Estas são as competências mais valorizadas pelos empregadores portugueses

ECO - Parceiro CNN Portugal , Isabel Patrício
3 dez 2023, 09:00
Emprego (Adobe Stock)

Estudo "Competências para o futuro do trabalho em Portugal" ouviu 125 organizações para concluir quais são as competências mais valorizadas

A capacidade de trabalhar com pessoas, lidar com a pressão e contrariedades e adaptar-se a mudanças são três das competências mais valorizadas pelos empregadores portugueses, tanto no presente, como olhando para o futuro. Esta conclusão consta do estudo “Competências para o futuro do trabalho em Portugal”, que foi coordenado pela SHL e contou com a participação do ISEG e da VdA.

“Este projeto permitir perceber que as competências profissionais que as organizações hoje valorizam, avaliam e desenvolvem têm alguma sobreposição com as competências que antecipam como importantes para o futuro. Em termos de sobreposição, destacam-se [a capacidade de] trabalhar com pessoas, o lidar com a pressão e a adaptação à mudança. Ou seja, gerir as emoções, gerir a mudança e trabalhar em equipa são e continuarão a ser fundamentais“, sublinha Susana Almeida Lopes, CEO da SHL Portugal, em declarações ao ECO.

Em concreto, no que se refere ao presente, as 125 organizações ouvidas para a realização deste estudo identificar a capacidade de trabalhar com pessoas como competência mais valorizada, seguindo-se o lidar com a pressão, a adaptação à mudança e, depois, a completar o top cinco, o liderar e supervisionar e o planear e organizar.

Já quanto ao futuro, essas organizações portugueses escolhem a adaptação à mudança como competência-chave, seguindo-se, depois, o trabalho em equipa, o lidar com a pressão, mas também o relacionar-se em rede e o criar e inovar.

Ou seja, ainda que o pódio se mantenha ocupado pelas mesmas três competências, de olhos no presente ou no futuro, as características elogiadas que merecem os lugares imediatamente seguintes diferem.

Ou seja, explica Susana Almeida Lopes: “Onde temos diferença é nas competências de trabalhar em rede e de inovação. O futuro irá exigir soluções inovadoras e abordagens diferentes às situações, bem como trabalho em rede, dentro e fora da organização“.

No entanto, o casamento entre essas competências valorizadas e aquelas que se encontram efetivamente no mercado de trabalho pode ser difícil. “Em particular, a dimensão da inovação é uma problemática, bem como o trabalho em rede“, destaca a CEO da SHL Portugal.

Este estudo, importa notar, ouviu não só empregadores, mas também mais de 2.000 profissionais. E, com base na avaliação desses trabalhadores, concluiu que as duas competências referidas por Susana Almeida Lopes estão entre aquelas com as quais os trabalhadores mais têm dificuldades. Aliás, criar e inovar é a mais selecionada pelos inquiridos como uma área a melhorar [ver gráfico abaixo].

“Ou seja, estas duas competências que são salientadas para o futuro são competências com que muitos profissionais se debatem. Inovação é mesmo a competência com os resultados mais baixos de todas“, destaca a responsável.

E atira que estas são competências que “não têm sido alvo de desenvolvimento durante o ensino, que muitas vezes ainda privilegia a memorização e a repetição em detrimento da inovação. E o trabalho individualizado ou pelo menos dentro de portas, com pouca largura para incentivar o trabalho em redes de parceria“.

Dentro das empresas, o problema repete-se, avisa. A gestão “decide o rumo” e as parcerias são a exceção, desmotivando o desenvolvimento das competências de inovação.

Além disso, há também a realçar que as competências de gestão de projeto e de liderança estão também entre as competências mais fracas. “Liderar as pessoas num contexto de transformação e ser capaz de gerir os recursos para a rentabilidade e sustentabilidade fazem a diferença para o sucesso”, salienta Susana Almeida Lopes.

As boas notícias são que o trabalhar com pessoas, lidar com pressão e adaptar-se às mudanças estão entre as competências com menos necessidade de melhorias, isto é, são áreas em que os profissionais já se consideram preparados.

Crise política pode prejudicar formação dos trabalhadores

Num mundo de trabalho em transformação, a formação dos recursos humanos tem conquistado cada vez mais relevo. Neste momento, segundo a CEO da SHL Portugal, o “foco maior” está “em competências de análise de dados, literacia digital, inovação, colaboração e gestão de projeto“. “Mas o nosso país tem várias velocidades“, alerta.

Enquanto há empresas que já pensam na requalificação dos seus trabalhadores para novas funções, noutras isso ainda não acontece. E há que ter também “a consciência de que não vai ser possível as empresas fazerem todo o esforço de requalificação per si“, reconhece Susana Almeida Lopes.

Esta responsável defende, assim, que vai ser necessária iniciativa dos próprios colaboradores e estratégias do país para esta requalificação, nomeadamente através da criação de incentivos fiscais para investimentos na formação direcionada para a requalificação.

Por outro lado, Paulo Lopes Henriques, professor catedrático no ISEG, relata em declarações ao ECO que a capacitação das pessoas tende a ser encarada com um “custo evitável”, numa realidade onde “a perceção competitiva é baixa”. Ou seja, essa é uma visão que não é generalizada no mercado de trabalho português, mas persiste em alguns setores.

“Portugal, um país com a ‘geração mais bem qualificada de sempre’ não devia sofrer desta ‘doença’. No entanto, o desempenho competitivo das organizações em alguns setores do mercado levanta a suspeita que muito ainda há a fazer para mudar a forma como a gestão perceciona o papel dos recursos humanos e da sua capacitação como fator decisivo no sucesso competitivo da organização“, defende.

Já Américo Oliveira Fragoso, sócio de Laboral na VdA, acrescenta que a crise política em que o país está mergulhado pode afetar este esforço de formação dos trabalhadores. “As organizações não são alheias ao contexto político e económico em que se inserem, pelo que a existência de uma crise pode, entre outras coisas, potencialmente afetar o processo de capacitação das pessoas“, sublinha, em respostas enviadas ao ECO.

Com a antecipação das eleições legislativas, havendo quiçá atrasos no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), os orçamento de formação poderão, então, encolher, detalha o advogado.

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