48 segundos a 100 milhões de graus: "sol artificial" bate recorde no mais recente avanço para a fusão nuclear

CNN , Laura Paddison
1 abr, 20:25
O KSTAR, conhecido como "sol artificial", no Instituto Coreano de Energia de Fusão em Daejeon, Coreia do Sul, a 10 de janeiro de 2022. (Anthony Wallace/AFP/Getty Images)

Cientistas da Coreia do Sul anunciaram um novo recorde mundial para o período em que mantiveram temperaturas de 100 milhões de graus Celsius - sete vezes mais quentes do que o núcleo do sol - durante uma experiência de fusão nuclear, no que dizem ser um importante passo em frente para esta tecnologia energética.

A fusão nuclear procura reproduzir a reação que faz brilhar o sol e outras estrelas, fundindo dois átomos para libertar enormes quantidades de energia. Muitas vezes referida como o Santo Graal das soluções climáticas de energia limpa, a fusão tem o potencial de fornecer energia ilimitada sem a poluição de carbono que aquece o planeta. Mas dominar o processo na Terra é extremamente difícil.

A forma mais comum de obter energia de fusão envolve um reator em forma de donut, chamado tokamak, no qual variantes de hidrogénio são aquecidas a temperaturas extraordinariamente elevadas para criar um plasma.

Os plasmas de alta temperatura e de alta densidade, nos quais as reações podem ocorrer durante longos períodos, são vitais para o futuro dos reatores de fusão nuclear, afirmou Si-Woo Yoon, diretor do Centro de Investigação KSTAR do Instituto Coreano de Energia de Fusão (KFE), que atingiu o novo recorde.

A manutenção destas temperaturas elevadas "não tem sido fácil de demonstrar devido à natureza instável do plasma de alta temperatura", disse Yoon à CNN, e é por isso que este recorde recente é tão significativo.

O KSTAR, o dispositivo de investigação de fusão do KFE a que se refere como um "sol artificial", conseguiu manter o plasma com temperaturas de 100 milhões de graus durante 48 segundos durante os testes realizados entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024, batendo o anterior recorde de 30 segundos estabelecido em 2021.

Os cientistas do KFE afirmaram que conseguiram prolongar o tempo através de ajustes no processo, incluindo a utilização de tungsténio em vez de carbono nos "desviadores", que extraem o calor e as impurezas produzidas pela reação de fusão.

O objetivo final é que o KSTAR seja capaz de manter temperaturas de plasma de 100 milhões de graus durante 300 segundos até 2026, um "ponto crítico" para poder aumentar as operações, disse Si-Woo Yoon.

O que os cientistas estão a fazer na Coreia do Sul será utilizado no desenvolvimento do Reator Termonuclear Experimental Internacional no sul de França, conhecido como ITER, o maior tokamak do mundo que visa provar a viabilidade da fusão.

O trabalho do KSTAR "será de grande ajuda para garantir o desempenho previsto no funcionamento do ITER a tempo e para fazer avançar a comercialização da energia de fusão", disse Si-Woo Yoon.

Este anúncio vem juntar-se a uma série de outras descobertas no domínio da fusão nuclear.

Em 2022, os cientistas da Instituto Nacional de Ignição do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, nos Estados Unidos, fizeram história ao completarem com êxito uma reação de fusão nuclear que produziu mais energia do que a utilizada para alimentar a experiência.

Em fevereiro deste ano, cientistas perto da cidade inglesa de Oxford anunciaram que tinham estabelecido um recorde de produção de mais energia do que nunca numa reação de fusão. Produziram 69 megajoules de energia de fusão durante cinco segundos, o que é suficiente para abastecer 12 mil casas durante o mesmo período de tempo.

No entanto, a comercialização da fusão nuclear ainda está longe de ser uma realidade, uma vez que os cientistas estão a trabalhar para resolver as dificuldades científicas e de engenharia.

A fusão nuclear "ainda não está pronta e, por isso, não nos pode ajudar a resolver a crise climática", afirmou Aneeqa Khan, investigadora em fusão nuclear na Universidade de Manchester, no Reino Unido.

No entanto, acrescentou, se os progressos continuarem, a fusão "tem potencial para fazer parte de um cabaz de energia verde na segunda metade do século".

Angela Dewan, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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