"O esquerdista New York Times", o título "lixo" e a conversa "totalmente red pill": a tentativa de Flávio Bolsonaro de controlar a narrativa sobre a fuga do Brasil

Há 25 min
Encerramento da campanha de Flávio Bolsonaro (EPA)
Encerramento da campanha de Flávio Bolsonaro (EPA)

Candidato é investigado por alegados crimes de corrupção e branqueamento de capitais e fugiu do país após perder as eleições para Lula da Silva

Desde que fugiu para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro falou publicamente em várias ocasiões. Recorrendo às redes sociais, a aliados e ao jornalismo profissional, o candidato derrotado tenta controlar a narrativa sobre o processo eleitoral no Brasil e a sua saída do país. Nos últimos dias, o senador concedeu entrevistas ao New York Times, ao Washington Post e à Folha de São Paulo, mas nem todas correram como a extrema-direita brasileira esperava.

"Amanhã, a entrevista que a Globo teve medo de fazer com o Flávio Bolsonaro vai sair no The New York Times. Spoiler: totalmente red pill. E é só o começo", escreveu Paulo Figueiredo, aliado da família que vive na Florida, nas redes sociais, no dia 4 de novembro. Três dias antes, Flávio Bolsonaro havia afirmado que foi procurado pela Globo para uma entrevista, mas alegou que a emissora teria rejeitado a condição imposta pelo candidato derrotado de exibir o conteúdo na íntegra e sem cortes.

O New York Times também não seguiu os desejos da extrema-direita brasileira, publicando um texto com algumas citações, sem a entrevista completa. Paulo Figueiredo mudou então o discurso. "Gente, ninguém aqui é cabaço [expressão grosseira que significa ingénuo]", escreveu. "Quando o Flávio Bolsonaro concedeu a entrevista ao esquerdista The New York Times, sabíamos que a notícia viria enviesada. Apenas usamos o Times para o nosso propósito: pautar o Flávio internacionalmente de novo após as midterms [eleições intercalares]. Sobre o conteúdo, pedimos para publicar a íntegra e eles se recusaram".

"Nós gravamos tudinho do nosso lado, e vamos publicar completa para todos assim mesmo. Daí vocês tirem as próprias conclusões sobre o a militância panfletária do ex-jornal em atividade e sobre o conteúdo muito sério do Flavio", afirmou o comunicador, que é neto de João Figueiredo, último ditador do regime militar brasileiro. Na sequência, a publicação faz referência a outras duas entrevistas, ao Washington Post e à Folha de São Paulo.

O Washington Post, tal como o New York Times, não seguiu as recomendações da extrema-direita e optou por não divulgar o conteúdo completo, alternando momentos de discurso direto com passagens de contextualização da política brasileira. A Folha de São Paulo, porém, acedeu ao pedido. Na entrevista, Flávio volta a contrariar a Justiça Eleitoral e o seu próprio partido, que reconheceram a legitimidade das eleições no Brasil. "Nem eu nem Lula podemos falar com 100% de certeza que alguém foi eleito presidente do Brasil", afirmou. O senador reconhece, no entanto, que as acusações de fraude não são sustentadas por provas.

"Não tenho provas e nem terei", admitiu. "É proibido investigar esse assunto". Esta foi, pelo menos, a quarta vez que o senador brasileiro afirmou que o processo foi fraudado.

No passado, Jair Bolsonaro já havia afirmado que as urnas tinham sido adulteradas. Em 2020, o ex-presidente insinuou que teria sido eleito em 2018 na primeira volta e, dois anos depois, também não reconheceu a vitória da centro-esquerda na disputa presidencial.

Em 2022, contrariando a afirmação de Flávio de que "é proibido" investigar as urnas eletrónicas, aliados do então chefe de Estado tentaram encontrar indícios de que a vitória de Lula da Silva resultara de ações criminosas envolvendo o processo eleitoral. "A gente analisa tudo, vai falar, leva pro MD [Ministério da Defesa], traz o especialista e não tem prova nenhuma", afirmou Mauro Cid, na época braço direito do presidente de extrema-direita, em mensagens obtidas pela Polícia Federal. "Não tem nada! Pra esse segundo turno fez muito mais que isso e... não teve nada, não teve nada".

Mesmo sem provas, a extrema-direita brasileira disseminou a informação de que o processo eleitoral havia sido alvo de fraude. Esta ação fez parte da tentativa de golpe de Estado liderada por Jair Bolsonaro. Atualmente, o ex-presidente e outros envolvidos estão a cumprir pena após terem sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal.

