Hugo Vieira: «O meu objetivo é voltar ao Japão»
«Assinei às duas da tarde, às três fui treinar e rompi os ligamentos»
«Seleção? Toda a gente sabe que merecia ter ido, mas não guardo mágoa»
«As pernas ficaram muitas vezes esfarrapadas por cair no pelado»
«Eu não tinha como jogar, não tinha vida profissional»
«O nosso campeonato está a perder qualidade ano após ano»
«Ia ver um jogo de basquetebol com 15 mil pessoas e gritavam o meu nome»
«No Santa Maria, marquei 48 golos fui para a II Liga, se fosse hoje ia para o Barcelona»
«Se tivesse jogado, talvez fosse mais um craque do Benfica a sair por 30 milhões»
Hugo Vieira conta uma das maiores lições que o futebol lhe deu
«Estava a jantar na Sérvia e subiam para cima das mesas a cantar o meu nome»
Entrevista a Hugo Vieira: de Barcelos a uma carreira com muito mundo
Entrevista ao avançado português do Gil Vicente. Das aventuras na Sérvia e no Japão ao Benfica e uma carreira que começou aos 15 anos nos distritais. Uma vida de superações, projetos além-futebol e voltas ao mundo – Parte I
Da freguesia barcelense Galegos (São Martinho) para o mundo do futebol: Hugo Filipe da Costa Vieira. Aos 31 anos, o avançado português está pela quarta vez no Gil Vicente, coração e âncora de uma carreira que já passou por seis países no estrangeiro e teve mais e melhores memórias na Sérvia e no Japão.
O rótulo de goleador que ganhou à porta de casa, no Santa Maria, onde chegou à equipa sénior aos 15 anos, valeu o salto dos distritais para a II Liga em 2009. Três anos depois, o Benfica. Contudo, da estreia que não teve na Luz até à Sérvia, a fase mais difícil da carreira. O que ninguém devia enfrentar: a perda da namorada Edina, em 2015, devido a um problema oncológico. Meses em que os relvados passaram para segundo plano.
No Estrela Vermelha, Hugo renasceu. Superou-se. Foi campeão. Ficou ídolo dos adeptos - tal como no Japão, onde quer voltar - e conheceu a atual companheira. Dos pelados aos grandes palcos nacionais e voltas ao mundo, três projetos fora dos relvados, vontade de acabar a época em campo, muitas histórias e a vontade de ajudar o outro. «Não sabemos o dia de amanhã».
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Maisfutebol (MF) – Voltou ao Gil Vicente e falou de um novo Hugo Vieira. De quem falamos?
Hugo Vieira (HV) – Um jogador com outras características, mais experiente. Com uma escola maior.
MF – Como se deu o regresso ao Gil Vicente?
HV – Na Turquia, lesionei-me no primeiro treino. Assinei às duas da tarde, às três fui treinar e rompi os ligamentos do joelho esquerdo. Vim para cá, operei. Mudou a época, o treinador, muita coisa. Não estava a jogar tanto quanto gostaria e pedi para sair, para voltar ao Gil Vicente. No final da época, vamos ver. O meu objetivo inicial é voltar ao Japão, só que com isto, não sei como vai ficar.
MF – Foi quase um ano a recuperar de lesão na Turquia. A carreira estava a correr bem.
HV – Foi complicado. Nos últimos anos, só tenho a dizer coisas boas. Na Sérvia e no Japão estava a um nível muito bom. Foi complicado voltar a estar bem. Felizmente sinto-me melhor.
MF – Disse que o objetivo é voltar ao Japão. Ao Yokohama?
HV – Tenho uma forte relação com o Yokohama. Na altura, pedi para sair. Tive problemas pessoais de doença na família e queria estar mais perto. Mais pelo horário do que outra coisa. No Japão, são mais oito horas. Quando eu acordava, eles iam dormir.
MF – Mas sente que estão atentos no Japão?
HV – Tanto em agosto, quando estava a recuperar, como em dezembro, tive propostas. Era para sair em dezembro do Sivasspor, para o Japão. Não chegaram a acordo entre clubes e vim para o Gil Vicente.
