Apesar das manifestações de apoio ao regime, o ambiente entre parte da população iraniana é marcado pelo receio e pela incerteza
A derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares norte-americanas foi recebida com celebrações por apoiantes do regime iraniano. Poucas horas depois de serem conhecidos os resultados, multidões reuniram-se na Praça Enghelab, em Teerão, para incendiar um enorme cartaz com imagens do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do vice-presidente JD Vance, do enviado norte-americano Steve Witkoff e do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
Desde então, vários responsáveis iranianos têm manifestado satisfação com os resultados eleitorais, apresentando-os como uma rejeição da guerra de Trump contra o Irão. O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, cujo pai e antecessor, Ali Khamenei, morreu durante ataques em fevereiro, afirmou que "o processo de colapso dos Estados Unidos acelerou".
Ao mesmo tempo, a televisão estatal iraniana transmitiu imagens de uma encenação de um enforcamento de Trump, na Praça Tajrish, em Teerão. A encenação contou com um ator mascarado de Donald Trump, vestido com um uniforme prisional cor de laranja.
Apesar das manifestações de apoio ao regime, o ambiente entre parte da população iraniana é marcado pelo receio e pela incerteza. A deterioração das condições económicas e as dúvidas sobre as consequências da derrota política de Trump para o futuro do país alimentam a preocupação dos habitantes.
Ao The Guardian, Mehnaz, uma jornalista que vive em Teerão, descreve um sentimento de desânimo generalizado e dificuldade em perceber o que poderá acontecer. "Tenho realmente medo. De quê? Ainda não sei. É uma sensação estranha", afirmou.
Apesar das diferentes perspetivas sobre a possibilidade de um novo conflito, existe um receio comum entre os iranianos críticos do Governo: o de que a repressão interna continue, independentemente dos acontecimentos nos Estados Unidos.
Noor, de 24 anos, residente em Karaj, passou, segundo o The Guardian, três semanas na prisão depois de participar nos protestos de janeiro. Para a jovem, a repressão tornou-se um mecanismo profundamente enraizado, que continuará a funcionar independentemente de o país estar em paz ou sob bombardeamentos.
Questionada sobre o que espera dos próximos dias, depois da derrota de Trump, Noor afirmou que a incerteza passou a fazer parte da vida no Irão. "Se alguém dentro do país disser que sabe o que vai acontecer a seguir, está a mentir. Ninguém, absolutamente ninguém, sabe o que vai acontecer. Passámos todo o ano a preparar-nos para o pior", declarou. Ainda assim, diz ter uma certeza: "Esta repressão não vai acabar."