a APA exige para considerar se a mentira patológica deve ser um novo diagnóstico.

Alguns trabalhos parecem recompensar a capacidade de mentir

Quanto a saber se certas profissões parecem atrair pessoas que mentem mais do que a média, Hart diz que essa é uma questão complicada.

Não acontece que as pessoas que mentem muito tendam a gravitar para certos empregos. Pelo contrário, são certos empregos - como vendas, por exemplo – que provavelmente recompensam a capacidade de mentir suavemente, pelo que estas profissões podem ser mais suscetíveis de ter uma maior concentração de pessoas que mentem acima da média.

“As provas que temos sugerem que os políticos não são, pela sua natureza, mais desonestos do que a pessoa típica”, disse Hart. “No entanto, quando as pessoas entram na política, há bastante boas provas de que os políticos mais bem-sucedidos são os que estão mais dispostos a torcer a verdade” e por isso podem ser os mais propensos a serem eleitos.

Só o tempo dirá como a situação pode evoluir para Santos. Até agora, ele tem resistido aos apelos à desistência, dizendo que pretende cumprir o seu mandato no Congresso. Esta semana, no entanto, Santos anunciou que se afastará de qualquer missão da comissão enquanto as investigações estiverem em curso.

E.U.A.

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