opinião
Embaixador e Comentador da CNN Portugal

França: é fazer as contas

13 abr, 15:57

As próximas duas semanas prometem ser determinantes na escolha do próximo presidente francês

Emmanuel Macron, presidente e candidato, “centrista radical”, obteve, na primeira volta das eleições de domingo, 27,84% dos votos expressos. A conseguir preservar, no segundo turno, a 24 de abril, estes mesmos eleitores (e nada indica que venha a perder esses votos), para ser reeleito terá de conseguir mais 22,17% de votos.

As mesmas contas, naturalmente, estará a fazer Marine Le Pen, a candidata de extrema-direita que tem vindo a “dulcificar” o seu discurso, cuja tarefa parece um pouco mais difícil, porquanto necessitará de mais 26,86% de votos, isto é, de mais 4,69% do que o seu adversário.

Para ambos, os votos em falta poderão vir da abstenção (26,31%) ben como de quantos, no primeiro turno, escolheram votar em outros candidatos.

Embora o eleitorado que, na primeira volta, escolheu um candidato derrotado não tenha, necessariamente, de seguir o seu “conselho” para a segunda volta, naturalmente que esse fator tem alguma importância.

Neste caso, em tese, Marine Le Pen tem um maior potencial teórico de crescimento. Quer o candidato de extrema-direita radical Éric Zemmour, com 7,1% de votos, quer o soberanista Dupont-Aignan, com 2,1%, recomendaram o voto em Le Pen. Se essa indicação for seguida, ela contará, por essa via, com mais 9,2%.

O candidato “verde” Yannick Jadot (4,6%), o comunista Fabien Roussel (2,3%) e a socialista Anne Hidalgo (1,8%) recomendaram também o voto em Macron, o que, em teoria, poderá garantir ao atual presidente mais 8,7%.

Há, no entanto, um pormenor importante a ter em conta. Enquanto a plausibilidade dos eleitores que votaram Zemmour e Dupont-Aignan se transferirem para Le Pen é muito elevada, pela forte proximidade ideológica, já a probabilidade dos eleitores que, na primeira volta, escolheram Jadot, Roussel e Hidalgo se inclinarem para Macron oferece bastantes mais dúvidas, porque partem de áreas políticas bastante diversas da do atual presidente, pelo que só por um raciocínio tático serão levados a votar nele. Embora seja improvável que algum desses votos possa ir para Le Pen, não é de excluir que a abstenção possa vir a ser o refúgio de parte desses votantes.

Pondo de lado Jean Lassalle, um candidato com um programa que podemos designar de populismo simplista, que obteve 3,1% e que já informou que, pessoalmente, iria votar em branco (o que está muito longe de significar que os seus eleitores venham a fazer o mesmo), há que refletir sobre o destino dos votos de Valérie Pécresse e de Jean-Luc Mélenchon.

Pécresse representou o “Les Républicans”, um partido herdeiro de uma das mais poderosas famílias políticas de França, desde De Gaulle, passando por Pompidou, Chirac e Sarkozy, que mantém uma imensa rede pelo país e detém postos importantes na administração descentralizada, bem como um significativo grupo na Assembleia Nacional. Nas eleições de 2017, o “Les Républicans” foi representado por François Fillon, que obteve 20,01%, maugrado escândalos pessoais de última hora que muito afetaram a sua esperada presença na segunda volta. O facto da candidatura do “Les Républicans” ter recuado agora dos 20,01% obtidos com Fillon para 4,48%, mesmo descontada a medíocre campanha de Valérie Pécresse, é considerado, pela generalidade dos comentadores, como significando que Emmanuel Macron terá já beneficiado, desde a primeira volta, do voto de muitos dos tradicionais apoiantes do “Les Républicans”.

Valérie Pecresse disse, na noite eleitoral, que iria votar Macron na segunda volta. Mas o “Les Républicans”, enquanto partido, apenas aconselhou um voto negativo, isto é, disse aos seus simpatizantes para não votarem Marine Le Pen. Várias figuras do partido, a título individual, disseram ter preferência por Macron, mas outros disseram que nunca escolheriam o atual presidente. O antigo presidente Nicolas Sarkozy, que mantém com o partido uma relação complexa mas que tem algum ascendente em certos setores, fez um apelo ao voto em Macron.

Convirá explicar que, no seio do “Les Républicans”, desde que Macron foi eleito em 2017, existe a sensação, porventura exata, de que o partido que apoia o presidente, o “La République en Marche”, tem vindo a crescer, essencialmente, à sua custa. E, aproximando-se as eleições legislativas em 12 e 19 de junho, muitos, dentro do “Les Républicans”, devem temer que um apelo ao voto agora em Macron possa contribuir para “habituar” o seu eleitorado a seguir de novo o presidente em junho, desfalcando ainda mais o partido em termos de votos. E de futuro.

Em toda esta análise, quem resta? Jean-Luc Mélenchon, o candidato da “France Insoumise”, um carismático antigo ministro do socialista Lionel Jospin, que congrega alguma extrema-esquerda e uma ala mais radical dos socialistas democráticos. O destino dos 21,95% de votos que agora obteve (em 2017, já tinha tido 19,58%) permanece o grande mistério e vai ser, com toda a certeza, a chave desta segunda volta.

Mas, antes de irmos por aí, vale a pena lembrar que, embora o Partido Socialista seja uma sombra do que já foi, não deixa, tal como o “Les Républicans”, de ter uma máquina nacional forte e muitos eleitos locais. E tudo parece apontar que muitos simpatizantes da área socialista terão abandonado Hidalgo e decidido votar Mélenchon (com outros a seguirem Macron), porque acreditavam que esse “polo popular” poderia aceder à segunda volta. Esteve perto: faltaram-lhe 2,1 % de votos. Se, tal como aconteceu em 2017, tivesse feito uma aliança com os comunistas, talvez isso tivesse sido possível: Roussel, o candidato comunista, teve 2,3%…

Como se dividirão os votos de Mélenchon, que, tal como já havia feito em 2017, recomendou o “não-voto” em Le Pen, sem no entanto endossar Macron? Embora o reflexo “republicano” de muitos votantes de esquerda os deva levar, maioritariamente, a votar Macron, para tapar o caminho de Le Pen para o Eliseu, esse deve ser um “esforço” muito grande para parte significativa de um eleitorado que fez da crítica acerba ao quinquenato do presidente a sua palavra de ordem. Devemos pensar que, nos votos de Mélenchon, estão muitos “gillets jaunes”, que colocaram a França “a ferro e fogo” durante meses, com a diabolização da gestão de Macron no centro da sua agenda (outros “gillets jaunes” foram já, com toda a certeza, para o apoio a Le Pen). 

A doutrina dos analistas divide-se, nas últimas horas, sobre o destino dos votos em Mélenchon. Há quem diga que eles se dividirão, em partes mais ou menos idênticas, por Macron e pela abstenção, com outra parte significativa a querer “castigar” o presidente, votando Le Pen.

Serve isto para dizer que, se numa lógica de bom senso republicano, uma vitória de Macron sobre Le Pen, ainda que bastante menos folgada do que em 2017 (66,1%-33,9%), parece ser o cenário mais provável, permanece um conjunto de variáveis no terreno cuja quantificação é muito difícil de fazer.

Por isso, as duas semanas de intensa campanha que está em curso, com o debate televisivo entre os dois candidatos, no dia 20 de abril, prometem ser determinantes. E o modo como os abstencionistas vierem a comportar-se pode ser a chave mestra da equação final.

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