Flávio Bolsonaro também levantou a possibilidade de ter vencido logo na primeira volta das eleições. "Qual a garantia que tenho que não venci a eleição no primeiro turno?", questionou. Na primeira volta, o candidato obteve 47,03% dos votos, tendo sido superado por Lula da Silva apenas na segunda. Os dados relativos a cada uma das urnas brasileiras estão disponíveis para consulta pública no portal de resultados do Tribunal Superior Eleitoral.

Apesar das acusações contra o processo democrático no Brasil, Flávio confirmou que continuará a exercer o mandato de senador, mesmo vivendo fora do país. O mandato termina a 31 de janeiro, quando o político deixará de ocupar um cargo eletivo pela primeira vez desde 2003.

Os segredos da fuga

Em todas as entrevistas, Flávio Bolsonaro recusou dar detalhes sobre a fuga do Brasil. Na conversa com o New York Times, o candidato derrotado afirmou que a decisão de fugir do país foi "espontânea" e que fez "tudo sozinho". Segundo uma investigação do próprio jornal norte-americano, o avião utilizado pelo senador foi disponibilizado por um membro da Casa Branca, enquanto uma reportagem da Globo revelou que um antigo agente do Mossad ajudou na operação.

À Folha de São Paulo, a explicação foi ligeiramente diferente, apesar de ter reiterado que não comentaria os detalhes da viagem nem revelaria quem pagou pela fuga. Sobre o antigo agente do Mossad, alegou que "não tem nada a ver com o governo israelense". Questionado sobre o motivo de não revelar quem o ajudou, respondeu: "O Brasil não vive uma democracia plena. Qualquer pessoa do meu entorno vai ser perseguida".

Na mesma publicação em que criticou o New York Times, Paulo Figueiredo também comentou a entrevista concedida ao jornalista Glenn Greenwald, da Folha de São Paulo, apontando o profissional como exemplo. "Aprendam a diferença: o Glenn Greenwald já disse que vai publicar absolutamente tudo da longa conversa com a Folha que Flávio teve hoje. E é assim que tem que ser".

Mesmo assim, o texto não ficou isento de críticas de Figueiredo. O comunicador afirmou posteriormente que a conversa "foi exatamente como tem que ser" e deu os "parabéns" pela divulgação da entrevista completa. No entanto, advertiu: "Que o título da reportagem em si seja um lixo, é o esperado".

O título escolhido pela Folha de São Paulo foi: "Flávio admite não ter prova de fraude, critica volta de Jair ao Brasil e diz querer 2030 assim como Tarcísio". Abaixo, o jornal escreveu: "Senador reproduz teorias conspiratórias e se recusa a responder sobre ajuda em plano de fuga".

A carta oficial

A primeira tentativa de Flávio Bolsonaro de divulgar a narrativa bolsonarista ocorreu nas redes sociais. Pouco tempo depois de chegar aos Estados Unidos, aliados do senador, como o próprio Paulo Figueiredo, divulgaram uma carta escrita pelo candidato derrotado. Inicialmente, o documento apresentava um brasão com a designação Estados Unidos do Brazil, nomenclatura que deixou de ser utilizada pelo país há quase cem anos. Flávio apresentava-se também como o "presidente eleito" do Brasil.

O conteúdo foi alterado cerca de uma hora depois. O brasão foi corrigido e o título de "presidente eleito" foi substituído pelo de "líder do Brasil". Paulo Figueiredo justificou os erros com a utilização indevida de ferramentas de inteligência artificial na edição do documento. "Uma carta que expressa uma realidade tão complexa passa por várias versões, com a contribuição intelectual de mais de uma pessoa", escreveu.

À Folha de São Paulo, Flávio Bolsonaro reforçou a declaração do aliado. "Essa foi a primeira versão da carta e eu já revi essa parte. Eu não sei por que ela acabou se tornando pública", disse.

Segundo o portal de notícias UOL, a alteração resultou de pressões da Casa Branca. Membros do Departamento de Estado norte-americano terão considerado que o conteúdo poderia prejudicar os interesses diplomáticos do país e, por isso, exigido a alteração. A jornalista Mariana Sanches confirmou a informação junto de três fontes ligadas à diplomacia dos EUA.

O conteúdo foi recebido com críticas no Brasil. Os jornais Folha de São Paulo, O Globo e Estadão destacaram o teor "golpista" do documento, que rejeitava o processo democrático.

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