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"Responde-me, porra!, Fernando, preciso que mostres a tua indignação": uma carta de despedida - de Rui Santos para Chalana

10 ago, 15:50
Fernando Chalana (Redes Sociais)

No preto e no branco vejo-te cheio de cor

Ochalá, Chala, continues aí no céu
a fintar tudo e todos na via Láctea

POR RUI SANTOS

 

Hoje, quando acordei, olhei para o céu e vi uma estrela.

Uma estrela a cintilar.

Peguei no meu ‘telescópio’ e alcancei o ‘Chala’.

O ‘Chala’ a preto e branco e a cores.

O ‘Chala’ é o Chalana, nascido no Barreiro e glorificado no Benfica.

Vejo-o debaixo daquela cabeleira farta, a gingar, a galgar terreno, com a bola colada ao pé, na vertical, a somar dribles, a deixar adversários para trás.

Vejo-o com uma cabeleira farta, com um bigode “à portuguesa-dos-anos setenta e oitenta”, e daqui vejo-te com o bigodão e a barba colados às botas.

Vejo-te a dominar a bola com o pé direito e a centrar milimetricamente com o pé esquerdo. Vejo-te a driblar os atacadores, vejo-te a bailar como se fosses um profissional do bailado e tivesses aprendido esses passes na academia de Bolshoi.

Tu tens de ter qualquer coisa do Astérix, não foi por acaso que te chamaram Chalanix, porque vocês beberam a mesma poção, e não foi do vinho, de Bordéus, oh la la, porque foi uma poção de nascença, lá no Barreiro, que te colocou asas nos pés e não no capacete gaulês.

Vejo-te ainda, e neste passo, a preto e branco, mas no preto e no branco vejo-te cheio de cor.

Cor e magia.

Vejo-te a driblar e os teus colegas a baterem-te palmas. As alas que tu abriste são as alas que te prestam homenagem.

Em relação a ontem, foi pouco.

Génios como tu merecem sempre mais.

Quando morremos, somos quase sempre melhores na comparação com aquilo que nos fazem sentir em vida.

As alas que se abrem agora, as palavras ditas e reditas, as homenagens nunca serão suficientes para traduzirem aquilo que deste e foste no futebol.

-    Responde-me, porra!, Fernando, preciso que mostres a tua indignação…

(Silêncio profundo)

-    Pois, já sei, queres continuar igual a ti próprio, humilde, sempre humilde, condescendente perante aqueles que não te ajudaram, perante aqueles que te esqueceram, perante aqueles que te tiraram quase tudo…

(Silêncio anida mais profundo)

— Sim, eu sei, vais ser sempre assim, muito mais ainda no teu descanso eterno. Eu sei, Chala, tu só querias driblar e ser feliz, e agora que estás aí, entre as nuvens, dança, dança muito, dribla, não te canses de driblar, dribla Marte e dribla Júpiter, não perdoes ao espaço concedido pelos anéis de Saturno, vai para cima deles e não lhes perdoes, mesmo que, no final do teu slalom gigante, só queiras ficar com o teu sorriso.

E mais nada. Nem reconhecimento. Bastava-te uma palavra amiga, no meio da tua enorme disponibilidade e de uma memória que se foi apagando, ao contrário dessa luz que nunca se há de apagar.

Eu vou ver-te todas as noites a cintilar e a driblar.

O velho Estádio da Luz enlouquecia com toda  aquela genialidade. Nos corredores ou quando vinhas buscar a bola, quase sempre com alguém colado no encalço.

Tu, o António Simões antes e o Futre depois, fizeram um comboio extraordinário. Parecidos nalgumas coisas mas cada qual com as suas características próprias. O ‘Paulinho’ [Futre] era mais espalhafatoso, tu tinhas um drible — como dizer? — mais científico, o António [Simões] era mais assistente, mais colado à ideia de ‘association’, mais servidor, se quiseres…

Tu eras a mensagem e o mensageiro e de repente, enquanto não chego aí…

… o meu ‘telescópio’ alcança o Europeu de 1984, em França.