MF – Como está a ser este regresso? A Liga parou. Não foi como previa…-
HV – Nada como previa. Vim para jogar, para ajudar o clube. Parou quando eu estava a começar a jogar. Ninguém queria isto, mas primeiro está a saúde. Vamos voltar mais fortes.
MF – Como tem sido o dia-a-dia?
HV – Vou andar de bicicleta ou correr num monte conhecido em Barcelos, o monte do Facho. Costumo ir por aí fazer quilómetros e manter a forma.
MF – O Gil Vicente volta aos treinos na próxima semana.
HV – Voltamos no dia 4 [segunda-feira] e estamos todos ansiosos. Sentimos falta da bola, do ambiente de balneário. Na minha ótica, as coisas vão ser diferentes. Vai ser complicado para todos, mas temos de remar para o mesmo lado e acabar da melhor forma.
MF – Acredita que as competições vão ser terminadas em campo?
HV – Acho que sim. E espero. Pela verdade desportiva. Não era assim que desejávamos, mas é assim que tem de ser. Vou apoiar seja qual for a decisão, mas o ideal era dentro de campo.
MF – Na sua perspetiva, preferia jogar? Ou pelas questões de saúde era terminar já?
HV – Eu tenho três doentes de risco em casa e é complicado quando nos deparamos com estas situações. A minha avó, pela idade. A minha mãe, doente oncológica. A minha companheira, gravida. Estou disposto a jogar. Temos de ter cuidado, sim. Mas pela verdade desportiva, merece o nosso sacrifício.
MF – Além do futebol, tem outros três projetos. Uma marca de roupa, uma agência imobiliária e uma de viagens. Como surgiram?
HV – A agência já tem alguns anos, é em Braga e surgiu pela paixão de viajar, pelo conhecimento do mundo. A HV Building é uma empresa de construção, tenho familiares que trabalham há anos nisso. Optei por abrir a minha, porque posso concretizar o sonho de várias pessoas, de ter o seu cantinho. Agora, mais do que nunca, sabemos o quão importante é. Tenho também a marca de roupa, sonho meu de há muitos anos. Está a começar, mas a correr bem também. Vendi muita coisa para o Japão e um dos meus objetivos de voltar lá é por isso. Não me esqueceram e até a minha roupa compram. Pagam quase tanto pela roupa como pelo envio, é caro enviar para o Japão e mesmo assim compram.
MF – É uma preparação para o futuro depois do futebol?
HV – Não tanto. Claro que também tenho de ver o meu futuro, mas eu sou privilegiado. A um determinado tempo da minha carreira, ganhei acima da média, não escondo. Optei por investir no futuro da família. É o mais importante, eu e os meus estarmos bem. Costumo dizer: o dinheiro é importante, mas não é o mais importante. Importante é sentirmo-nos realizados profissionalmente e espalhar o bem, não sabemos o dia de amanhã. Infelizmente aprendi isso da pior maneira. Tenho amigos que pedem ajuda e orientação e eu tento ajudar.
MF – Tem pessoas a trabalhar consigo e a gestão nesta altura de dificuldade tem de ser feita…
HV – Tenho colaboradores, cerca de seis na parte da construção e oito a dez na imobiliária. São muitas famílias, é uma responsabilidade grande e é complicado, mas como costumo dizer, em tom de brincadeira, mas é muito sério, é melhor cortarem a nós jogadores, do que eu cortar a essas pessoas. Os salários não são como os dos jogadores de futebol e eles têm de pôr comida na mesa para as famílias.
MF – Como gere esses projetos além da vida desportiva?
HV – Tenho de delegar. Tenho profissionais excecionais. Os meus pais ajudam-me imenso, as minhas irmãs e o marido e namorado delas também. Sem eles, não seria possível. Está a correr bem. Mais importante que o financeiro, é sentir a felicidade das pessoas, o quão ficam gratas por fazermos as coisas bem. Que continue assim, a correr bem.