— Deixa-te estar. Sim, não pares, faz o teu jogo, eu não tiro nunca o olhar sobre a tua magia, mas deixa-me dar aqui uma espreitadela.

Sim, o Platini jogava como poucos, eu adorava vê-lo naqueles pezinhos de lã, a jogar e a fazer jogar, um puro jongleur, esse sim, um número 10, na camisola e no cérebro, que me fez transpirar, pelo talento a jorros - e que nos matou o sonho depois de teres assistido duas vezes o Jordão, outro rei do nosso futebol tantas vezes incompreendido.

(Dá-lhe um abraço - e já agora ao Vítor Damas, de quem tenho tantas saudades)

Em 1984, precisamente nesse ano, antes de começar o Europeu, em França, com a nossa seleção de sonho (a seleção dos grandes jogadores que foi vítima do contexto e da inexistência de um treinador-líder, com Saltillo a revelar-se dois anos depois…), eu tinha estado na então União Soviética com Futre e Fernando Mendes, no Europeu de Juniores, e uns meses antes havia suscitado a discussão pública, em A Bola, em torno da possibilidade de Futre — uma estrela emergente — ser convocado para a seleção principal, onde já se encontrava… Chalana.

Eu quase me zanguei (zangava-me sobretudo comigo próprio) quando me apercebi que essa possibilidade seria real. Eu defendi que não, porque estava lá o Chalana e o Chalana tomava conta do(s) corredor(es) e com tantas soluções consolidadas e o Futre ir a França para não jogar mais valia não enfraquecer a seleção de juniores, então comandada por José Augusto.

(Mantendo o ‘telescópio’ em pausa)

Aquela ida para Bordéus foi um acontecimento mas não resultou num momento de indiscutível afirmação futebolística no plano internacional por razões de contexto pessoal e familiar.

(Aponto o ‘telescópio’ para o céu)

— Eu sei que não queres que fale nisso, Chala, mas caraças, que azar tu tiveste…

(Silêncio profundo)

— Pois, mas por respeito a ti próprio e ao que nos deste aqui na Terra não me vais impedir de dizer aquilo que penso. E aquilo que penso é que tu, com o teu futebol, jogavas hoje no Real Madrid ou no Barcelona; no City ou no United; no Liverpool ou no Bayern; no Flamengo ou no River Plate. E sempre, sempre, na nossa Seleção…

(Não precisas de me responder porque já sei a resposta)

— Se o dinheiro da tua transferência serviu para transformar em cimento, e com ele foi possível acabar aquela obra monumental do Terceiro Anel, isso significa que entraste duas vezes na história do Sport Lisboa e Benfica. Enquanto jogador e enquanto património.

(Afasto o telescópio

Fernando Chalana faz parte da galeria dos jogadores geniais do futebol português e que representaram a Seleção Nacional. Fica ligado à elite. Muito bem colocado no top 10.

Não teve uma máquina a trabalhar para ele. Não viveu os tempos do marketing inteligente e agressivo. O que seria se, naqueles tempos, o futebol fosse a indústria que é hoje, perante aquele talento de puro diamante?

Um drible chegava para ir para o Monaco ou para o Wolves. Cinco dribles para o At. Madrid. Dez dribles para o Chelsea (há uns anos).

As coisas hoje são mais fáceis.

(Aponto, de novo, o telescópio)

— Fernando, vou continuar a ver-te e a reviver a tua história. Ainda te vou ver a jogar a final da Liga dos Campeões. Sem cabelo e sem bigode. Apenas com o teu jeito de driblar. “Ochalá”, Chala, continues aí no céu  a fintar tudo e todos na via Láctea.

Que o Benfica honre a tua memória.

Que na próxima jornada todos saibamos honrar a tua memória.

Um abraço sentido a todos aqueles que, em vida e também na família, respeitaram o génio que sempre esteve dentro de ti.

Estarás vivo, para sempre, na memória do futebol.

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